Banda de Manchester fez sua primeira apresentação no país no Palco Sunset, alternou peso e refrões emocionais e ainda pediu ao público que deixasse as telas de lado
Hot Milk precisou esperar oito anos de banda para finalmente tocar no Brasil. Quando aconteceu, a estreia veio logo em um dos maiores festivais do mundo. O grupo britânico subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 na noite desta sexta-feira (4), ocupando o terceiro horário do espaço depois de Di Ferrero e do encontro entre Detonautas e Biquini.
Era uma apresentação curiosa dentro do primeiro dia do festival. Cercado por nomes muito conhecidos do público brasileiro e por um Palco Mundo dominado por Foo Fighters, Rise Against e The Hives, o Hot Milk chegava ao Rio ainda como descoberta para boa parte da Cidade do Rock.
Em cima do palco, porém, não havia exatamente timidez. Os vocais divididos entre Hannah “Han” Mee e Jim Shaw, ambos também nas guitarras, conduziram um show apoiado em riffs pesados, refrões grandes e na mistura de melodias pop com a agressividade que a banda foi acrescentando ao próprio som nos últimos anos.
O repertório passou por músicas como “Swallow This”, “Horror Show”, “90 Seconds to Midnight”, “Sunburn From Your Bible”, “Bad Influence”, “Teenage Runaways” e “Glass Spiders”. Foi a apresentação de uma banda que parece cada vez menos interessada em caber confortavelmente dentro de uma única prateleira.
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Quem é o Hot Milk?

Formado em Manchester, em 2018, o Hot Milk nasceu da parceria entre Han Mee e Jim Shaw, que já se conheciam da cena musical da cidade antes de começarem a escrever juntos. O projeto cresceu com Tom Paton, no baixo, e Harry Deller, na bateria, assumindo o formato de banda nos shows.
Nos primeiros trabalhos, a mistura de emo, power pop e pop punk tornou-se uma das marcas do grupo. O EP “Are You Feeling Alive?”, de 2019, abriu caminho para uma sequência de lançamentos e turnês que colocaria os britânicos ao lado de bandas como Foo Fighters, You Me at Six e Bring Me The Horizon.
O primeiro álbum, “A Call to the Void”, chegou em 2023. Dois anos depois, “Corporation P.O.P” mostrou um Hot Milk mais pesado e também mais disposto a transformar frustração política e social em música. Han e Jim já explicaram que o disco nasceu de uma vontade de olhar menos para conflitos pessoais e mais para aquilo que acontecia ao redor deles.
A banda também buscou uma produção mais orgânica nesse segundo trabalho, utilizando amplificadores, sintetizadores e outros equipamentos analógicos para fugir de um som excessivamente polido. Essa combinação entre refrão fácil de guardar e guitarra que gosta de bater mais forte ajuda a entender o que chegou ao Sunset.
Entre peso e vulnerabilidade
A apresentação encontrou um de seus momentos mais diferentes em “Breathing Underwater”. Depois de uma sequência sustentada por guitarras e vocais intensos, Han diminuiu o ritmo e perguntou se o público estava pronto para se emocionar. Também agradeceu às pessoas que haviam parado diante do palco para acompanhar aquela primeira apresentação da banda no país.
A pausa não durou muito. “Bloodstream” voltou a acelerar o show e colocou novamente o peso no centro da apresentação. Essa alternância é uma característica que acompanha o Hot Milk desde o início. Existe uma facilidade para construir músicas que parecem prontas para serem cantadas por grandes plateias, mas frequentemente os temas por trás delas estão ligados a ansiedade, desgaste emocional, política e desconforto com o mundo ao redor.
No Rock in Rio, a banda encontrou justamente o tipo de palco que permite testar essa fórmula em escala maior. Só havia um problema: nem todo mundo diante do Sunset parecia ter chegado ali por causa deles.
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A estreia também encontrou um público ainda em descoberta

Era nítido, o show possuía um cenário menos eufórico do que o visto em alguns outros da sexta-feira. Enquanto uma parte do público acompanhava a apresentação, outras pessoas aproveitavam o horário para descansar no gramado ou circular pelas ativações de marcas.
É uma realidade comum para bandas internacionais que fazem sua primeira passagem pelo país em horários intermediários de grandes festivais.
O Hot Milk não possuía a memória afetiva que Di Ferrero, Detonautas ou Capital Inicial carregavam no Sunset. Também não tinha, naquele momento, o tamanho de Foo Fighters ou Rise Against para transformar sua presença em destino obrigatório de boa parte do público.
Isso transforma um festival em espécie de teste. Uma parcela chega sabendo exatamente quem está no palco. Outra encontra a banda enquanto atravessa a Cidade do Rock e decide, em poucos minutos, se fica ou continua andando. A estreia do Hot Milk aconteceu nesse território.
“Coloquem o celular no bolso”
E talvez o momento que melhor tenha apresentado a personalidade da banda brasileira, ou melhor, britânica em território brasileiro, tenha vindo antes de “Zoned Out”. Han interrompeu o fluxo para falar sobre a relação com tecnologia. A vocalista pediu que o público guardasse os celulares e estivesse presente com os amigos naquele momento, antes de seguir com a música.
O pedido combina bastante com uma banda cujo trabalho recente critica justamente mecanismos de consumo, comportamento e estruturas que transformam praticamente tudo em produto. Também é uma cena curiosa para 2026.
Pedir para milhares de pessoas guardarem o telefone durante um festival em que praticamente tudo, ingresso, transporte, agenda, filas, brinquedos, comida e redes sociais, passa por uma tela, chega perto de ser um pequeno ato de rebeldia. Mesmo que provavelmente tenha durado até alguém decidir gravar a música seguinte.
Uma primeira visita que apresentou mais do que entregou nostalgia

O Hot Milk não veio ao Rock in Rio para oferecer reconhecimento imediato. Não havia um repertório de músicas que o público brasileiro inteiro conhecesse desde a adolescência. Não havia um grande reencontro ou uma homenagem construída para ativar automaticamente a memória da plateia. Era justamente o contrário. O show funcionava como apresentação.
Han Mee e Jim Shaw chegaram ao Brasil mostrando uma banda que passou do emo power pop dos primeiros anos para um som cada vez mais pesado, político e difícil de reduzir a uma etiqueta. Nem toda a Cidade do Rock comprou a ideia naquele momento.
Mas para um grupo fazendo sua primeira apresentação no país, talvez o resultado mais interessante venha depois: quantas pessoas entraram no Sunset sem saber direito quem era Hot Milk e saíram procurando a banda no streaming?
Grandes festivais também servem para isso. Às vezes, o show mais importante não é aquele que confirma uma paixão antiga. É aquele que apresenta a próxima.
Hot Milk | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@OxiDany)


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