A personagem acreditava que poderia moldar Gilead sem abrir mão da própria liberdade, mas acabou se tornando vítima do sistema que ajudou a construir em “The Handmaid’s Tale”
Em Gilead, universo fictício da obra “The Handmaid’s Tale” (“O Conto de Aia”), de Margaret Atwood, algumas mulheres se tornam agentes da opressão porque acreditam que ocupar uma posição de poder significa escapar da própria opressão.
Mulheres como Serena Joy ajudam a construir e manter um sistema patriarcal que também as oprime porque acreditam que, ao se aproximarem do poder, deixam de ser vítimas dele. O problema é que, em Gilead, elas não se tornam verdadeiramente poderosas: tornam-se agentes da própria estrutura que continua limitando suas vidas enquanto lhes oferece a ilusão de autoridade.
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Antes de Gilead, Serena Joy trabalhava como escritora e ativista de causas culturais e religiosas da extrema-direita. Ela acreditava que as mulheres deveriam ocupar os papéis de esposa, mãe e responsável pelo lar, dentro de uma espécie de “feminismo doméstico”. Para Serena, mesmo dentro desses papéis, as mulheres poderiam ser fortes e lutar por seus ideais, por mais tortos que pudessem ser, dentro de uma divisão específica: a mulher como mãe, esposa e responsável pelo lar, e o homem como provedor.
E é exatamente aí que encontramos uma contradição na ideologia da personagem. Serena Joy acreditava que uma mulher poderia participar ativamente da construção de um governo opressor e, ainda assim, manter sua própria voz. Ela queria ser uma intelectual, escritora e figura política. Ao mesmo tempo, defendia uma ideologia que dizia que o verdadeiro papel das mulheres era justamente abandonar a vida pública e retornar ao lar.
Ou seja, ela não necessariamente sonhava com a ideia de que todas as mulheres tivessem o mesmo espaço ou a mesma liberdade que ela acreditava ter. Serena queria ocupar uma posição diferente: ser a mulher que fala sobre o verdadeiro papel de outras mulheres, enquanto as demais deveriam apenas seguir os papéis que ela considerava adequados para elas.

Serena Joy foi uma das principais ideólogas que contribuíram para a construção de Gilead porque boa parte do seu discurso, antes do regime, pregava uma ideologia que serviu de base para a sustentação daquela sociedade. A ideia se aproximava de uma sociedade tradicionalista e teocrática, em que os papéis do homem e da mulher eram rigidamente definidos e a fertilidade feminina ocupava um lugar central.
Inclusive, podemos observar na própria série que tudo gira em torno da reprodução e da necessidade de gerar bebês. Eles poderiam ser concebidos pelas próprias Esposas e Comandantes ou por meio do estupro institucional praticado contra mulheres consideradas pecadoras ou “não mulheres”, as então chamadas Aias.
E é justamente aí que o discurso de Serena Joy começa a deixar de se sustentar e se transforma em uma grande tragédia. Ela ajuda a construir uma ideologia sem compreender, ou sem querer compreender, o que poderia acontecer quando essa ideologia deixasse de ser apenas um discurso e se transformasse em um sistema de poder real.

Em Gilead, Serena Joy ocupava um dos maiores títulos que uma mulher poderia ocupar: o de Esposa de um Comandante. Mas, para isso, pagou um preço muito caro. Ela não podia ler, escrever, trabalhar, exercer a carreira que tinha anteriormente ou ocupar o espaço público que, antes de Gilead, também era seu. Tudo aquilo que nos permite ter autonomia e sermos donos da nossa própria liberdade foi retirado dela.
Serena Joy acreditava que era livre, mas, para uma mulher, essa liberdade nunca seria completamente possível dentro de um sistema repressor, misógino e autoritário.
Ela ajudou a criar uma sociedade que colocava a fertilidade no centro de tudo, mas não conseguia ter um filho por conta própria. Dependia, assim, do sistema das Aias para cumprir aquilo que Gilead considerava primordial na vida de uma mulher: ser mãe.
Serena não é simplesmente uma mulher que “não sabia o que estava fazendo”. Ela tinha consciência de que estava defendendo uma transformação profunda da sociedade. O problema é que acreditava que poderia controlar o resultado dessa transformação.
Ela acreditava que poderia ajudar a construir um sistema que restringisse a liberdade das mulheres sem que essa restrição atingisse completamente a ela.
O oprimido pode tentar se aproximar do opressor acreditando que, ao receber uma parcela de poder, deixará de ser oprimido. Mas, em uma estrutura de opressão, o poder concedido a esse indivíduo pode existir apenas enquanto ele continuar reproduzindo a própria estrutura que o limita.

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Serena não ocupa o mesmo lugar de poder que os homens que comandam Gilead. Mas, sob a fantasia de que possui algum controle sobre o sistema, ela se torna uma das agentes da opressão, ajudando a defender e administrar uma estrutura que oprime, silencia e controla outras mulheres.
Serena Joy não queria necessariamente que as mulheres fossem livres. Ela queria que o poder das mulheres existisse dentro dos limites que considerava aceitáveis. O problema é que, ao ajudar a construir esses limites, descobriu que eles também poderiam ser usados contra ela.
Imagem Destacada: Divulgação/Disney+


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