Em nova parceria com Netflix, Ben Affleck traz filmes com possibilidades não alcançadas em “Sobrevivência”
Há uma aptidão em termos de thriller urbano que falta a muitos filmes de streaming atuais, e a filmografia do ator e diretor Ben Affleck usualmente tenta preencher essa lacuna.
O astro estadunidense tem demonstrado, desde que estreou na direção com “Medo da Verdade” (2007), uma afinidade nata pela linguagem cinzenta e recheada de tensão desses projetos de suspense ou policialescos.
Seus longas tradicionalmente testam a moralidade ou expõem a imaturidade e a corrupção dos tipos que compõem o mosaico das metrópoles contemporâneas, destacando-se por falar abertamente de privilégio, marginalização e pontes quebradas entre classes sociais opostas.
Em “Sobrevivência”, seu mais recente trabalho lançado na Netflix, essa proposta ganha novos contornos ao misturar os bastidores da alta política de Los Angeles com uma trama de sequestro.
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Aqui, o próprio Ben Affleck interpreta Mark Kimball, um candidato independente à prefeitura (e isso significa que ele mesmo tem que colocar a mão no bolso), sem ajuda de nenhum partido e que construiu toda a sua carreira política em cima de discursos rígidos de honestidade e mudanças estruturais aliás, como todo político.
Sua vida perfeita desaba na noite de Halloween, quando um sequestrador em entra em contato com uma ligação ameaçadora, informando que sequestrou seu único filho pequeno, Denny (interpretado por Christopher Woodley).
Para reaver o garoto vivo, Kimball precisa arranjar uma quantia absurda de dinheiro (US$ 7 milhões) em tempo recorde, enquanto equilibra o desespero pessoal com a estratégia fria de sua campanha eleitoral, cortesia do personagem Sam, interpretado de forma bem protocolar por Steven Yeun.

Ao lado dele nesta noite de pesadelo estão sua esposa Abigail, vivida por Kerry Washington, e além de Sam, uma conselheira misteriosa com ares de mafiosa chamada Dayle Burton (a hipnótica Gillian Anderson), convocada pelo ambicioso conselheiro de campanha.
A teia narrativa ainda envolve figuras periféricas essenciais para a engrenagem social da cidade, como a babá Cecilia (Adriana Paz) e seu namorado Ramon (Luis Gerardo Méndez), um imigrante mexicano em situação ilegal.
A premissa inicial oferece um terreno riquíssimo para discussões profundas sobre as hipocrisias da classe política, o peso da imigração, as barreiras entre ricos e pobres perante a Justiça e o preço real da ambição.
No entanto, é exatamente na marca de uma hora de projeção que “Sobrevivência” começa a perder o prumo.
E mais, após a primeira e mais importante reviravolta na trama, essa premissa mostra-se idêntica ao clássico “Céu e Inferno” (1963) do mestre japonês Akira Kurosawa que não revelaremos para não entrar em spoilers e que inclusive no ano passado teve uma outra refilmagem americana “Highest 2 Lowest” (lançado no Brasil como “Luta de Classes”, dirigido por Spike Lee e estrelado por Denzel Whashington.

A diferença é que o filme do ano anterior tinha como foco um magnata da música, mas a premissa é idêntica e numa atitude estranha da produção, não vimos durante os crédito qualquer referência ao filme japonês.
No decorrer do filme o grande decréscimo da produção reside na relutância do texto em arcar com o peso das próprias escolhas.
Se a proposta era escancarar atitudes inescrupulosas de figuras públicas obcecadas pelo poder, o filme poderia ou precisava mergulhar de cabeça nessa sujeira moral, mas não o faz, ficando na superfície.
Por outro lado, caso quisesse celebrar um triunfo cínico do pragmatismo sobre a ética, exigiria coragem para bancar essa premissa até as últimas consequências. Mas infelizmente, a direção opta por um meio-termo frustrante.
Há indícios de que o peso do próprio Ben Affleck como ator que não tem tantas habilidades dramáticas, sucumbe quando poderia ousar mais na cadeira de roteirista e diretor que essa trama exigia.
O resultado é uma narrativa que acumula subtramas e situações de forma isolada, gerando reviravoltas que passam longe de causar o impacto dramático prometido no primeiro ato.
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O próprio protagonista sofre com essa hesitação: em vez de um homem dilacerado de forma complexa entre o instinto paterno ou se entregar aos seus instintos políticos, Mark Kimball surge apático e sua dinâmica conjugal com a personagem de Kerry Washington carece de liga emocional genuína.
Nem mesmo um elenco estelar, repleto de talentos testados em grandes suspenses, consegue salvar os personagens do esvaziamento dramático.
Em suma, “Sobrevivência” tinha no papel todos os ingredientes para se equiparar aos melhores momentos da carreira de diretor de Ben Affleck, como “Argo” e “Atração Perigosa”.
Contudo, ao fugir de um posicionamento mais ousado e apostar em soluções seguras, mornas e confusas, o longa entrega um desfecho anticlimático que desperdiça o potencial de suas excelentes discussões temáticas e se torna o filme menos prestigiado de Affleck.
Imagem Destacada: Divulgação/Netflix



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