Precisamos falar sobre tabus

Estabelecer uma comunicação direta com seu público, sobre um assunto que é um tabu, pode ser bem complicado para alguns. Para outros, esclarecer e construir uma narrativa é algo relativamente fácil. Relativamente, porque não é tão fácil assim expor uma narrativa sobre abusos, seja físicos e/ou psicológicos. De alguma maneira, nós autores sempre colocamos algo de nós, mesmo que tal abuso não nos tenha ocorrido. Mas sentimos, sofremos e expomos a visão dos personagens sobre o ocorrido. Nesse perfil se enquadra o livroA beleza de um cacto escrito por Mariana Ramos e publicado pela Editora Arwen.

A narrativa nasceu de um conto dentro de um grupo literário. Os participantes do grupo tinham que criar um conto de correlação com uma planta. A escolha de Mariana não resultou só no conto, como lhe rendeu o livro originalmente publicado online no Wattpad. Depois do sucesso na plataforma, mais tarde ganhou sua versão física.

De linguagem extremamente fácil, a trama traz a história de Amanda, uma jovem comum que sofreu abusos dentro de casa. Apesar de ser inteligente e ter um temperamento forte, ela ficou com medo de contar a seus pais. Anos mais tarde, ela se encontra com o abusador e precisa ter a coragem de expor a todos o que passou. Como escrito em sua própria sinopse: “Não se trata de mais um romance onde tudo é colorido, tampouco é um livro de autoajuda, embora possa marcar sua vida”.

A curta obra, que você consegue ler facilmente em “uma sentada”, tem pontos positivos. Porém, também apresenta alguns pequenos problemas, que não necessariamente fazem mal ao livro. Esses pequenos detalhes só poderiam ter sido desenvolvidos de melhor maneira. O primeiro deles é como a protagonista conta sua história. Ela a expõe como se necessitasse, de alguma maneira, da aprovação de seu leitor/espectador. Em diversos momentos Amanda, expõe determinada situação e depois precisa de uma desculpa, algo como “não pensem isso de mim”, “não foi bem assim”, etc. Embora isso se enquadre dentro da psique de uma pessoa que sofreu abusos, o medo do julgamento, fazê-lo com constância dentro de uma obra literária pode se tornar cansativo. Contudo, essa foi a linguagem que a autora encontrou para se aproximar de seu público.

Outro pequeno percalço é estabelecer as características dos personagens. Com exceção da protagonista, nenhum dos outros personagens têm características definidas de fato. Tal atitude faz com que possamos imaginar a nossa maneira, o que é ótimo para quem deixa a imaginação a solta. Mas se temos um leitor menos imaginativo, essa falta pode ser um problema. No caso da protagonista, entendemos suas características físicas, mas ela cai no usual clichê visual. Amanda, pinta o cabelo de preto, usa maquiagem pesada, roupas largas e escuras. Um perfil típico, que poderia ter sido reimaginado para trazer uma maior riqueza a própria personagem.

Um ponto relevante, apesar de ser compreendido facilmente para quem conhece um pouco de plantas, é a compreensão de seu título “A beleza de um cacto”. O cacto é uma das mais incríveis plantas existentes por inúmeros fatores. E em sua “estranheza” é tão, se não mais, cativante que uma rosa ou qualquer planta colorida. Mariana não apresenta só a justificativa da escolha de seu título próximo ao final do livro, como também usa de outras plantas para construir sua narrativa. As plantas seguem como uma representação lúdica para o que se passa no interior e no exterior de Amanda. Tal façanha dá uma boa similaridade e mostra que a autora se preocupou não só em pesquisa sobre o tema de sua trama, como sobre como poderia construí-la.

O grande mérito do livro é como a autora coloca de maneira simplória um assunto tão problemático. Como falamos no primeiro parágrafo, tal tratamento não é algo fácil. Falar sobre abusos, o que ainda é um tabu, infelizmente, é complicado. Mas ir além dos abusos e abordar a pedofilia é algo ainda pesado e deveras importante. Não costumamos ler ou falar tanto sobre o assunto. Quando abordado na literatura a trama sempre se perde ou ganha um peso dramático tão forte que a narrativa em si não se sustenta e não entretêm. Quando se trata de uma obra de ficção, o entretenimento é de extrema necessidade. Seja para alegrar ou entristecer, a abordagem precisa cativar ao ponto de compreendermos as dores e de tomarmos para si esses sentimentos.

A beleza de um cacto é um retrato corriqueiro que nunca olhamos na parede. É uma narrativa leve com raízes profundas. É uma poética dramática com necessidade de exposição, diálogos e debates. Não é o livro do momento, mas está entre os melhores exemplares “desconhecidos” lidos esse ano, até o agora. Trazer a beleza da dor à tona, faz-se necessário para nos ajudar a olhar com mais atenção aqueles que nos rodeiam.