Enfrentando a debandada do público que corria rumo ao Palco Mundo para o show de Elton John, a cantora islandesa transforma o descaso inicial em uma das apresentações mais sofisticadas e afetuosas do festival, com direito a clássico de Luiz Bonfá em português
Laufey era outra novidade na programação do Rock in Rio 2026. Enquanto uma multidão apressada ignorava as imediações do Palco Sunset e corria em estourada rumo ao Palco Mundo — desesperada para garantir alguns metros quadrados no gramado antes da aguardada despedida de Elton John —, a pouca distância dali se desenhava o milagre mais discreto e elegante desta edição do festival. Escalada para fechar a programação do segundo palco na noite deste feriado de 7 de setembro, a cantora, compositora e multi-instrumentista islandesa Laufey pisou em cena sob a sombra da indiferença. Vencedora de dois prêmios Grammy e aclamada globalmente como a grande responsável por reapresentar o pop tradicional e o jazz à nova geração, a artista ainda era uma figura ilustremente desconhecida para a esmagadora maioria do público presente na Cidade do Rock.
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Um oásis de delicadeza contra a pressa do Palco Mundo
O cenário de partida era ingrato. Tocar logo após a aula magistral de Gilberto Gil e no mesmo intervalo em que a massa humana se acotovelava em busca de espaço para a atração principal da noite fez com que a islandesa enfrentasse o descaso de quem usava o Sunset apenas como corredor de passagem. No entanto, o que poderia ter sido um show esvaziado converteu-se em uma demonstração de força e refinamento. Recusando-se a atuar como mero ruído de fundo, Laufey fez do palco um oásis de delicadeza acústica, capturando aos poucos a atenção até mesmo daqueles que desconheciam por completo a sua trajetória.
Bossa Nova em português e sintonia com a plateia
O momento decisivo dessa conquista deu-se quando a cantora decidiu prestar uma homenagem direta à tradição musical do país. Com uma coragem rara para atrações internacionais, Laufey aventurou-se a interpretar em português a clássica “Perdido de Amor”, joia de Luiz Bonfá. “Desculpem a minha pronúncia, mas penso que a música é internacional”, declarou com extrema simplicidade. A execução delicada desfez qualquer resquício de frieza no gramado. Na sequência, a cantora soltou um simpático “eu te amo”, elogiou a sonoridade do idioma e perguntou ao público se havia cantado bem, sendo acolhida por aplausos efusivos.

Conforme a sintonia se consolidava, a barreira do desconhecimento ruía. Laufey aproximou-se da grade para cumprimentar a plateia e chegou a colocar sobre os ombros uma bandeira estampada com seu próprio rosto. O magnetismo de sua apresentação transbordou até para os bastidores do evento: em um detalhe curioso, Sol de Maria, bisneta de Gilberto Gil, abriu mão de acompanhar o apelo da família no Palco Mundo para assistir de perto ao show da islandesa. Do lado de fora da Cidade do Rock, os espectadores que acompanhavam a transmissão em casa multiplicaram elogios nas redes, encantados com o frescor de uma performance que combinou erudição, sensibilidade e apelo pop.
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Ao encerrar sua passagem pelo Rock in Rio 2026, Laufey provou que a grande música não precisa disputar decibéis com superproduções para se impor. Ao transformar a apressada indiferença do público em uma comunhão afetiva, a islandesa assinou uma das estreias mais marcantes e refinadas do festival, lembrando que a elegância continua sendo a resposta mais altiva ao barulho das multidões.
Act I
- Overture
- Lover Girl
- Silver Lining
- Falling Behind
- Bored
- How I Get
- Too Little, Too Late
- Bewitched (string quartet version)
Act II - Fragile
- Valentine
- Dreamer
- Perdido de amor (cover de Luiz Bonfá)
Act III - Madwoman
- Promise
- From the Start
- Goddess


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