Exibida originalmente entre 2000 e 2001, “O Cravo e a Rosa” se tornou um dos grandes clássicos da faixa das seis. Escrita por Walcyr Carrasco, a novela marcou a estreia do autor na Globo e teve como ponto de partida “A Megera Domada”, de William Shakespeare, além de referências à novela “O Machão”, de Ivani Ribeiro.
Mas por trás das brigas de Catarina e Petruchio havia uma produção cheia de detalhes curiosos.
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1. Eduardo Moscovis quase recusou o papel de Petruchio
Antes de aceitar interpretar Petruchio em “O Cravo e a Rosa”, Eduardo Moscovis ficou receoso de voltar à televisão com um personagem que pudesse ser comparado ao seu trabalho anterior, o taxista Carlão, de “Pecado Capital”.
Em entrevista, o ator explicou que a preocupação surgiu porque a novela chegou a ser chamada de “O Machão” durante sua preparação. Para Moscovis, Petruchio poderia acabar sendo associado ao personagem que havia interpretado anteriormente.
“Não me interessava voltar ao mesmo horário com o mesmo tipo, mas conversei com Avancini e acabei topando” conta Eduardo.
A conversa com o diretor Walter Avancini foi decisiva. Ele explicou ao ator que a nova produção tinha uma proposta cômica, o que ajudou Moscovis a enxergar Petruchio de outra maneira.
O resultado acabou sendo bem diferente do receio inicial: Petruchio se tornou um dos personagens mais marcantes da carreira de Moscovis. Anos depois, o próprio ator contou que também precisou recorrer à caracterização para encontrar fisicamente o personagem, já que se considerava “pequeno” para o papel e imaginava Petruchio como um homem fisicamente maior.

2. Walter Avancini não queria que os atores “fizessem comédia”
Apesar de “O Cravo e a Rosa” ter o humor como uma de suas principais características, Walter Avancini não queria que os atores exagerassem nas interpretações ou transformassem os personagens em caricaturas.
Eduardo Moscovis relembrou a orientação do diretor anos depois no site Folha de Londrina:
“Ele falava que não queria comédia, pois ela estava dentro da história. Não queria tipos ou piadas sublinhadas.” — relembra Moscovis.
A proposta era fazer com que os atores interpretassem as situações com naturalidade, sem tentar provocar o riso de maneira artificial. O humor deveria nascer das próprias circunstâncias e da personalidade dos personagens.
A escolha acabou sendo fundamental para a construção de Petruchio e Catarina. As brigas do casal funcionavam justamente porque, apesar das situações absurdas, os personagens não pareciam estar conscientemente “fazendo graça” para o público.
3. Petruchio ganhou seu jeito de andar por causa dos coturnos
A caracterização de Petruchio foi cuidadosamente construída. Beth Filipecki sugeriu que Moscovis deixasse cabelo e barba crescerem e clareasse os pelos para dar ao personagem uma aparência de alguém queimado de sol. O ator também usou coturnos que o ajudavam a caminhar de maneira pesada e ele considerava esse andar parte importante da composição do personagem.
4. Catarina teve uma inspiração que pouca gente imagina: Emília
O visual de Catarina não surgiu apenas de referências dos anos 1920. A figurinista Beth Filipecki também se inspirou na Emília, do “Sítio do Picapau Amarelo”. As roupas da personagem receberam cores fortes, além de acessórios masculinos, como gravatas, para traduzir sua personalidade independente.
5. A produção pesquisou até o jeito de falar dos anos 1920
Para que “O Cravo e a Rosa” tivesse uma ambientação convincente, elenco e equipe participaram, durante duas semanas, de um workshop sobre os costumes da sociedade paulistana dos anos 1920. A preparação contou com uma palestra do historiador Nicolau Sevcenko, professor da Universidade de São Paulo.
A preocupação também chegou à linguagem. A especialista em cinema dos anos 1920 Carla Miucci realizou uma extensa pesquisa de vocabulário a partir de cartas de leitores publicadas em jornais e revistas da época, recuperando palavras e expressões utilizadas naquele período. Walcyr Carrasco também leu textos de Monteiro Lobato e Oswald de Andrade para se familiarizar com o linguajar dos anos 1920.
Em entrevista publicada durante a exibição da novela, Carrasco explicou que as referências culturais apareciam nas próprias falas dos personagens:
“São comentários que os personagens fazem de acordo com cada situação, como, por exemplo, falar sobre algum artista conhecido na época” conta Walcyr.
O cuidado com a linguagem fazia parte de uma preocupação maior da produção em recriar aquele período. Por isso, “O Cravo e a Rosa” não buscou apenas vestir seus personagens com roupas de época: a equipe também pesquisou como aquelas pessoas poderiam falar, quais referências culturais conheceriam e quais costumes faziam parte da sociedade paulistana dos anos 1920.
6. Pedro Paulo Rangel realmente aprendeu a ordenhar uma vaca
Para interpretar Calixto, o fiel companheiro de Petruchio, Pedro Paulo Rangel precisou aprender algumas habilidades que faziam parte da rotina de uma fazenda. Entre elas estava ordenhar vaca.
A preparação do ator fazia parte do cuidado da produção para tornar o núcleo rural de “O Cravo e a Rosa” mais convincente. Os atores que faziam parte do núcleo da fazenda também tiveram aulas de equitação e aprenderam a fabricar queijo, ordenhar vacas e até pegar galinhas.
E o realismo não ficou apenas na atuação. A fazenda de Petruchio foi gravada em um sítio na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde foram montados a casa, o estábulo, o chiqueiro, o galinheiro e o espaço destinado à fabricação de queijo.
Para as cenas em que os personagens produziam queijo, a equipe contou com o auxílio de uma cooperativa, que fornecia diariamente 30 queijos prontos, 60 litros de leite líquido e 60 litros de leite coalhado para as gravações.
Ou seja, até os alimentos que apareciam nas cenas faziam parte da preocupação da produção em criar uma fazenda que parecesse realmente funcionar e Pedro Paulo Rangel precisou literalmente colocar a mão na massa e aprender o trabalho do campo para dar vida a Calixto.

7. A novela usou carros antigos de verdade
Para recriar São Paulo em 1927, a produção de “O Cravo e a Rosa” foi cuidadosa até com os automóveis que circulavam pelas ruas da cidade cenográfica.
O Clube Fordinho, formado por colecionadores de veículos antigos de São Paulo, emprestou sete Ford Modelo T, fabricados entre 1919 e 1927, para serem utilizados nas gravações. Ou seja, os carros que apareciam nas ruas da novela eram veículos históricos de verdade, e não apenas réplicas cenográficas.
A cidade cenográfica também contava com um bonde elétrico adaptado a um carrinho elétrico, capaz de transportar cerca de 20 pessoas, além de diferentes espaços que reproduziam a São Paulo da época.
O cuidado impressionou até quem estava dentro da produção. Ney Latorraca, que interpretava Cornélio, relembrou o trabalho anos depois:
“Esse foi um trabalho em que tudo deu certo. As pessoas ficavam impressionadas com a qualidade do que era visto” conta Ney Latorraca.
O resultado ajudou a fazer com que a São Paulo dos anos 1920 parecesse muito mais do que um simples cenário de novela: os objetos, veículos e detalhes das ruas contribuíam para transportar o público para aquele período.

8. Personalidades reais apareceram escondidas em O Cravo e a Rosa
Quem assistiu a “O Cravo e a Rosa” quando a novela foi ao ar talvez tenha passado por algumas cenas sem imaginar que havia figuras importantes da história brasileira escondidas no meio daquela São Paulo dos anos 1920.
Nas primeiras semanas da novela, Walter Avancini colocou pequenas aparições de personalidades que realmente fizeram parte da vida cultural daquele período. Entre elas estavam Tarsila do Amaral, Bidu Sayão, Oswald de Andrade e Monteiro Lobato, que aparecia acompanhado da esposa, Maria Pureza.
Não havia grandes apresentações dizendo quem eram aquelas pessoas. Elas simplesmente apareciam, como se fizessem parte naturalmente daquele universo. E talvez seja justamente isso que torne a lembrança tão gostosa hoje: a novela escondia pequenas surpresas para quem prestasse atenção.
Em uma das cenas, durante uma regata de Heitor, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade foram representados juntos. A participação fazia referência ao ambiente artístico e cultural da São Paulo daquela época.
Para quem acompanhava a novela diariamente, provavelmente era apenas mais uma cena entre tantas. Mas, revendo “O Cravo e a Rosa” anos depois, esses pequenos detalhes ganham outro significado.
É como reencontrar uma novela antiga e perceber que havia coisas ali que a gente não tinha idade, conhecimento ou atenção suficiente para notar na época.
Quase como um “easter egg” histórico escondido em uma novela que muitos de nós assistíamos sem imaginar que, anos depois, voltaríamos a procurá-los.
9. Curiosidade extra: ator mirim revelou ter sofrido racismo nos bastidores
Uma história pouco conhecida dos bastidores de “O Cravo e a Rosa” veio à tona anos depois da exibição da novela. Luiz Antônio do Nascimento, que interpretou Buscapé aos 13 anos, revelou que sofreu situações de racismo durante as gravações.
Em entrevista à Marie Claire, relembrada pelo NaTelinha, o ator contou que o preconceito era “muito latente” e afirmou ter ouvido pessoas dizerem que não queriam permanecer no mesmo espaço que ele.
“Quando fiz a novela, lembro que o preconceito era muito latente. Ouvia coisas como ‘eu não vou ficar aqui’, a chegar ao ponto de não querer ocupar o mesmo espaço que eu. No sentido de eu não ser elenco” conta Luiz Antônio do Nascimento.
O ator também falou sobre o apoio que recebeu de colegas durante aquele período. Segundo Luiz Antônio, Ângelo Antônio lhe presenteava com livros sobre teatro, Ney Latorraca o orientava profissionalmente e Adriana Esteves criou uma relação de proximidade com ele: “A Adriana Esteves me adotou como filho”, contou.
O relato ganha um peso ainda maior quando lembramos que Buscapé era um personagem negro inserido em uma novela ambientada nos anos 1920. Ao revisitar “O Cravo e a Rosa” hoje, essa história dos bastidores acrescenta uma camada que normalmente fica escondida pela memória afetiva da produção.
É importante, porém, deixar claro: trata-se do relato pessoal de Luiz Antônio sobre situações que vivenciou durante a novela, e não de uma acusação contra todo o elenco ou contra toda a produção.

No fim, é justamente esse cuidado nos detalhes que torna “O Cravo e a Rosa” tão gostosa de rever. Por trás das brigas de Catarina e Petruchio, das trapalhadas de Cornélio e das histórias daquele núcleo caipira, havia uma produção que pensava nos detalhes: pesquisava a linguagem dos anos 1920, estudava os costumes da época, construía uma cidade inteira e até escondia personalidades reais em pequenas cenas.
É curioso voltar à novela tantos anos depois e perceber que algumas coisas que pareciam naturais para quem assistia em 2000 eram, na verdade, resultado de escolhas muito cuidadosas. Talvez por isso a memória de “O Cravo e a Rosa” permaneça tão viva: não é apenas a lembrança de Catarina e Petruchio brigando na televisão, mas de um período em que a gente sentava para assistir à novela sem imaginar tudo o que acontecia por trás daquela tela.
E quando a gente revê, descobre que a novela que já conhecia ainda guardava algumas histórias que nunca tinha contado.
Imagem destacada: Divulgação/TV Globo


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