7 de dezembro de 2019

Parte 6

“Pode entrar”, disse Pandora. Tio Joaquim contou-me ter prendido a respiração outra vez, à espera da próxima bizarrice.

O senhor Girassol foi correndo abrir a porta, balançado os longos braços de um lado para o outro, até que agarrou a maçaneta. Ele girou a porta rapidamente e abriu-a, revelando um homem baixo, gordo, de bigode, com um sorriso no rosto e um pequeno chapéu-coco cinza. Ele vestia um paletó preto e calças largas com uma corrente saindo da cintura e entrando no bolso.

“Senhor Figueira, a essa hora por aqui? Que surpresa agradável”, cumprimentou-o Pandora. Ela tinha um sorriso dócil no rosto que convidava o homem a entrar. E foi o que ele fez. Com passos curtos e delicados, Figueira entrou na sala como se já tivesse visitado aquele lugar inúmeras vezes. O Girassol fechou a porta e o barulho de chuva que entrava devagar no lugar, bem como um vento frio que fazia a chama da lareira trepidar, desapareceu.

“Boa noite, Pandora, é uma alegria imensa estar aqui essa noite. Que convidados temos aqui?”, ele olhou diretamente para tio Joaquim de onde estava, com interesse explícito nos olhos brilhantes rodeados por pequenas rugas. “Ora essa, ora essa! Que surpresa!”, anunciou o recém-chegado, “Olá, Joaquim, como vai você? Uma noite dos infernos, não é verdade? Uma noite dos infernos…”

“Boa noite”, respondeu meu tio simplesmente. Ele já não se atrevia perguntar como o homem sabia o nome dele. Era melhor aceitar a maluquice e seguir em frente. Ele deu de ombros e pegou mais chá. Estava um pouco frio, mas ele não se importou e bebeu mesmo assim, de uma golada só.

“Sobre o que falavam? Eu vi um vulto saindo daqui agora pouco, era Guapuruvu? Que histórias ele inventava dessa vez?”, o homem se sentou em outra poltrona, mais baixa, mais larga, onde o corpanzil dele se adequava perfeitamente, exceto pelos pés que ficavam um pouco acima do solo.

“Ah, Guapuruvu tinha, como sempre, algumas teorias sobre as histórias e mitos…”, contou Pandora. Ela voltou a tricotar com velocidade e sem olhar para o que fazia. “Dessa vez ele falava sobre o mito de Píramo e Tisbe, e as semelhanças com Romeu e Julieta, de Shakespeare”.

O senhor Girassol recolheu tudo à mesa outra vez, colocou tudo sobre uma bandeja de prata e foi para a cozinha andando com os braços longos erguidos segurando a bandeja. A porta se abriu, contou meu tio, e hoje eu me pergunto como aquela criatura pode ter aberto a porta se segurava a bandeja com ambas as mãos. Enfim, o senhor Girassol entrou na cozinha para preparar mais uma leva de doces e chá. Tio Joaquim dessa vez levantou um pouco a voz para pedir café, um tanto desinibido, mas disse que, quando Figueira olhou para ele, corou sem graça, como se pego em alguma atividade ilícita.

“Bem, e o que ele falava sobre Píramo e Tisbe?”, quis saber Figueira desabotoando o paletó e puxando o relógio de bolso que levava consigo. Ele verificou as horas e assentiu devagar, depois voltou com o objeto para dentro do bolso da calça. “Certamente inventou detalhes desnecessários para a história”.

“Ele deu detalhes demais, é verdade, mas ao menos nos divertiu por um tempo”, disse Pandora mediando a relação entre os dois homens. “Guapuruvu tende a gostar demais de histórias trágicas, não entendo o porquê”, ela meneou a cabeça devagar. As mãos moviam-se em intricados padrões que criavam no tecido imagens mais intricadas e complexas ainda. Tio Joaquim afirma ter visto um rosto humano, com alguns pequenos gestos de Pandora, virar um barco e depois um conjunto de estrelas.

“Ele gosta de histórias trágicas porque quer sempre que o público dele sinta algo e reaja ao que diz, pequenas doses de ego, embora eu não possa dizer que é uma estratégia ineficaz, o homem sabe como contar uma história, isso é verdade…”, Figueira abriu um sorriso quando viu o Girassol voltando com uma bandeja recheada de bombons de chocolate. “Ah, meu rapaz, você ainda se lembra de meus favoritos, que glória, que glória!”. Ele encheu a mão de doces, mas Girassol ofereceu um pratinho onde ele pudesse colocar os bombons e Figueira agradeceu. Tio Joaquim pegou apenas café, apesar de não se sentir cheio, satisfeito, sentia que já havia comido demais. Pandora não parou de tricotar, mas pediu que guardassem para ela dois bombons de caju.

“Ele foi embora antes de terminar o raciocínio dele”, notou tio Joaquim de repente. Todos na sala olharam para ele, meu tio havia erguido a voz com a surpresa e chamado a atenção para si novamente.

‘Era como se eu fosse um espectador em um filme que em determinado momento falava algo e entrava na história outra vez. Enquanto eu não interagia, era como se eles não me notassem, e isso me reforçava a impressão de que estava em um sonho. Comia, mas não me sentia satisfeito, bebia, mas não me sentir saciado, só era notado quando falavam comigo, eu tinha a absoluta certeza de que era um sonho. De que outra forma aqueles visitantes sempre secos mesmo que chovesse do lado de fora saberiam meu nome? Não só isso, mas o Girassol era algo que não poderia ser humano de forma alguma…’, confidenciou-me ele enquanto estávamos sentados no tapete da sala lá de casa.

Hoje eu me pergunto se ele não esteve um pouco louco naqueles anos. Joaquim sempre foi um tanto excêntrico, desde sempre teve um caráter meio, como posso dizer?, aleatório. Meus outros tios, avós e avôs, não falavam muito dele, como se houvesse algo de imperdoável na maneira irônica como aquele homem de bigodes loiros se comportava em relação à própria família ou o mundo em si.

“Ele realmente foi embora antes de contar o que achava? Ora essa, isso não é muito parecido com o Guapuruvu que eu conheço…”, observou Figueira entre mordidas delicadas nos bombons. O homem segurava os doces entre as pontas dos dedos roliços. Um anel de prata estava em ambos os dedos médios. Com uma das mãos ele segurava o prato de comida, logo acima da barriga volumosa, e com a outra mão, a mão esquerda, ele mantinha o doce próximo da boca, pronto para outra bocada. Aquilo lembrou meu tio alguma estátua oriental de Buda ou outro deus da fertilidade ou comida. Figueira era o exemplo de saúde e vigor, mesmo sendo grande e, aparentemente, lento.

“Ele falava sobre as semelhanças das histórias, mas eu quero saber como que as pessoas não dão atenção a isso, qual a genialidade de Shakespeare se tudo o que ele faz é copiar histórias mais antigas?”, questionou tio Joaquim, curioso, afinal, por nunca ter ouvido falar naquilo, apesar de ter um bom acesso à informação.

“Ora essa, vejo que você tem bastante interesse nesse tipo de questão, bem, meu rapaz, quer discutir um pouco esses temas? Pois bem, termine seu chá e logo falaremos sobre isso” disse Figueira enquanto comia seus doces e iniciava outra louca conversa.

Por João Scaldini

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