6 de dezembro de 2019

O homem que passou pela porta era alto, usava um terno verde e uma gravata marrom. As unhas dele estavam polidas, as sobrancelhas alinhadas, o cabelo penteado para trás e na mão direita ia uma bengala, enquanto na mão esquerda ia apoiada uma cartola. O rosto dele parecia sempre meio desfocado, contou-me tio Joaquim, e ele andava devagar, suave.

“Esse é o sr. Guapuruvu”, apresentou Pandora tranquilamente, “e ele tem excelentes histórias sobre a vida, não é verdade?”. O homem fez uma mesura e sorriu, depois sentou-se em uma das poltronas desocupadas, longe do fogo, e pegou uma xícara de chá que o Girassol serviu a ele.

“Esse chá cheira maravilhosamente bem”, disse o homem para o serviçal. A criatura sorriu e voltou saltitando para seu lugar, pegando um pedaço de bolo e reclinando-se na poltrona maior do que ele. “Bem, não sei se as histórias que conto sobre a vida são excelentes, mas eu conheço um número bastante significativo delas para contar alguma que te impressione. As que eu mais gosto são, obviamente, as trágicas, muito similares aos mitos gregos. A morte tem um poder de sedução incrível para mim, mas quando falo sobre esses casos as pessoas costumam ficar desanimadas, eu não sei o porquê, sinceramente. Todo mundo sabe que vai morrer um dia e finge que está tudo bem”. O homem bebericou o chá rapidamente e deixou o pires sobre a mesa, depois cruzou uma perna sobre a outra, largou a cartola de lado expondo os cabelos negros e brilhantes jogados de lado, apoiou a bengala na lateral do sofá e encarou Pandora, que sorria para o visitante.

“Essas suas histórias de mitologia são realmente incríveis, mas tomam muito tempo, você poderia contar uma menor hoje, teremos, certamente, mais convidados”, pediu a dona da casa, ainda costurando, toda tranquila. O homem sorriu e fez uma mesura, depois pegou algo do bolso da calça e pôs na boca enquanto olhava para o fogo calado, pensativo.

“O que está acontecendo? Que histórias são essas? Tem alguma estrada aqui por perto?”, quis saber tio Joaquim, mas as duas figuras limitaram-se a olhar para ele e menear positivamente a cabeça com um sorriso tranquilo no rosto. O único que pareceu dar atenção à pergunta foi o Girassol, que sacudiu os braços e fez alguns sons agudos, apontando para o lado de fora e depois para o lado de dentro.

“Quando parar de chover você pode sair”, disse Pandora, menos sorridente agora, mas ainda tranquila. “Se perceber bem, Guapuruvu está seco como uma folha jogada na fogueira”, disse a mulher. As mãos enrugadas dela entraram em um ritmo mais intenso de costura, criando pontos e imagens cada vez mais rápidas.

“Que comentário terrível, Pandora, mas bem tem um fundo de verdade nele. É melhor que você, Joaquim, espere a chuva passar. Podemos ter um bom tempo aqui compartilhando histórias. Eu vou começar, se não se importam”, e o homem engoliu aquilo que esteve mastigando até aquele momento, depois ajeitou a gravata e pigarreou.

O Girassol saiu de onde estava, recolheu os talheres, pratos e copos sujos para depois sair andando em direção à cozinha, voltando com xícaras limpas e um pano, que usou para limpar a mesa entre as três pessoas ao redor dela. Pandora sorriu e agradeceu baixinho, Guapuruvu meneou a cabeça e esperou a criatura sentar outra vez, meu tio ficou olhando sem reação.

Aqui, antes de continuar a história, eu preciso pontuar algumas coisas.

O mundo era um lugar louco naquele tempo, mas eu não creio que meu tio estivesse sob o efeito de alguma droga. Há inúmeras evidências para isso e eu as pontuarei conforme a história avança.

Também tem a questão dos nomes, tirando Pandora, disse meu tio, todos os outros nomes são de plantas. Guapuruvu é uma árvore típica da América Latina. Ele pensou que talvez fossem codinomes, e ele tivesse caído em um local perigoso, uma base de revolucionários que lutavam contra o governo. Eu, honestamente, não sei dizer o que os nomes queriam dizer. Me peguei pensando certa vez que talvez os nomes tivessem relação com a história que cada um contou, meu tio poderia ter feito de tudo uma grande metáfora, mas a coisa também não encaixou muito bem. Outra vez pensei que os nomes talvez fossem relacionados às personalidades de cada um, ainda seguindo a linha dos codinomes, mas isso tampouco me agradou ou explicou alguma coisa de verdade. O fato é que Guapuruvu era o nome de uma árvore e Girassol, bem, Girassol era aquela estranha criatura que meu tio descreveu, além de ser o nome de uma planta.

Até hoje também não entendo a figura de Pandora na história, ela é uma mediadora de situações bizarras, uma idosa vivendo no meio do nada em uma cabana extremamente luxuosa. Mas a velha exercia alguma atração sobre todos ali, independente de quem ou o que fosse. Não era só uma questão de respeito aos mais velhos, por mais que se discordasse dela, você acabava fazendo o que a mulher sugeria.

Enfim, eu precisava deixar isso claro antes de continuarmos, Guapuruvu, de acordo com meu tio, olhou diretamente para ele e começou a falar logo que chá foi posto em sua nova xícara.

Por João Scaldini

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