Não é de hoje que há o conhecimento global de que o sexo é uma excelente moeda de troca para todas as áreas. Há quem imagine que o mundo é movido através do dinheiro, mas, provavelmente, o sexo move até mesmo a economia. E, obviamente, um lugar que fatura milhões de dólares, também conhece bastante esse tipo de troca.

Durante muitos anos, casos de abusos, assédios e humilhações foram varridos para debaixo do tapete. Muitas pessoas foram ameaçadas, outras viram suas carreiras simplesmente sumirem do mapa ao enfrentar grandes chefões. O dinheiro e o sexo trabalham junto ao poder.

Não foram poucos os casos que tentaram sair a luz do dia e foram duramente escondidos, desdenhados. Muitas foram as vítimas que, além de diminuídas, foram vistas como prostitutas, interesseiras e loucas. Afinal, como pode alguém andar mostrando pernas? Braços? Ou, até mesmo, serem bonitas? Com certeza estão pedindo. Essa é a maior defesa de quem pratica ou defende, mesmo que inconscientemente, o abuso – e ele pode ser de todos os tipos: de poder, sexual, moral…

Essa premissa vale muito para Hollywood. Corpos esculturais andam acima do talento. E o sexo como moeda de troca também. Um lugar que faz pessoas virarem estrelas, mas é capaz de esconder os mais inapropriados segredos do ser humano. Há alguns dias o pior caso de assédio de Hollywood dos últimos anos ganhou a luz, porém já era conhecidíssimo nos armários fechados do cinema:  Harvey Weinstein e seu histórico de abusos, assédios, depravações, ameaças e humilhações.

Weinstein é um dos maiores produtores do mundo, responsável direto por grandes sucessos, como “Shakespeare Apaixonado”, “Gangues de Nova York”, “Sete Dias Com Marilyn”, entre vários outros. Praticamente, ele produziu tantos filmes que é impossível não ter visto pelo menos cinco deles. E nos Estados Unidos, que o chefe das produções é justamente o produtor, é possível ver o tamanho do estrago que alguém como ele pode fazer.

É responsabilidade do produtor executivo escolher diretores, produtores gerais, técnicos, demais profissionais, atores e liberar a grana. Vamos enfatizar: é responsabilidade do produtor executivo escolher/aprovar atrizes e liberar a grana. Se o diretor X quer a atriz Y, mas o produtor P quer a B, dificilmente o diretor vai ganhar. E dentro dos filmes, Weinstein era o produtor P.

Há 13 anos, já era tão forte o boato de que ele era um assediador, que houve uma tentativa de denúncia. A jornalista por trás da nota foi avisada por grandes figurões para desistir de fazê-la. A arma utilizada para defesa das mulheres, desde então, é uma usada constantemente no dia a dia de quem passa pelo mesmo problema, mas não está em Hollywood: o boca a boca. Mulheres se avisavam de que Weinsten  era assim e do que ele fazia. Dentre os figurões que calaram a jornalista estão nomes como Matt Damon, Ben Affleck e Russel Crowe.

Aliás, o produtor era tão bem relacionado que até mesmo a rainha do cinema norte-americano Mery Streep – que já fez agradecimentos emocionados a ele ao receber alguns prêmios – teve que sair a luz do dia para dizer que desconhecia dos feitos dele. Ben Affleck também disse algo parecido, mas foi criticadíssimo em sua postura. É praticamente impossível que as mulheres se avisassem sem que pessoas próximas a ele não ouvissem. Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, duas atrizes de renome, assumiram que foram assediadas por Weinstein. O episódio com Paltrow merece ser destacado, porque até agora aparece como o único em que um homem enquadrou o produtor-assediador: Brad Pitt, namorado da atriz na época, o enfrentou ao saber que ele havia tentado assediar Paltrow. Pitt mostrou-se um dos poucos a encarar o Weinstein. Parece que vários de seus colegas – como Matt Damon e Ben Affleck, que tem no histórico de sua família um outro assediador: seu irmão Casey – não foram tão entusiásticos assim.

Com a exposição de Weinstein muitas foram as histórias de grandes atores – e até mesmo atrizes – que o defendem, o defenderam e diminuíram seus abusos. Não há nada de novo em Hollywood, apenas uma lupa mostrando que aquele lugar nada mais é do que a vida real com milhões de dólares envolvidos.

Como uma maneira de reparar os danos causados, a produtora em que Weinstein trabalhava, e que ele é um dos fundadores, o demitiu no dia seguinte a publicação do artigo. A história apenas ganhou suas primeiras linhas, há que se esperar para ver se Hollywood está mudando mesmo seus rumos ou apenas ficando dentro de discursos inflamados e bonitos, falando sobre sororidade, justiça, mas empregando e dando o Oscar para abusadores e assediadores – como aconteceu com Casey Affleck, que depois de 3 casos denunciados e abafados de abuso e assédio, foi premiado este ano como melhor ator por “Manchester à Beira-Mar”.

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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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1 thought on “Hollywood e o assédio nosso de todo dia

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