A ficção científica poderia se dizer que começou com Julio Verne em “Mil Léguas Submarinas”. Mas foi no século XX que ganhou força e público paralelo ao desenvolvimento tecnológico, quando não, ultrapassando-o em previsões. Os escritores mais citados neste gênero são Philip K. Dick (“Minority Report”, “Blade Runner”), Arthur C. Clarke (“2001: uma odisseia no espaço”, tetralogia “Rama”) e Isaac Asimov (A trilogia “Fundação”).

Cada autor pôde desenvolver o tema do que é o ser humano a sua maneira. Asimov o viu em seu contexto hiper-histórico; em suas histórias, os personagens são parte ínfima, mas também importantes, colocando como protagonista não seres humanos de fato, mas o próprio conceito de história.

Em Arthur C. Clarke por muitas vezes – ainda que apenas tenha sido uma fase – tentou avistar um futuro para a humanidade. Principalmente em “Encontro com Rama”, a trilogia Rama e O Fim da Infância, procurando dar uma resposta para a questão de nossa existência, porém não do ponto de vista individual, mas sim da espécie. No fundo, procura mostrar o próximo passo, mesclando sua resposta com ciência e religião, ou melhor, Deus, ou ainda, certa deidade. Na trilogia Rama, usou uma mulher de origem africana por todos os três livros, mostrando não apenas os ritos de seu povo, porém o destino da humanidade nas mãos de uma mulher.

Philip K. Dick lida com mulheres, homens, gordos (“Blade Runner”), magros, animais novos, robôs novos com crise de identidade – assim como Asimov – e até seres humanos evoluídos ou diferentes (precogs). Já teve uma dezena de livros levados para a telona, mas a releitura para o audiovisual parece sempre exigir algo inexistente do livro. Este apelo é o embranquecimento, fortalecimento, sexualização e masculinização dos protagonistas.

A porcentagem de brancos, homens e héteros em filmes supera as séries, que por sua vez, supera os livros. Ainda no belo filme “A Chegada” (2016) teve de ser um casal branco. Vide “Perdido em Marte”, “Interestelar”, “Gravidade”. E justamente outra dificuldade é colocar um negro no cinema que não seja não estereotipado (ou asiáticos, latinos etc.), os casos pioram de alguma maneira na tevê. No entanto, não tanto na ficção científica.

Na foto Ursula Le Guin

De alguma maneira, esse foi o risco e a coragem que teve Ursula Le Guin em sua obra, especialmente em A Mão Esquerda da Escuridão, um livro incrível que narra a história de um homem negro em 1969 que visita um planeta onde sua população não tem gênero fixo. Isso mesmo, podem mudar de gênero a seu bel prazer, faz parte de sua biologia.

A ficção científica parece se arriscar mais como gênero em seus personagens. Tirando os encalços de Hollywood, há uma abertura maior, seja pelo futurismo, pela posição política desse gênero. É preciso pensar outros mundos, assim, o pensaram.

Nos últimos anos, o canal Syfy foi muito importante na luta por representatividade na televisão. Com “Continuum” colocou uma protagonista, tendo grande sucesso. Com “Killjoys” põe dois irmãos brancos caçando bandidos pela galáxia com uma parceira negra com tanto peso na trama. E com “Incorporated”, uma das mais novas séries, mostra com qualidade a história de um latino que vive fora de uma cidade rica, cercada por muros num futuro onde há refugiados climáticos e as empresas se tornaram governos.

Há ainda muito o que se fazer pela representatividade. No Syfy mesmo, há muito mais protagonistas brancos, ainda que o número de personagens diversos de minorias tem maior proporção que em outros gêneros, canais etc. No entanto, ainda é preciso não só exigir – como foi feito ano passado no Oscar – mais representatividade nos filmes, como também no olhar do público para dar lucro àqueles que apostam não apenas na normatividade branca e, sim, expandir algo no qual a ficção científica há anos anda sendo vanguarda.

Por Paulo Abe