Os dias se arrastavam na mesma velocidade que o barco deslizava sobre a água barrenta do Rio Madeira. Estávamos dentro do barco “Dois Irmãos” com destino a Porto Velho. Isso aconteceu em meados de Janeiro de 2014, por conta do projeto Turista Aprendiz.

Na cidade de Humaitá, 16 horas antecediam a minha chegada a Elizeu Braga, o Poeta Beradero. Decidimos, talvez mais por insistência minha do que por um consenso comum, a descer e pegarmos um taxi. O barco com suas infinitas redes penduradas, e besouros gigantescos amontoados dentro da pia do banheiro me causavam náuseas. Os ribeirinhos já não eram novidade. No porto daquela cidade que não tinha nenhum apartamento maior que 3 andares, conseguimos desenrolar 2 taxistas. A estrada nos prometia 2 horas até Arigóca.

Arigóca, que fica no bairro de Arigolândia, terra dos Arigós. Os Arigós, soldados da borracha que vieram trabalhar em Porto Velho, durante o ciclo da borracha. Ficaram conhecidos assim, pois na região havia um pássaro migrador, chamado Arigó. Dizem que vinham amontoados em um navio, semelhante aos pássaros dormindo. Conheci um Arigó na Casa dos Arigós, o avô da Regina, bem velhinho, contou as suas histórias como se fosse cochicho. Eu ouvi.

Na madrugada, batemos à porta, exaustos depois de vararmos a madrugada escura e nublada. Lá dentro, véus eram os cômodos, as paredes que resistiam eram poemas, sem tv e nem cama, chiamos inconformados. A figura imponente de Frida Kalho na parede e Eduardo Galeano enfileirado na estante da biblioteca improvisada já anunciava aqueles que transitavam pela casa.

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O Turista Aprendiz reunido na Arigóca, junto com o Elizeu, a Regina e o Diego

Em uma conversa que tive com o Elizeu via WhatsApp, ele me disse que aquele espaço tinha surgido em 2013, e que tinha sido fruto de um projeto coletivo, nomes como Regina, Wandes, Dom Lauro, apareciam em sua fala. A iniciativa havia partido dele, e da Regina Mourão, que cuidou de toda a parte organizacional e administrativa. A Arigóca se enraizou na cidade como ponto de resistência e militância. Nos poucos dias que estive, teve um sarau. Nos outros acompanhei pelas redes sociais, as atividades nunca terminam, a aproximação de pessoas com pessoas, de pessoas com os livros, contação de histórias, esquetes de teatro, bazar, saraus e intercâmbios com pessoas que cá estão no Norte, cá estão no Sul. A memória sempre presente na oralidade, na fisionomia, nas fotos que bombardeiam meu facebook.

Depois de ter ido embora de lá, não só eu, como também meus amigos, nos dias que acordamos em nossas casas, ainda sentíamos a energia do lugar. Algumas vezes, eu despertei na madrugada, com esperança de ver o gato mascote da casa que estava internado, e não pude conhecer.

Elizeu, no fim de 2015, veio para o Sudeste. Esteve na Balada Literária, em São Paulo e depois chegou ao Rio de Janeiro. Declamou um poema na cozinha do apartamento da Alice, enquanto fazia tapioca, depois leu histórias de um dos livros de Eduardo Galeano.

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Elizeu Braga

Contou sobre o livro que lançou, Cantigas, que ficou entre os 20 melhores livros lançados em 2015, segundo o site Livre Opinião. Nas conversas posteriores, falamos também sobre o seu livro Mormaço e do próximo lançamento, último livro da trilogia, Remoso.

Coragem para prosseguir, porque o que fortalece são os encontros. Porque nós oferecemos algo que vem do fundo da nossa alma, e que nos torna semelhantes ao próximo. Não foi exatamente nessa ordem de palavras o que ele disse ao final do último áudio, mas envolvia essa força, essa esperança.

 

 

Por Valeska Torres

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