Deixara o corpo cair na cama, como quem implorasse por aquilo há muito tempo. Demorou um pouco para que os músculos se descontraíssem e se acostumassem com aquele colchão macio. Mas, enfim, relaxou. Só não quis abrir os olhos.

Era estranho estar de volta, porque na verdade, nunca sentira que tinha ido realmente. Apesar dos seus pais não estarem mais ali, e depois de anos, aquele pequeno apartamento não ser mais o mesmo, alguma coisa não havia mudado. O que era estranho, porque a partida para o outro lado do mundo foi justamente, para buscar mudanças.

Depois que a mãe ficou doente e faleceu, seu pai sumiu no mundo. E mesmo com toda a tecnologia que se tem para localizar uma pessoa hoje em dia, ela preferiu deixar assim. Não, não queria encontrá-lo. Era como se ele tivesse morrido também. Não existia rancor, não existia mágoa; não existia nada. Nem nada o suficientemente forte para que ela quisesse revê-lo.

Quando era mais nova ansiava por uma vida melhor, àqueles sonhos que a gente costuma ter quando criança. Uma casa de frente para a praia, um carro, marido alto, louro e de olhos azuis. Porque os príncipes encantados são loiros e de olhos azuis. Filhos, sim,dois. Um menino e uma menina. O menino primeiro.

Nunca lhe faltou nada, era criança/moleca que subia em árvore e roubava goiaba na casa do vizinho. Quando gostava de alguém pegava o telefone e ligava. Sem medo. Tinha brigas homéricas com seu pai, resposta na ponta da língua. Sua mãe costumava falar que ela tinha o dom da palavra. Era teimosa! O grande mal em ser filha única.

Ruim de ser criança é que a gente cresce. Com ela não foi diferente. E como todo mundo que cresce, ou pelo menos a grande maioria, ligar para alguém que gosta, nem pensar!!! O telefone virou tabu. Falar o que pensa, jamais; descobriu que a melhor resposta era o silêncio. A teimosia se transformou em orgulho e porque será que o vizinho cortou a goiabeira?

Quando se viu sozinha naquele pequeno apartamento, não pensou duas vezes. Arrumou as malas, pegou todo dinheiro que tinha no banco (que não era muito, mas, dava para sobreviver), e partiu no primeiro voo pro outro lado do mundo. O mais difícil foi deixar as lembranças trancadas ali dentro. Porque pra (re)começar, tinha que ser do zero.

Objetivo maior: saber quem ela era de verdade. Iria precisar de muito mais que sete anos no Tibet para descobrir isso.

Partiu. Conheceu muitas culturas e muitas pessoas. Fez amizade de infância. Encontrou príncipes encantados e príncipes de verdade. Mas, foi se apaixonar pelo atendente simpático da lanchonete que comia todo dia. Comidinha com sabor de casa. Ele era brasileiro. Os dois discutiam juntos o fato de terem saído da sua terra natal, para se encontrem no Japão. Se não era destino, era no mínimo cômico.

Toda vez que uma lembrança de casa ousava se aproximar, ela brigava consigo mesma. Não podia. Ela estava ali para descobrir quem era ela sozinha. Sem lembranças. Mas, alguma coisa, naquele apartamento fechado no subúrbio gritava, e ela podia ouvir onde quer que estivesse.

Qual era o sentido da vida?

Por que eu vim ao mundo?

Quem eu sou?

O que eu preciso?

Ela ia respondendo essas perguntas uma a uma. Muito tempo para umas, nenhum tempo para outras. Ela não tinha pressa. O apartamento que esperasse, e que gritasse a vontade. Tinha algo muito mais importante em jogo. Uma vida. A vida dela.

E os anos foram passando.

Um dia ela acordou e fez o que fazia todos os dias. Mas, aquele era um dia diferente. E ela já sabia. Tinha sentido na noite anterior, não sabia como, nem porquê. Talvez pela lua no céu. Mas, o dia seguinte prometia.  Então… Depois de quatro anos, estava na hora de voltar pra casa.

Fez todo ritual da triste despedida, afinal agora ela tinha a quem dar tchau. Fez as promessas de reencontro e de ligar. “Um dia você vai me ver”. “Um dia eu vou te ver”. E foi.

O pequeno apartamento sabia que ela estava voltando. E todas as lembranças dentro dele também. A porta abriu. Deixara o corpo cair na cama, como quem implorasse por aquilo há muito tempo. Demorou um pouco para que os músculos se descontraíssem e se acostumassem com aquele colchão macio. Mas, enfim, relaxou. Só não quis abrir os olhos.

E, então, abriu os olhos.

De todas as lembranças presas ali dentro, teve uma que veio como um furacão. Pouco antes de morrer, sua mãe, dissera algo que ela nunca esqueceu: “Quando me perguntarem o que eu mais gosto em você responderei: os olhos.” Acho que isso foi o que ela entendeu como “vou descansar em paz”.

Ela ainda não sabe quem é, o que quer… Vai precisar de muito mais que sete anos no Tibet pra descobrir isso.