Livro “Os Desígnios do Artífice” responde a essa pergunta de forma criativa e sombria
Tchelo Andrade é o autor de “Os Desígnios do Artífice”, ilustrador e game designer, roterista, escritor, educador patrimonial e produtor cultural. Tchelo é abertamente amante das artes e acredita que elas podem transformar e mudar positivamente as vidas das pessoas. A sua experiência na Fundação CASA foi o que inspirou a escrever sobre esse livro, levantando uma questão: a arte consegue superar a violência?
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O livro aborda a história de uma organização secreta na cidade de Nova Fronteira, interior de São Paulo. Essa sociedade recruta criminosos por meio do aplicativo Clube, e é aí que entra a parte de game design do autor, uma vez que esse aplicativo serve para gamificar os crimes cometidos, desde coisas bobas como furtos, até assassinatos com requinte de crueldade, enquanto quem comete as maiores atrocidades vão ganhando mais pontos, que vai ser revertida em monetização para os infratores. Isso abre uma premissa interessante criando uma distopia urbana, onde cada um pode ser um potencial assassino só para subir no ranking e ganhar mais dinheiro com esse app.
Acompanhamos essa situação caótica pelo olhar do jovem Tite Alves, que foi uma das pessoas atingidas pelo jogo, uma vez que a sua mãe acaba morrendo. Movido pelo luto e talvez pela vingança, ele une forças com o artesão Pompeu Belém para conseguir concluir os seus objetivos de parar com esse jogo. Os dois juntos usam as artes, através de pinturas, músicas, esculturas como meio para atrair os infratores, enviar mensagens subliminares, compartilhar conhecimento com possíveis aliados, a fim de derrotar as diversas esferas que envolvem o esquema criminoso.
Como já mencionado, o autor conseguiu unir o seu conhecimento com jogos, incluindo os de RPG para compor o seu livro, e criar essa crítica social. Já que mesmo que os personagens estejam fazendo o que é a coisa certa, ou que eles acreditam serem o correto, eles estão usando meios não legais para conquistar o fim de toda essa matança e crime. Então, uma vista na dualidade de um caótico bom pode ser divertido, ainda mais porque já se espera que esses personagens possam sim ter problemas e dúvidas morais se o que estão fazendo é o correto ou não, às vezes usando do próprio sistema ou dos meios que esse sistema disponibiliza para acabar com ele.
A história ganha uma camada mais interessante e profunda quando a ótica não é apenas de um artista, e sim por protagonistas negros, visto que a violência atinge fortemente essa camada da sociedade brasileira, indo desde alguém pobre até alguém rico, uma vez que está enraízado de forma cultural e estrutural, uma vez que o Brasil se iniciou através de uma exploração violenta de diversos povos, com a escravidão muito tardiamente sendo abolida — porém não seus duradouros reflexos —, e que não foi dada uma equidade proporcional para que todos os cidadãos pudessem ter o mesmo “ponto de partida”.
Com isso o autor convida os leitores a pensar sobre como é a violência no Brasil, onde 20,1 mil casos de homicídios são registrados a cada 100 mil habitantes, conforme divulgação pelo Atlas da violência de 2026.
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Então com tudo isso, fica a dúvida: a caneta e o pincel são mesmo mais fortes do que a espada? Eles conseguem de alguma forma impedir ou amenizar que a violência se propague ainda mais? E o sistema em que não apenas os personagens do livro, mas os brasileiros vivem empurra as pessoas para a violência, através da relação de dinheiro e poder?
Honestamente, esse quem vos escreve ainda não sabe responder nenhuma dessas perguntas, mas estou muito curioso para saber o que Tchelo Andrade vai propor em seu livro.
Imagem: Divulgação/Editora Clock Tower (via Catarse)


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