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Literatura

O Lento Sussurrar das Árvores

Parte 5

Guapuruvu, nesse momento, disse meu tio, reclinou na cadeira e deixou que o Girassol fizesse movimentos nervosos e inquietos, para depois ir à cozinha buscar mais chá. Pandora ficou tricotando, calada, observando o convidado mais recente com um olhar que chegava perto de desaprovação.

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Tio Joaquim bebericou seu chá, ele me contou, e ficou pensando na história que acabara de ouvir. Era de fato muito semelhante à Romeu e Julieta. Não só isso, mas para um mito, estava longa em demasia. Curioso, e levemente motivado pelo aroma excitante do chá, meu tio decidiu perguntar sobre aquilo: “Toda essa história ocorreu assim?”, ele interrompeu o silêncio devagar, Guapuruvu pareceu olhar para ele de verdade pela primeira vez. Os olhos do homem brilharam momentaneamente quase como contas quando iluminados pela fogueira.

“Na verdade, houve uma pequena edição para tornar a história mais interessante, embora eu deva dizer que o ponto principal ainda se mantém. A estrutura da tragédia está ali bem como está na obra de nosso amigo Shakespeare, se quer saber minha opinião. Aquele inglês que fedia a roupas de palco e brejo tinha lá seu dom para tornar uma história popular, mas ele não inventou nada de novo”, Guapuruvu parecia feliz em falar. O Girassol voltou sorridente com mais chá e distribuiu a bebida nas xícaras de todos eles, depois se sentou e ficou ouvindo a conversa.

“Então a parte da mansão, tudo aquilo foi você que improvisou?”, continuou tio Joaquim. Ele alisou o bigode (naquela época já tinha um bigode loiro) e encarou Guapuruvu com atenção, curioso.

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“Improvisei? Não, não, meu rapaz, o improviso atrasa a história, eu criei a minha versão e decorei ela. É a mesma todas as vezes em que conto”, confidenciou o homem enquanto bebia mais chá e respirava fundo.

“Eu só ouvi essa história duas vezes, Guapuruvu tem muitas delas e não gosta muito de ficar repetindo as mesmas o tempo todo. Ele acha toda a forma de rotina muito chata”, confidenciou Pandora com um risinho delicado. Ela pôs de lado as agulhas e bebericou o chá soprando de leve antes de cada golinho.

“Eu gosto de rotina”, disse meu tio simplesmente e arrependeu-se de ter dito aquilo logo que as palavras lhe saíram da boca, pois sentiu-se tolo, como uma criança que quer falar algo apenas para participar da conversa. “Quer dizer, um pouco de rotina não faz mal, o próprio hábito de não ter uma rotina pode ser pensado como uma rotina.”

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“Ah, faça-me o favor de não entrar nesse debate. Eu e Pandora já discutimos muito sobre isso. O fato é que eu não gosto de me repetir, e nem você parece gostar, dado o modo como encontrou essa cabana no meio de uma tempestade”, respondeu Guapuruvu prontamente. Ele deixou a xícara vazia sobre o pires na mesa e reclinou-se na cadeira olhando para a fogueira com uma estranha intensidade. O corpo ia contra o fogo e não a favor.

“Eu gosto de rotina, acampar sempre foi algo que fiz quando precisava fugir um pouco da realidade, então ainda está dentro de meus planos”, explicou-se tio Joaquim. “Isso aqui que é fora da minha rotina, parece um sonho, eu devo estar sonhando”.

‘E parecia mesmo que estava’, confidenciou-me meu tio ao relatar o caso. ‘Tudo parecia ter cores mais vivas e ainda assim mais desbotadas, como se tivessem sido arrastadas umas sobre as outras’, ele descreveu. ‘Era como a sensação de estar sendo arrastado em uma pintura com a tinta ainda fresca’.

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“Isso não é um sonho, se fosse você já teria acordado, ou feito algo bizarro ou absurdo”, retrucou Guapuruvu sorrindo com aquilo, como se esperasse que tio Joaquim fizesse algo inesperado, bizarro ou absurdo.

“Isso tudo é bizarro e absurdo demais”, respondeu meu tio, olhando de relance para o Girassol.

A criatura pareceu notar que era o alvo da crítica, pois abaixou sua estranha cabeça e seu sorriso diminuiu um pouco. Pandora olhou com reprovação para Joaquim, que expirou baixo e entendeu o olhar da mulher. Ele se sentiu ali, novamente, como uma criança.

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“Eu não quis dizer isso, sr. Girassol”, disse ele sentindo-se um tanto idiota por estar falando diretamente com a criatura. “Eu só não entendo essa cabana no meio da floresta e como Guapuruvu pode ter chegado aqui seco se do lado de fora chove demais. É tudo meio fora do ponto.”

Pandora retomou as agulhas de costura e continuou em sua infindável manta com desenhos e padrões intricados que pareciam mudar ou se mover conforme ela avançava na costura do conjunto. A senhora olhava diretamente para meu tio conforme suas mãos velhas e finas tricotavam sem parar. “Certas coisas você não precisa entender, certas coisas você não precisa perguntar”, clique, clique, clique, clique, “O importante não é onde se encontra, mas o que pode tirar disso, entende, meu rapaz?”, clique, clique, clique, clique, “O mundo é um local muito desconjuntado, eu sou bem velha para saber disso, e quanto menos você prestar atenção nas bizarrices, mais vai aproveitar o que de fato é real”.

“E isso aqui não é real?”, quis saber meu tio, alisando nervosamente o bigode loiro e encarando a mulher.

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“É tão real quanto você achar, ao sair daqui, que é. Nem mais nem menos do que isso, é tudo uma questão de como você vai sair daqui”, ela deu um sorriso e olhou para Guapuruvu, “Acho que está na hora de você ir embora, não é mesmo? O próximo convidado já chega logo e vocês não se dão muito bem, querido”. Disse Pandora com um aviso maternal e um sorriso marcado pelas rugas da idade.

Guapuruvu reuniu suas coisas e foi embora. Quando ele abriu a porta o som da chuva do lado de fora intensificou-se, os trovões pareciam gritos do mundo e os relâmpagos iluminavam um trecho da floresta. Na mão do contador de histórias ia um guarda-chuva que ele não tinha ao entrar. A bengala desaparecera e meu tio ficou pensando naquela hora se a bengala não se transformava em um guarda-chuva, por mais idiota que aquilo pudesse parecer.

O homem saiu pela porta e fechou. Senhor Girassol pegou um bolo na mesa e comeu calado, cantarolando por entre a boca cheia e larga enquanto esperava. Meu tio continuou sentado sem saber o que fazer ou como reagir. Pandora tricotava e tricotava e tricotava sem parar, sempre com as mãos se movendo rápido demais para meu tio dar conta de todos os movimentos, não importando por quanto tempo olhasse.

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A espera parecia interminável, até que bateram à porta outra vez.

Por João Scaldini

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