Entre caveiras “prerigosas”, aulas de aritmética que nunca começam, discos voadores e uma quantidade preocupante de barriga, digo… corações, relembramos dez “lições” que Chaves deixou para uma geração inteira
Silêncio! Silêncio! As anteninhas de vinil detectaram uma ameaça! Não, não é o Chapolin Colorado tentando solucionar um mistério que ele mesmo criou. É a saudade chegando em velocidade máxima. Porque existe uma coisa curiosa sobre “Chaves”: nós crescemos, mas a Vila parece ter ficado congelada no tempo.
A televisão mudou, os programas mudaram, os memes ganharam formatos novos e aquela criança que chegava da escola para assistir às confusões de Chaves, Quico, Chiquinha, Seu Madruga e companhia virou adulta. Mesmo assim, basta ouvir uma determinada frase para a memória fazer todo o trabalho.
“Foi sem querer querendo”; “Da parte de quem?”; “PRERIGO!”; “Não contavam com a minha astúcia!”
E pronto. Estamos de volta.
Para celebrar o Dia das Crianças, decidimos revisitar algumas das maiores pérolas de “Chaves” e descobrir quais foram as grandes lições que aprendemos com a turma da Vila. É claro que algumas são questionáveis do ponto de vista científico, histórico e até moral.
Mas isso nunca impediu ninguém da Vila de ensinar alguma coisa.
1. Essa caveira significa… PRERIGO!

Toda criança aprende cedo que caveira é sinal de perigo. Mas poucas tiveram uma aula tão convincente quanto a turma do Professor Girafales.
Em “Chaves”, qualquer objeto minimamente suspeito pode virar motivo para uma explicação que começa simples e termina em uma verdadeira conferência internacional. E quando aparece uma caveira, não há muito o que discutir:
Essa caveira significa… PRERIGO! Ouviu bem? PRE-RI-GO!
Essa talvez seja uma das primeiras grandes contribuições pedagógicas da série. Não precisamos de tratados complexos de segurança. Não precisamos de gráficos, estatísticas ou apresentações de PowerPoint. Tem uma caveira? É “prerigoso”. Pronto.
Aliás, esse era um dos grandes méritos do humor de Chespirito: transformar situações banais em acontecimentos monumentais e, principalmente, fazer com que uma frase simples fosse suficiente para ficar gravada na memória.
Hoje, provavelmente você nem precisa lembrar exatamente do episódio. Basta alguém desenhar uma caveira e aquela icônica aula do Seu Madruga aparece automaticamente na sua cabeça. Lição aprendida.
LEIA MAIS
CCXP26 | O Que Queremos Ver no Maior Evento de Cultura Pop do Mundo?
Blade | Quem é o Caçador de Vampiros da Marvel?
Digger | Entre o Esplendor da Imagem e o Caos Narrativo
2. Bem, dizia eu, que a aritmética é…
Eu não acredito, você está assobiando do outro lado da tela? Aposto que sim, não é?
Poucas frases representam tão bem o caos da Turma da Boa Vizinhança quanto essa. O Professor Girafales entra na sala decidido a ensinar seus alunos. É um homem culto, paciente e aparentemente preparado para qualquer coisa. Até tentar dar aula.
E começa a batalha.
Uma interrupção aqui. Uma pergunta ali. Alguém discutindo. Alguém fazendo graça. Godinez em outro planeta. Chaves falando alguma coisa que não deveria. Pópis complicando. Chiquinha respondendo.
O resultado é que o Professor Girafales precisa repetir a mesma frase tantas vezes que mais de 40 anos depois, ainda não sabemos o que é a aritmética. A cena é registrada em episódios como “A Prova de Aritmética”, em que a tentativa de chegar ao conteúdo da aula parece uma missão impossível.
E aprendemos algo extremamente importante: ser professor é padecer do inferno.
Mais especificamente, não é fácil ser professor quando sua sala de aula parece uma convenção internacional de crianças com energia ilimitada. Talvez por isso Girafales tenha desenvolvido aquele eterno:
“Tá, tá, tá, tá, TÁ!”
No fundo, todos nós já fomos o Professor Girafales em algum momento da vida, tentando explicar alguma coisa enquanto alguém interrompe sem parar.
3. O gato ou o Quico?
No episódio do julgamento pelo atropelamento do gato de Quico, Chaves é questionado sobre o que aconteceu e responde repetidamente com a mesma pergunta:
“O gato ou o Quico?”
E o mais genial é que, por alguns minutos, absolutamente ninguém consegue conduzir aquela conversa de maneira normal.
— O gato ou o Quico?
— O gato.
— E o Quico?
— Também.
A sequência pertence a “Era Uma Vez, Um Gato…”, de 1975, cuja segunda parte transforma a confusão em um verdadeiro julgamento com o Professor Girafales como juiz, Quico como acusação e Seu Madruga na defesa.
É uma aula prática de como não responder a uma pergunta objetiva. E talvez essa seja a razão pela qual a cena sobreviveu tão bem ao tempo. Porque todo mundo conhece aquela pessoa que, quando você faz uma pergunta simples, consegue transformar a resposta em um labirinto.
Chaves só levou esse talento ao nível máximo.
4. Da parte de quem?

Existem perguntas tão normais que ninguém imagina que possam gerar um dos maiores bordões da televisão brasileira. Até o Quico ouvir algo sobre sua mãe.
“Da parte de quem?”
Pronto.
A pergunta original já não importa mais. A lógica de Quico é maravilhosa porque transforma uma situação absolutamente cotidiana em uma espécie de protocolo diplomático. Quem quer falar com Dona Florinda precisa apresentar documentação, identificação e, provavelmente, duas testemunhas.
O bordão aparece associado às situações em que perguntam pela mãe de Quico, e acabou entrando para a coleção das frases imediatamente reconhecíveis do personagem. É outro daqueles casos em que a frase se tornou maior do que a própria cena.
Hoje, basta alguém perguntar:
— Sua mãe está aí?
E existe uma resposta que praticamente surge sozinha:
“Da parte de quem?”
A infância ensinou protocolo de segurança.
Obrigado, Quico.
5. O que Pedro Álvares Cabral fez ao colocar o primeiro pé no Brasil?

Finalmente, uma aula de História.
O Professor Girafales pergunta. A turma pensa. Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. E então vem uma das respostas mais brilhantemente idiotas de toda a série:
“Pôs o outro, né? Senão ele caía!”
Tecnicamente, é difícil contestar. Depois de colocar um pé no chão, seria mesmo complicado continuar equilibrado com o outro suspenso no ar.
A cena pertence a “Uma Aula de História”, episódio em que Girafales tenta ensinar sobre o descobrimento do Brasil enquanto os alunos produzem uma sequência de respostas absurdas. Décadas depois, talvez você não lembre de toda a aula.
Mas Pedro Álvares Cabral? Esse você sabe exatamente o que fez quando chegou ao Brasil.
6. E quem é que consegue dormir com tanto grito, com tanta bruxa, com tanto…?
Seu Madruga queria apenas uma coisa: dormir. Um lugar tranquilo. Silêncio. Uma noite de sono. Coitado; escolheu morar na Vila. Dormir naquele lugar é uma tarefa para guerreiros.
Tem criança gritando, gente correndo, bruxa, confusão, pancadaria, o Senhor Barriga aparecendo na hora errada, Dona Florinda procurando o alvo da próxima bofetada e, provavelmente, a Bruxa do 7… Digo, a Dona Clotilde procurando uma paquera.
Seu Madruga resume a situação de maneira perfeitamente compreensível ao reclamar que ninguém consegue dormir com tanto grito e tanta brux… digo, barulho.
A lição é clara:
Escolha muito bem seus vizinhos.
Porque um aluguel barato pode sair caro quando você mora ao lado de uma senhora apaixonada por você, uma criança que mora em um barril e outro que usa as bochechas como arma de guerra.
7. “Já chegou o disco voador!”

Uma criança qualquer gritaria: “Seu Barriga chegou!” Mas Chaves não. Para avisar ao Seu Madruga de que o dono da Vila estava chegando, um plano é estabelecido e a frase escolhida é:
“Já chegou o disco voador!”
O problema é que Quico também tem um disco voador de brinquedo. E aí você já pode imaginar a tragédia.
No episódio “O Disco Voador”, o aviso combinado se mistura com o brinquedo de Quico, e a confusão passa a operar em um nível que somente a Vila seria capaz de produzir. A cena aparece em versões associadas a capítulos de 1977, enquanto o tema também remete ao clássico “Discos Voadores”, de 1974.
Essa é uma das grandes lições que Chaves deixou para a humanidade: Não crie códigos secretos muito complicados.
8. Os apelidos mais famosos do Professor Lingui… digo, Girafales
Ser professor já é difícil. Mas ser professor na Vila é pior. Além disso, ter a altura do Professor Girafales é pedir para virar alvo de criatividade infantil.
O homem ganhou uma quantidade impressionante de apelidos (anota aí): Professor ou Mestre Linguiça, Mangueira de Bombeiro, Quilômetro Parado, Tobogã de Salto Alto, Sabugo de Milho, Trilho em Pé, entre muitos outros.
É praticamente uma enciclopédia para zoar o seu amigo com mais de 1,80 m de altura. E o melhor é que Girafales mantém aquela dignidade de quem está tentando ignorar uma criança que acaba de comparar seu corpo a uma peça de encanamento.
Isso nos ensina duas coisas. Primeiro: crianças têm uma capacidade quase sobrenatural de inventar apelidos. Segundo: Nunca subestime a imaginação de quem está sentado no fundo da sala. O Professor Girafales provavelmente saiu da escola com diploma, mas deixou a Vila carregando uma pós-graduação em alcunhas.
9. Quanta barriga o senhor tem, Senhor Coração, digo…
O Senhor Barriga é a prova de que até uma característica física pode se transformar em um universo inteiro de piadas. E a Vila nunca perdeu uma oportunidade. A confusão entre barriga e coração é especialmente perfeita porque combina duas das características mais marcantes do personagem: a enorme barriga e o enorme coração.
Porque, por trás das piadas, Seu Barriga é também um sujeito surpreendentemente bondoso. O personagem, interpretado por Édgar Vivar, é o dono da Vila e passa boa parte da série tentando cobrar o aluguel do Seu Madruga, mas frequentemente também demonstra generosidade com os moradores.
Então talvez essa seja uma lição que “Chaves” ensinou sem precisar fazer discurso: Não julgue alguém apenas pelo tamanho da barriga.
Especialmente quando a barriga pertence ao homem que ainda insiste em cobrar os seus 14 meses de aluguel.
10. A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena
E, depois de nove lições completamente questionáveis, chegamos à única que deveria ser levada a sério. Seu Madruga pode ser enrolado, desempregado, azarado e viver fugindo do Seu Barriga. Mas de vez em quando ele simplesmente solta uma sabedoria que parece ter saído de um filósofo:
“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.”
A frase virou um dos maiores bordões associados ao personagem e atravessou a série muito além da própria cena. É claro que existe uma enorme ironia nisso.
Estamos falando do mesmo homem que passa boa parte da vida discutindo, levando pancadas, devolvendo provocações e tentando sobreviver ao caos da Vila.
Mas talvez seja justamente por isso que funciona. As melhores lições de Chaves nunca precisaram ser perfeitas. Elas precisavam ser humanas. E Seu Madruga, talvez mais do que qualquer outro personagem, representava isso: alguém cheio de problemas, mas também cheio de carinho, orgulho, humor e uma capacidade impressionante de encontrar alguma sabedoria no meio da confusão.
COMPRE AQUI
Amazon Echo Show 8 (Geração mais recente) – Com novo design, tela vibrante HD de 8,7
Hollyland Lark M2 Microfone de Lapela sem Fio(2TX+3RX), Transmissão Sem Fio de 1000ft
Soundbar TCL com Subwoofer sem fio Bluetooth 2.1 Canais HDMI ARC S55H
Esta pode ser a maior coisa que aprendemos com Chaves
O tempo passa. Nós crescemos. A vida muda, as responsabilidades chegam e aquelas tardes aparentemente intermináveis da infância ficam cada vez mais distantes. Mas basta ouvir uma velha frase, reconhecer uma música ou encontrar aquela cena que já assistimos dezenas de vezes para, por alguns minutos, tudo parecer igual novamente.
Voltamos para a Vila. Voltamos para a infância. E rimos das mesmas coisas.
Rimos da tinta amarela que deixa invisível, de um rato na contramão, dos churros da Dona Florinda, das trapalhadas do Seu Madruga e de todas aquelas situações absurdas que aprendemos a decorar sem perceber.
Só que agora existe algo diferente. Enquanto rimos, também lembramos de quem éramos quando assistimos àquilo pela primeira vez. É por isso que “Chaves” continua tão especial. Nós não voltamos à série porque esquecemos as piadas.
Voltamos justamente porque as conhecemos. Sabemos o que vai acontecer. Sabemos o que cada personagem vai dizer. Sabemos até o momento exato em que a cena vai terminar. E mesmo assim, rimos. Talvez porque algumas coisas simplesmente não envelheçam.
Talvez porque, em algum lugar dentro de nós, aquele velho sofá, aquela televisão e aquela criança que assistia à turma da Vila ainda estejam esperando pela próxima reprise. E quando ela começa, por alguns minutos, nós somos crianças outra vez.
Obrigado, Chaves. E obrigado, Chespirito, por nos fazer acreditar que adultos também podem ser crianças que o tempo transformou. Obrigado pelas risadas, pelas frases que nunca esquecemos e, principalmente, por nos lembrar de que crescer não significa deixar a infância para trás. Às vezes, significa apenas aprender o caminho de volta até ela.
E, quando chegarmos lá… “Foi sem querer querendo.”


Sem comentários! Seja o primeiro.