O filme revela não apenas o artista revolucionário que dominava os palcos, mas o menino por trás do mito marcado pela ausência paterna, pela pressão precoce e por uma infância interrompida cedo demais, que ele tentou, à sua maneira, resgatar na vida adulta
No dia 23 de abril, chegou aos cinemas “Michael”, a cinebiografia mais aguardada pelos fãs e admiradores do maior artista que o mundo já conheceu: Michael Jackson , entre os períodos da pré-produção, início, pós-produção e refilmagens todo o processo do filme durou cerca de 3 anos para ser finalizado.
Uma espera que valeu a pena quando vemos o resultado final.
O início de tudo – A história do ícone pop começa na infância
O filme Michael nos leva ao início da vida do artista, ainda na infância, no fim dos anos 60, na cidade de Gary, Indiana. Uma infância marcada pela pobreza, dificuldades e pela relação conturbada com o pai, que, ao mesmo tempo em que exigia perfeição absoluta nos palcos, também impunha medo dentro de casa.
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Joseph Jackson trabalhava incansavelmente em uma usina siderúrgica para sustentar a família. Rígido e severo, transmitia disciplina através do medo. No ambiente doméstico, a figura paterna assumia quase um papel militar, em que os filhos obedeciam sem questionar. O filme mostra que erros, seja em notas musicais ou passos de dança, eram frequentemente punidos com rigor, especialmente no caso de Michael.
O perfeccionismo de Joseph em relação às performances do grupo (episódio bem explicado no longa) e sua exigência constante por perfeição no palco criaram uma sensação de que nunca era o suficiente. Vale lembrar que esse perfeccionismo de Joseph era intenso, e Michael era apenas uma criança, como é mostrado e explicado no filme. Esse padrão acabou refletindo em Michael Jackson ao longo de toda a sua vida.
Esse perfeccionismo em Michael teve dois lados: por um lado, o levou a um nível extraordinário de atenção aos detalhes e a um cuidado minucioso na preparação de suas turnês, danças, canções; por outro, o submeteu a uma cobrança física intensa, chegando a ensaiar até a exaustão. Esse comportamento tem raízes na figura paterna que deveria protegê-lo, mas que também impunha uma disciplina rigorosa.
Além da cobrança artística, havia também ataques à sua aparência, com palavras que contribuíram para inseguranças que o acompanhariam por toda a vida. Os ensaios eram intensos e constantes, e a busca por oportunidades era incessante, tudo em nome de tirar a família da pobreza, ainda que à custa de uma infância interrompida.
Foi nesse contexto que Michael Jackson iniciou sua trajetória como vocalista principal do grupo The Jackson 5, ao lado dos irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon, alcançando enorme sucesso nos anos 70 com hits como “I Want You Back”, “ABC” e “Dancing Machine”.
No entanto, como acontece com muitas crianças inseridas precocemente na indústria do entretenimento, as marcas emocionais são inevitáveis. No caso de Michael, isso se intensifica pela relação difícil com o pai, frequentemente mencionada pelo próprio artista ao longo de sua vida.
Em meio a esse ambiente, ele encontrava acolhimento em Katherine Jackson, a matriarca da família, que exercia um papel de apoio e afeto constante.
Embora Katherine sofresse com a forma de agir de seu marido de maneira mais contida, no longa é possível perceber uma evolução em seu comportamento diante das imposições dele e do método disciplinar aplicado aos filhos. No início, vemos que ela demonstra certo receio em enfrentá-lo, podendo-se dizer até um medo de confrontá-lo diretamente. No entanto, com o passar dos anos, Katherine passa a se posicionar mais e a enfrentá-lo em alguns momentos, defendendo os filhos e questionando seus métodos.
O filme retrata essa relação conturbada até onde sua classificação e proposta permitem. Houve discussões recentes sobre uma possível suavização desse sofrimento, já que relatos do próprio Michael indicam que a realidade teria sido ainda mais dura.
Em entrevista a Oprah Winfrey, o artista comentou sobre o pai:
“Talvez eu fosse a criança de ouro dele. Alguns chamam de educação severa, mas ele era muito rígido, muito difícil e rigoroso. Só um olhar dele já dava medo. Às vezes ele ia me visitar e eu ficava enjoado, vomitava.”
Mesmo com certa suavização, a mensagem permanece clara. O filme opta por um equilíbrio. Não romantiza a rigidez de Joseph Jackson, mas também evita um retrato excessivamente pesado, considerando que a obra dialoga com diferentes públicos, inclusive mais jovens, preservando, ao mesmo tempo, o legado de Michael Jackson.
Nem tudo precisa ser explícito para ser sentido. Em muitos momentos, o que não é mostrado pesa tanto quanto aquilo que está em cena.
Mais do que expor feridas de forma direta, o longa parece optar por respeitar a memória e a complexidade de uma história que ainda atravessa gerações e envolve uma família real, com limites que vão além da narrativa cinematográfica.
Talvez o maior acerto esteja justamente nisso: permitir que o público sinta, reflita e preencha essas lacunas, entendendo que por trás do mito existia um menino que, mesmo em meio ao sucesso, ainda buscava algo simples, mas essencial, ser amado.

Um homem, mas ao mesmo tempo um menino que não pôde viver sua infância
Michael deixa claro que o fato de MJ ter passado toda a infância na estrada, na TV, ensaiando sem parar, sem poder vivê-la como outras crianças, além de enfrentar a falta de afeto do pai, o impactou profundamente. Essa ausência ajuda a explicar muitos de seus comportamentos na fase adulta, muitas vezes mal compreendidos.
Michael sentia falta de amigos, e o filme evidencia isso. Esse vazio fez parte de seu conflito interno e ajuda a entender o carinho que demonstrava pelos animais, muitos deles considerados excêntricos, aos quais ele se referia como amigos.
Seu jeito brincalhão e, em alguns momentos, com traços mais infantis, é retratado com fidelidade, trazendo uma nova percepção sobre Michael Jackson, que por muito tempo foi julgado sem que esse contexto fosse levado em conta.
Seus irmãos, já na fase adulta, seguiram suas próprias vidas e formaram suas famílias, o que intensificava ainda mais o sentimento de solidão de Michael.

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Pequeno no tamanho, gigante em cena: Juliano Valdi impressiona como Michael Jackson
A atuação de Juliano Valdi é um dos pontos mais tocantes do projeto. Mesmo com pouca idade, ele consegue transmitir uma carga emocional impressionante, especialmente nos momentos de embate com Joseph Jackson. Há uma sensibilidade tão genuína em sua interpretação que, em diversos momentos, desperta no público um instinto quase protetor.
Seja na versão legendada ou dublada, a emoção permanece intacta, reflexo de uma atuação verdadeira e profundamente conectada com o personagem. Sua voz, seus gestos e sua dança demonstram um cuidado raro, como se compreendesse, de forma intuitiva, quem era Michael em sua essência. Mais do que interpretar, Juliano transmite. E é justamente isso que torna sua performance tão marcante, ao revelar não apenas o talento precoce, mas também o afeto e a humanidade que sempre fizeram parte de Michael Jackson.

O que o filme mostra… e o que ainda está por vir
Mais do que revisitar a infância de Michael Jackson, o filme propõe um olhar sensível sobre as origens de sua complexidade, ainda que escolha caminhos mais contidos ao retratar certas feridas. O que se vê é suficiente para sentir, mas também deixa claro que há camadas que permanecem além do alcance da tela.

E talvez seja justamente nesse espaço, entre o que é mostrado e o que se preserva, que surge a necessidade de continuar essa análise. Porque compreender o menino é apenas o primeiro passo. Na segunda parte desta crítica, o olhar se volta para o artista, o espetáculo e a construção do ícone. Da atuação de Jaafar Jackson à recriação dos momentos mais marcantes da carreira de Michael Jackson, é onde o filme expande sua narrativa e revela novas camadas do Rei do Pop.
Imagem Destacada: Divulgação/Universal Pictures

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