Outro dia me disseram “que decepção!” quando descobriram que ouço Ludmilla e gosto de Big Brother. Há uma ideia de que o escritor está envolto em uma auréola de intelectualidade excludente e erudita. Nos sentamos em bares à meia-luz e recitamos Rousseau, enquanto nossos dentes brilhantes e um tanto quanto amarelos revelam entre uma conversa e outra o nosso gosto por qualquer coisa que não remeta ao popularesco. O que é do povo não nos interessa, somos embalados, cáqui, antipáticos e nos levantamos quando numa festa começa “A danada sou eu”.

Acho curiosa essa ideia, especialmente porque é o oposto do que vejo na função de um artista. Não é sobre declamar poemas no metrô ou usar umas roupas de inverno no verão, é sobre ver gente. Escrever para mim é estar em contato com o outro, mesmo que não seja trocando gota de suor. Mas faz parte do pacote ouvir, olhar no fundo do olho, detectar roer de unhas e um tique nervoso. Detectar vulnerabilidade. Ser artista é poder desbravar, sem muita pompa e circunstância, as nossas entranhas que são similares.

Deus me livre ser solene. Deixem os doutoras para as advogadas, médicas e acadêmicas. Não quero ser importante. Eu quero morrer e deixar que o corpo sirva de adubo para a grama, ser uma refeição entre as formigas será o meu ato mais formidável. Eu vou voltar para o mesmo lugar que o meu avô nordestino, que gostava de quiabo com rabada, inclusive o melhor contador de histórias que conheci. Ô, seu Genézio. Não nasci em Ipanema, nasci numa maternidade em Pilares.

Deus me livre ter a importância dos altos e polidos, dos silenciosos e laicos, dos bradados e estios. Eu serei sempre marginal. Sempre descalça e falida. Nunca boa demais para jogar conversa. A minha vaidade jamais será maior que a minha necessidade de escrever.

Eu não sou boa demais para ritmos musicais que surgem na periferia, não sou boa demais que não possa rir de mim mesma, não sou boa demais para não ser fútil.

Escritores, desçam do pedestal. Não se levem tão a sério. Não sejam elitistas e fardados. Não esperem tanto dos outros e de si mesmos.

Como diz Elvira Vigna, eu sou é bife.

OLHA A EXPLOSÃO QUANDO ELA BATE COM A BUNDA NO CHÃO.


Por Érika Nunes