Uma jornada de quatro décadas que começou na Belo Horizonte dos anos 80, conquistou o planeta fundindo guitarras com ritmos indígenas e se prepara para o adeus definitivo
A história do Sepultura é uma das mais fascinantes e resilientes crônicas do heavy metal mundial. Fundada em 1984 em Belo Horizonte, Minas Gerais, pelos irmãos Max e Igor Cavalera, a banda não apenas colocou o Brasil no mapa da música pesada, mas também redefiniu o gênero ao fundir o thrash metal com ritmos brasileiros e indígenas. Ao longo de quatro décadas, o grupo passou por mudanças drásticas de formação, tragédias pessoais e uma evolução sonora constante, consolidando um legado que será celebrado até sua despedida na edição 2026 do Rock In Rio, festival fundamental na trajetória, e o encerramento definitivo das atividades logo a seguir.
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Os primórdios e o metal extremo (1984-1986)
A semente do Sepultura foi plantada quando Max e Igor, inicialmente influenciados por bandas como Black Sabbath e Iron Maiden, descobriram o metal extremo através de fitas da famosa loja Woodstock Discos, em São Paulo. O nome da banda surgiu de forma quase literal: Max estava traduzindo a música “Dancing on Your Grave” do Motörhead, e a palavra “grave” foi vertida para o português como “sepultura”.
A formação original contava com Igor na bateria, Max na guitarra, Paulo Jr. no baixo e Wagner Lamounier nos vocais. Após a saída de Wagner, Max assumiu o microfone e a banda recrutou Jairo Guedez para a segunda guitarra. Essa cisão acabou dando origem ao Sarcófago, alimentando uma das rivalidades mais intensas, agressivas e criativas da história do metal extremo nacional.
Com recursos limitados e instrumentos muitas vezes emprestados, gravaram o EP “Bestial Devastation” (1985) e seu primeiro álbum de estúdio, “Morbid Visions” (1986). Estes trabalhos iniciais, marcados por uma produção precária e letras traduzidas com ajuda de dicionários devido ao parco conhecimento de inglês dos músicos, tornaram-se marcos fundamentais do death e black metal mundial.
A era de ouro do Thrash e reconhecimento mundial (1987-1992)
O ano de 1987 marcou uma virada crucial com a entrada do guitarrista paulista Andreas Kisser, substituindo Jairo Guedez. Com Kisser, o som da banda tornou-se muito mais técnico e orientado ao thrash metal, culminando no lançamento de “Schizophrenia”. O sucesso internacional do disco atraiu a Roadrunner Records, que assinou um contrato de sete anos com o grupo sem sequer tê-los visto pessoalmente.
Em 1989, lançaram Beneath the Remains, produzido por Scott Burns. Este álbum é frequentemente comparado ao clássico “Reign in Blood” do Slayer e provou o potencial comercial do grupo, atingindo a marca de 800 mil cópias. A consagração definitiva veio com “Arise” (1991), que vendeu mais de um milhão de cópias e foi o primeiro disco da banda a figurar nas paradas da Billboard. O lançamento se deu logo após o avassalador show no Rock In Rio II, na noite do metal, ainda com dia claro por conta do horário de verão. Ali, o público brasileiro se deparou com a sonoridade que já encantava os amantes do metal nos Estados Unidos e Europa.
Foi neste período que o quarteto se mudou para Phoenix, Arizona, buscando facilitar a logística internacional. No entanto, a fama trouxe desafios: um show gratuito na Praça Charles Miller, em São Paulo, terminou em tumulto e na morte de um fã, gerando um mito negativo que prejudicou a imagem da banda no Brasil por anos.
A evolução do groove e o impacto de “Roots” (1993-1996)
Com “Chaos A.D.” (1993), o Sepultura começou a incorporar elementos de groove metal e críticas sociais diretas, como no hino “Manifest”, que denunciava o massacre do Carandiru. A experimentação foi tanta que a icônica faixa de abertura, “Refuse/Resist”, traz em sua introdução os batimentos cardíacos reais do primeiro filho de Max, Zyon, captados ainda no útero. Igor Cavalera também começou a explorar ritmos tribais, mudando sua técnica de bateria para incluir mais tons e percussão.
Essa exploração atingiu seu ápice em “Roots” (1996), considerado um monolito na música pesada. Produzido por Ross Robinson, o álbum fundiu o metal com ritmos brasileiros e contou com a participação do percussionista Carlinhos Brown, além de gravações com a tribo Xavante no Mato Grosso. Dave Grohl definiu “Roots” como um dos álbuns mais bem gravados da história do metal, e seu sucesso colaborou diretamente para o surgimento do nu metal, influenciando bandas como Slipknot e Korn. No entanto, no auge do sucesso comercial, com mais de dois milhões de cópias vendidas, as tensões internas explodiram.
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A ruptura histórica: a saída de Max Cavalera
O conflito que mudou o rumo da banda aconteceu em dezembro de 1996, após um show em Londres. Andreas, Igor e Paulo decidiram não renovar o contrato com a empresária Gloria Cavalera, esposa de Max, alegando que ela priorizava os interesses do marido em detrimento do grupo. Sentindo-se traído por seus companheiros e pelo próprio irmão, Max resolveu deixar a banda.
O rompimento foi traumático. Andreas revelou posteriormente que a banda se sentiu abandonada e perdeu grande parte do que levou dez anos para construir, incluindo orçamentos que foram convertidos para o novo projeto de Max, o “Soulfly”. Max, por sua vez, passou por um profundo inferno pessoal, recorrendo a álcool e drogas antes de retomar sua carreira musical. Tentativas de reunião ocorreram nos anos seguintes, mas Andreas sempre afirmou que uma volta com a formação antiga não faria parte de quem a banda se tornou.
Superação e a Estreia de Derrick Green (1997-2005)

Contra as expectativas do mercado de que a banda acabaria, o trio remanescente iniciou uma busca global por um novo frontman. Após ouvirem inúmeras fitas, escolheram o americano Derrick Green, que impressionou pela voz potente e sintonia imediata com os integrantes. Em 1998, lançaram “Against”, um álbum experimental marcado pelo hardcore e por participações especiais que iam de João Gordo a Jason Newsted.
Embora as vendas de “Against” e seu sucessor, “Nation” (2001), tenham sido inferiores às da era Max, Derrick Green provou ser fundamental para a manutenção e sobrevivência da banda. Em 2003, lançaram “Roorback”, que recuperou parte da energia sonora anterior e teve uma recepção muito mais calorosa por parte da crítica especializada.
Saída de Igor e o período de álbuns conceituais (2006-2011)
Em 2006, o Sepultura lançou o ambicioso “Dante XXI”, inspirado na Divina Comédia de Dante Alighieri. No entanto, antes do início da turnê, Igor Cavalera anunciou sua saída, alegando incompatibilidades artísticas e falta de interesse em longas rotinas de estrada. Sua partida foi menos traumática que a de Max, pois ele já vinha sinalizando o desejo de parar.
Jean Dolabella assumiu as baquetas para o álbum “A-Lex” (2009), inspirado no livro Laranja Mecânica. Foi o primeiro álbum da história da banda sem nenhum dos irmãos Cavalera. Em 2011, lançaram “Kairos”, produzido por Roy Z, que celebrou a trajetória do grupo com um som mais pesado e cru. Logo após o lançamento, Dolabella deixou o grupo e foi substituído pelo jovem prodígio Eloy Casagrande, então com apenas 21 anos.
Maturidade e excelência técnica (2012-2023)
A entrada de Eloy Casagrande trouxe uma nova injeção de energia técnica à banda. Discos como “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (2013) e “Machine Messiah” (2017) mostraram um Sepultura extremamente virtuoso, denso e obscuro. Em 2017, o documentário “Sepultura Endurance” registrou essa trajetória de resistência, embora os irmãos Cavalera tenham se recusado a participar ou permitir o uso de músicas antigas na produção.
O ápice dessa fase moderna foi o aclamado álbum “Quadra” (2020), estruturado em partes que representavam todas as fases da banda: do thrash clássico ao groove e ao metal progressivo. “Quadra” foi o álbum mais bem-sucedido comercialmente desde a década de 90, entrando em paradas musicais de diversos países e sendo aplaudido por sua qualidade técnica superior.
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O anúncio do fim e a turnê de despedida (2024-2026)

Em dezembro de 2023, o Sepultura surpreendeu o mundo ao anunciar que encerraria definitivamente suas atividades com a turnê mundial Celebrating Life Through Death. Andreas Kisser explicou que a decisão foi tomada de forma consciente, para celebrar os 40 anos do grupo no auge de sua performance física e musical.
Contudo, pouco antes do início dos shows em 2024, a banda foi pega de surpresa com a saída repentina de Eloy Casagrande, que partiu para se juntar ao Slipknot. O grupo agiu rápido e recrutou o americano Greyson Nekrutman, de apenas 22 anos, para assumir a bateria na reta final. A turnê de despedida, que deveria durar um ano, foi estendida devido ao imenso sucesso global e carinho do público, com o show final agora previsto para ocorrer em meados de 2026.
Hoje, restam da formação clássica apenas Andreas Kisser e Paulo Jr., acompanhados por Derrick Green e Greyson Nekrutman. Para Kisser, que enfrentou perdas familiares profundas nos últimos anos, a turnê tem sido uma forma de agradecer aos fãs e honrar o legado de uma instituição que, independentemente de quem estivesse no palco, sempre se orgulhou de suas raízes e de sua impressionante capacidade de sobreviver. O capítulo final promete incluir um álbum ao vivo com 40 faixas gravadas em 40 cidades diferentes, encerrando em definitivo uma das trajetórias mais influentes da história do rock mundial.
Imagem Destacada: Divulgação/Sepultura (via site oficial)


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