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Literatura

O poeta, o amor e a entrega

Escrevo em primeira pessoa para narrar minha experiência;  numa tentativa de externar o que sinto pelos poemas, pelos poetas. Sem termos técnicos ou teorias,  aqui só cabe o prazer diante dos versos, diante da poesia emanada no instante da leitura, ou ainda nas reflexões após o gozo, após o amor entre o corpo deitado sobre a página e o leitor. Aqui, só cabe AGRADECIMENTO.

Sim, desejo poemas. Sobretudo, POESIA.

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O olhar desatento num caminhar frenético nos cega.

Perdemos as cores, os sabores, a memória, as imagens [que nos rodeiam], os sorrisos, os dias. Perde-se tanto. [se o indivíduo não consegue enxergar a poesia dos dias, nos dias, como enxergará num poema? Não sei, mas vale o “esforço” da leitura.]

Esses corpos escritos benditos e malditos ultrapassam os limites. Que difícil contorná-los, defini-los. Definir para quê?

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Definir a poesia de um poema é mata-lo. Duplo assassinato: poeta e poema mortos.

Poesia é para sentir. Sintamos!!!

Esse ser Poeta que admiro loucamente e me dá prazeres inenarráveis é só afeto, é um doar-se sem egoísmo. É a síntese da doação mais valorosa:  a que reúne todos os sentimentos numa estrutura sem “estrutura”, num corpo livre, que mergulha fundo em nós.  Somos mar.

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Quando leio um poema, almejo a experiência na amplitude da palavra, aquela que nos conecta com uma voz e um pensamento de outrem. Uma voz que ecoa dentro de nós e se funde com nosso corpo, nosso  âmago.

Sinto que o poema nos escolhe e não ao contrário. Lemos uma infinidade de textos que não nos dizem nada, são apenas palavras em estrofes. Mas, quando encontramos corpos escritos, CORPOS POÉTICOS, nos apaixonamos, nos viciamos num prazer sem fim; sentimos e temos uma das melhores sensações da vida.

Parece exagero, eu sei.

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Poderia fazer uma lista com poetas singulares e suas obras, mas  descobertas são essenciais em nossas vidas, e incluo as descobertas poéticas. Citarei um poema, que descobri há pouco tempo, e que me tocou profundamente pela singularidade, pela  simplicidade e pela riqueza.  A temática é considerada, para  muitos, cliché e démodé, mas para mim é a base de tudo. O poema é do maravilhoso Mia Couto, sujeito que já amo pela nobre doação e entrega. Permita-se!!! Leia!

 

O Amor, Meu Amor

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Nosso amor é impuro

como impura é a luz e a água

e tudo quanto nasce

e vive além do tempo.

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Minhas pernas são água,

as tuas são luz

e dão a volta ao universo

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quando se enlaçam

até se tornarem deserto e escuro.

E eu sofro de te abraçar

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depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te

para deixares de ter corpo

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e o meu corpo nasce

quando se extingue no teu.

E respiro em ti

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para me sufocar

e espreito em tua claridade

para me cegar,

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meu Sol vertido em Lua,

minha noite alvorecida.

Tu me bebes

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e eu me converto na tua sede.

Meus lábios mordem,

meus dentes beijam,

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minha pele te veste

e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu

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E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito

Quando apenas queria dormir em ti.

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E sonho-te

Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,

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para em mim mesmo te plantar

menos que flor: simples perfume,

lembrança de pétala sem chão onde tombar.

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Teus olhos inundando os meus

e a minha vida, já sem leito,

vai galgando margens

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até tudo ser mar.

Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto in  “Idades cidades divindades”

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“Mia Couto nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras”.

Por Renata Ferreira

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