Uma verdade humana, pálida, por vezes transparente e esquecida
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 “Vira e mexe”, Hollywood lança um filme com a Segunda Guerra Mundial como tema substancial. Seja pré, durante ou pós-guerra, as marcas deixadas e presentes até hoje servem para inúmeras histórias à serem contadas. “Memórias Secretas (Remember)” é mais um ótimo exemplar que chega aos cinemas nacionais na próxima quinta, 12 de maio.
 
A trama inicia-se em um asilo onde Zev (Christopher Plumer), aos 80 anos, aceita a missão que seu amigo Max (Martin Landau) lhe propõe. Mesmo após tantos anos, Zev sai do asilo em busca de um guarda nazista de Auschwitz para puni-lo pelo assassinato da família de Max durante a 2ª Guerra. Porém, o senhor se encontra em um impasse, devido à idade avançada suas memórias estão falhando e com constância precisará recorrer a carta de seu amigo para não se perder durante a missão.
 
O primeiro longa escrito pelo diretor e produtor Benjamin August apresenta diálogos leves ainda que tenha um pesado tema por trás. Com o pretexto de vingança a “caça” de Zev vai além e busca a retratação das marcas que foram traumáticas para quem sobreviveu ao campo de concentração. Há posicionamentos mais do que explícitos do opressor como do oprimido, a reação da honra e posicionamento do caráter, ainda que questionável, e o levantamento de outras questões como idolatria, dor, julgamento, preconceito e outros. Há única coisa que possa vir incomodar, tratar o personagem de Plumer com “demência” e não Alzheimer.
 
O diretor, Atom Egoyan, com quase 40 filmes no currículo incluindo o premiado e aclamado “O Doce Amanhã (The Sweet Hereafter), de 97, vem com um trabalho de inserção de diálogos visuais com a utilização de objetos e/ou seres que possam remeter ao medo e a angústia vivida pelo personagem em Auschwitz. Com planos próximos, mas não completamente fechados, ele interliga a representação ao ambiente em que se propõe a narrativa.
 
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 A fotografia se une a arte para o engrandecimento plural, mesmo que ambos mereçam reconhecimentos singulares. A Direção de Arte, de Matthew Davies, abusa dos tons neutros e pasteis, além do uso de papeis de parede e tecidos com estamparia floral, muito utilizada no final da década de 40, início dos anos 50, como uma forma de “alegrar” o ambiente familiar e engrandecer o sonho americano pós-guerra. Aproveitando a composição, Paul Sarossy, que assina a Direção de Fotografia, capta uma fotografia amarelada, envelhecida e chapada que nos remete, em alguns momentos, à filmes dos anos 90. Paralelo a isso, ele dá força a outras cores quando se apresenta a natureza, tratando-a como um escape da realidade opaca.
 
A trilha de Mychael Danna é leve, substancial e intrigante. Intercalando composições clássicas famosas com composições originais, ela torna-se parte importantíssima na profundidade dada à história, fortalecendo a fragilidade e igualando a intenção de incomodo.
 
No brilhante elenco, principalmente por seus personagens principais, Martin Landau como Max traz uma distinta sensibilidade quando comparada ao seu desejo de vingança, tendo uma cena final tão tocante quanto inúmeras outras vividos por Christopher Plumer. Ele por sua vez não apresenta mais um trabalho, mas a graciosidade da idade e da experiência, além de sua excelência na arte da interpretação. Em busca de Ruth, seu lobo (tradução hebraica para o nome Zev) oscila entre a voracidade do aflito no calor do momento e a ingenuidade de um filhote.

“Memórias Secretas” apresenta organismos cinematográficos que podemos considerar clichês, mas dentro do trabalho apresentado, da transparência do ser humano inundado de suas histórias, nos deixa perplexos pela simplicidade de ser algo que não gostaria e tentar mudar, ainda que por caminhos escusos.

Crítica - Memórias Secretas
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