Cantor abriu o Palco Sunset ao lado de Luedji Luna e Zaynara em um show que cruzou MPB, soul, samba, música afro-brasileira e novos caminhos de sua carreira
Jota.Pê chegou ao Rock in Rio 2026 com uma missão particularmente bonita: abrir o Palco Sunset na sexta-feira, 11 de setembro, e fazer daquele primeiro encontro do dia uma celebração de diferentes caminhos da música brasileira. Ao lado de Luedji Luna e Zaynara, o cantor colocou MPB, soul, samba, referências afro-brasileiras e a música amazônica para conversar durante cerca de uma hora. O resultado foi uma apresentação que cresceu junto com o público e mostrou por que seu nome vem ocupando cada vez mais espaço na cena nacional.
A apresentação também carregava um significado particular para o artista. Era a primeira vez que Jota.Pê levava um show próprio ao festival, algo que ele já vinha descrevendo como um sonho antes de entrar no palco. O projeto havia sido pensado especialmente para o Rock in Rio, com duas convidadas que ele declaradamente admirava e com quem desejava dividir uma apresentação havia algum tempo. Luedji Luna e Zaynara não vieram só para fazer participações pontuais: seus repertórios foram incorporados ao show e ajudaram a construir a identidade daquele encontro.

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Um repertório que não ficou preso a um único lugar
Jota.Pê abriu a apresentação com “Uns Cafuné a Domicílio” e passou por “Crônicas de um Sonhador” antes de ampliar rapidamente o repertório para músicas de outros artistas. “Arriadin por Tu”, de Zé Vaqueiro, apareceu na sequência, enquanto “A Ordem Natural das Coisas”, de Emicida, trouxe outra referência para dentro do show. Essa circulação entre composições próprias e músicas que dialogam com seu universo artístico ajudou a deixar claro desde cedo que a proposta não era simplesmente apresentar uma coleção de sucessos.
Também houve espaço para olhar para o futuro. Jota.Pê apresentou “Até Outro Dia Amor”, single lançado em agosto e que funciona como uma espécie de passagem para seu próximo trabalho de estúdio, previsto para 2027. A canção experimenta novas possibilidades dentro de uma carreira já marcada pelo trânsito entre gêneros e ganhou no Rock in Rio seu primeiro grande palco desde o lançamento.
Essa liberdade talvez seja uma das características mais interessantes de Jota.Pê. Mesmo depois do reconhecimento conquistado com “Se o Meu Peito Fosse o Mundo”, ele não parece interessado em encontrar uma fórmula e repeti-la até que deixe de funcionar. O show no Sunset mostrou justamente o contrário: havia espaço para canções autorais, releituras e diferentes tradições musicais sem que a apresentação parecesse uma colagem de referências desconectadas.
Zaynara traz o Pará para dentro do Sunset
A entrada de Zaynara mudou a temperatura do show e colocou outra região do país no centro da apresentação. A cantora paraense dividiu com Jota.Pê “Quem Manda em Mim” e “Eu Me Enganei”, duas músicas de seu próprio repertório, levando ao Sunset a mistura de brega, beat melody e pop que vem definindo sua identidade artística.
O encontro funcionou justamente porque as diferenças entre os dois artistas não precisaram ser escondidas. Jota.Pê não tentou transformar Zaynara em extensão do próprio som, enquanto ela também não precisou abandonar a energia que caracteriza seu trabalho para se encaixar na proposta do anfitrião. A graça estava em observar esses universos ocupando o mesmo palco e encontrando pontos de contato.
Antes do festival, Jota.Pê já havia contado que os dois falavam há algum tempo sobre a possibilidade de compor juntos. O Rock in Rio acabou funcionando como uma espécie de primeiro grande capítulo público dessa aproximação. Mesmo sem uma parceria inédita entre eles no repertório, a química no palco deixou aberta a possibilidade de que esse encontro ainda produza outros resultados.
Luedji Luna leva o show para outro lugar
Com Luedji Luna, a apresentação ganhou outro tipo de densidade. A cantora entrou para interpretar “Acalanto”, incluindo ainda um trecho de “The Sweetest Taboo”, de Sade, e permaneceu para “Banho de Folhas”. O encontro entre as duas vozes encontrou um espaço particularmente confortável dentro da proposta musical de Jota.Pê, sobretudo pela relação dos dois com soul, MPB e matrizes afro-brasileiras.
Luedji também chegava ao palco em um momento importante da carreira, depois de conquistar o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB por “Um Mar Pra Cada Um”, em 2025. Sua presença não funcionou como aquele recurso tradicional de festival em que um convidado entra, canta rapidamente e desaparece. O repertório dela ganhou espaço próprio e ajudou a modificar a sonoridade da apresentação enquanto estava no palco.
Foi justamente nessa troca que o conceito preparado para o Sunset ficou mais claro. Eram artistas de regiões, repertórios e experiências diferentes compartilhando uma apresentação sem a necessidade de uniformizar tudo. A diversidade estava na própria música, sem precisar virar discurso decorativo entre uma faixa e outra.

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“Beija-Flor” reúne todo mundo no mesmo palco
Depois de passar por “Ouro Marrom”, um dos principais trabalhos de Jota.Pê, e seguir para “No Mundo”, o encerramento encontrou a imagem que melhor sintetizava a apresentação. Luedji Luna e Zaynara voltaram ao palco para cantar “Beija-Flor” junto com o anfitrião, reunindo os três artistas no último momento do show.
Era uma conclusão coerente para uma apresentação construída muito mais sobre encontro do que sobre protagonismo individual. Jota.Pê poderia ter utilizado sua estreia no Rock in Rio para concentrar todos os holofotes sobre si. Preferiu abrir espaço. E essa decisão acabou dizendo bastante sobre o artista que ele vem se tornando.
O Jota.Pê no Rock in Rio 2026 mostrou uma música brasileira que não precisa escolher entre tradição e novidade, nem fingir que existe apenas uma maneira de representar o país. Em uma hora de show, São Paulo encontrou a Bahia, que encontrou o Pará, enquanto samba, soul, MPB, beat melody e outras referências circulavam pelo mesmo palco. O Sunset começou o dia ainda recebendo o público que chegava à Cidade do Rock, mas encontrou ali um show que merecia atenção muito além do horário de abertura.
Talvez esse tenha sido o maior acerto da apresentação. Jota.Pê não entrou no Rock in Rio tentando provar que cabia em um festival daquele tamanho. Subiu ao palco levando exatamente o universo musical que construiu até aqui e chamou duas artistas para ampliá-lo. Quando os três terminaram juntos em “Beija-Flor”, a estreia já tinha encontrado sua melhor fotografia: diferentes vozes dividindo o mesmo espaço sem que nenhuma precisasse diminuir para a outra aparecer.
Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Ferreirafotoss)


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