Formada nos primórdios da internet brasileira, banda atravessou sucesso nacional, mudanças de formação, tragédias e reinvenções até se tornar presença recorrente em um dos maiores festivais do mundo
Poucas bandas brasileiras construíram uma trajetória tão ligada às transformações culturais das últimas décadas quanto o Detonautas. O grupo nasceu quando a internet comercial ainda dava seus primeiros passos no país, alcançou o sucesso nacional durante a explosão do rock dos anos 2000 e conseguiu atravessar diferentes gerações sem depender exclusivamente da nostalgia.
Ao longo de quase três décadas, a banda acumulou hits, mudanças sonoras, posicionamentos políticos, alterações na formação e uma tragédia que modificou definitivamente sua história. Nesse percurso, o Rock in Rio se tornou um dos principais palcos para compreender a evolução do grupo.
Da estreia no Palco Mundo, em 2011, às apresentações especiais de 2013, 2019 e 2024, cada participação representou um momento diferente da carreira. Em 2026, essa conexão permanece ativa com o encontro entre Detonautas e Biquini no Palco Sunset.
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Uma banda que nasceu na internet
A origem do Detonautas é uma das histórias mais curiosas do rock nacional. A formação começou em 1997, a partir de encontros entre músicos no Bate-Papo UOL, em uma época em que redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de streaming ainda estavam longe de fazer parte da rotina dos brasileiros.
A internet não serviu apenas para aproximar os integrantes. Ela também ajudou a formar uma comunidade em torno da banda, que passou a se relacionar diretamente com o público e adotou essa origem digital como parte de sua identidade.
O nome Detonautas Roque Clube surgiu justamente desse encontro entre a linguagem da internet e a cultura do rock. Aos poucos, o grupo começou a circular pelo cenário musical carioca até chamar a atenção da indústria fonográfica.
A formação que se tornaria conhecida pelo grande público contava com Tico Santa Cruz nos vocais, Renato Rocha e Rodrigo Netto nas guitarras, Tchello no baixo, Fábio Brasil na bateria e DJ Cléston nos scratches, efeitos e percussões.

A explosão do rock brasileiro nos anos 2000
O primeiro álbum, “Detonautas Roque Clube”, foi lançado em 2002 e apresentou ao Brasil uma mistura de pop-rock, rap-rock, hardcore melódico e refrões construídos para grandes plateias.
Canções como “Outro Lugar”, “Quando o Sol Se For” e “Olhos Certos” ganharam espaço nas rádios e nos canais musicais, transformando a banda em um dos principais nomes da geração que dominou o rock nacional no começo do século.
O sucesso aumentou com “Roque Marciano”, de 2004. O disco trouxe músicas como “O Amanhã”, “O Dia Que Não Terminou”, “Só Por Hoje” e “Tênis Roque”, consolidando a presença do grupo no mercado. O álbum ultrapassou a marca de 100 mil cópias e recebeu certificação de ouro.
A popularidade do Detonautas naquele período estava ligada à capacidade de equilibrar guitarras, elementos eletrônicos, letras juvenis e melodias facilmente reconhecidas. A banda conseguia dialogar com o público adolescente sem abrir mão de assuntos como violência urbana, insegurança, relações amorosas e frustrações pessoais.

Um disco mais pesado antes da tragédia
Em 2006, o grupo lançou “Psicodeliamorsexo&distorção”, trabalho que marcou uma mudança de direção. As músicas ficaram mais pesadas, sombrias e experimentais, distanciando-se parcialmente da fórmula radiofônica dos dois primeiros álbuns.
Faixas como “Você Me Faz Tão Bem”, “Não Reclame Mais”, “Dia Comum” e “Sonhos Verdes” apresentavam uma banda interessada em explorar novas texturas e referências próximas do grunge e da psicodelia.
O período, no entanto, foi interrompido por uma tragédia.
Em 4 de junho de 2006, o guitarrista Rodrigo Netto foi assassinado durante uma tentativa de assalto no Rio de Janeiro. A morte do músico abalou profundamente os integrantes e passou a dividir a trajetória da banda entre o período anterior e posterior ao crime.
Mais do que uma mudança de formação, a perda provocou uma transformação emocional e artística. O luto passou a aparecer nas composições, nos discursos e na forma como o grupo se posicionava diante do público.

O luto transformado em música
O álbum “O Retorno de Saturno”, lançado em 2008, representou uma nova fase. O som se tornou mais introspectivo e emocional, refletindo o processo de reconstrução vivido pelos integrantes.
A faixa-título, além de músicas como “Verdades do Mundo” e “Só Pelo Bem Querer”, reforçou a dimensão mais reflexiva do Detonautas. O disco recebeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria de melhor álbum de rock brasileiro.
Em 2009, o grupo lançou o projeto “Acústico”, que reorganizou o repertório e apresentou novas versões dos maiores sucessos. O trabalho também marcou a consolidação de Phil Machado na guitarra, reforçando a reconstrução da banda após a morte de Rodrigo Netto.
A estreia no Rock in Rio
A primeira participação do Detonautas no Rock in Rio aconteceu em 2 de outubro de 2011, no Palco Mundo. A banda abriu a última noite daquela edição e encarou um dos maiores desafios de sua trajetória: levar a energia dos shows em casas menores e arenas nacionais para a dimensão monumental do festival.
O repertório reuniu sucessos como “O Amanhã”, “Você Me Faz Tão Bem”, “O Dia Que Não Terminou”, “Olhos Certos”, “Quando o Sol Se For” e “Só Por Hoje”.
O grupo também apresentou músicas que antecipavam a fase seguinte, entre elas “Combate” e “Um Cara de Sorte”, além de uma versão de “Metamorfose Ambulante”, clássico de Raul Seixas.
A apresentação ficou marcada pelos discursos políticos de Tico Santa Cruz. O vocalista fez críticas à corrupção e transformou parte do show em espaço de manifestação pública.
A passagem foi tão importante que originou o projeto “Ao Vivo no Rock in Rio”, lançado em CD e DVD em 2012. O registro ajudou a eternizar a estreia e se tornou um dos principais documentos audiovisuais da carreira da banda.
A homenagem a Raul Seixas em 2013
Dois anos depois, o Detonautas retornou ao festival em uma proposta completamente diferente. No Palco Sunset, o grupo participou do espetáculo “Viva Raul Seixas”, ao lado de Zélia Duncan e Zeca Baleiro.
O repertório foi inteiramente dedicado ao cantor baiano e reuniu músicas como “Aluga-se”, “Ouro de Tolo”, “Maluco Beleza”, “Gîtâ”, “Tente Outra Vez”, “Metamorfose Ambulante” e “Sociedade Alternativa”.
A apresentação mostrou que a banda podia ocupar o Rock in Rio não apenas como representante de uma geração, mas também como intérprete de um dos maiores compositores da música brasileira.
O encontro passou a ser lembrado pelo próprio festival como uma das apresentações marcantes da história do Palco Sunset.

Mudanças de formação e independência
Também em 2013, o baixista Tchello deixou o grupo após divergências artísticas. André Macca assumiu o instrumento e passou a integrar a fase seguinte da banda.
Em 2014, o Detonautas lançou “A Saga Continua”, um disco duplo que simbolizou a entrada em um período mais independente. O trabalho trouxe músicas como “Combate”, “Um Cara de Sorte”, “Acredite no Seu Coração” e “Quem é Você?”.
O álbum rompeu um longo intervalo sem material inédito e mostrou uma banda disposta a continuar produzindo mesmo distante da estrutura que havia sustentado o sucesso inicial.
Três anos depois, o grupo apresentou “VI”, com uma abordagem mais contemplativa e afetiva. Faixas como “Nossos Segredos”, “Dias Assim” e “Por Onde Você Anda?” mostraram um Detonautas menos agressivo e mais interessado em explorar sentimentos e relações pessoais.

O encontro com o Pavilhão 9 em 2019
O retorno ao Rock in Rio aconteceu em 2019, novamente no Palco Sunset. Desta vez, o Detonautas dividiu a apresentação com o Pavilhão 9, grupo conhecido por unir rap e rock pesado.
A parceria recuperou elementos presentes na própria origem do Detonautas, especialmente o diálogo entre guitarras, rap, batidas eletrônicas e discursos sociais.
O show contou com músicas como “Mercador das Almas”, “Quando o Sol Se For”, “O Amanhã”, “Você Me Faz Tão Bem”, “Olhos Certos”, “O Dia Que Não Terminou”, “Só Por Hoje” e “Outro Lugar”.
O repertório também incluiu uma versão de “Killing in the Name”, do Rage Against the Machine, reforçando o caráter explosivo do encontro.
Durante a apresentação, Tico Santa Cruz interrompeu manifestações direcionadas a adversários políticos e pediu que o público substituísse o discurso de ódio por mensagens de amor, tolerância e cuidado com a saúde mental.
A postura mostrou uma mudança na maneira como o vocalista utilizava o espaço do festival. O protesto permaneceu, mas passou a ser acompanhado por uma tentativa de reduzir a intolerância e ampliar o diálogo.

A fase mais política da banda
A partir de 2020, o Detonautas intensificou a produção de músicas relacionadas ao cenário político brasileiro. O grupo lançou faixas como “Micheque”, “Kit Gay”, “Roqueiro Reaça” e “Político de Estimação”.
O material foi reunido em “Álbum Laranja”, lançado em 2021. A partir desse projeto, a banda passou a utilizar oficialmente apenas o nome Detonautas, retirando o complemento “Roque Clube”.
As letras apresentavam críticas diretas ao governo de Jair Bolsonaro e a setores conservadores. A repercussão de algumas músicas ultrapassou o ambiente artístico e chegou a discussões policiais e judiciais.
Nesse período, DJ Cléston também deixou oficialmente a formação. Integrante fundamental para a identidade rap-rock dos primeiros discos, ele se afastou em 2020 para seguir um novo estilo de vida ligado a questões espirituais.
Sem os scratches e efeitos que caracterizavam o início da carreira, o grupo passou a se aproximar de uma sonoridade mais centrada em guitarras, melodias e arranjos tradicionais de banda.
Da revolta à esperança
Em 2022, o Detonautas lançou “Esperança”, álbum produzido durante a pandemia. O trabalho apresentou uma atmosfera mais melódica e trouxe a participação de Frejat na música “Medo”.
O disco também incluiu “Amanhã é 23”, baseada em um poema de Bráulio Bessa, reforçando a aproximação da banda com diferentes formas da canção brasileira.
Em 2023, o grupo celebrou duas décadas de carreira com “20 Anos – Acústico”, gravado no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro. O projeto revisitou os principais sucessos e contou com convidados como Badauí, Di Ferrero, Lucas Silveira e integrantes do AfroReggae.
A proposta confirmou que o repertório do Detonautas continuava presente na memória afetiva do público.

O “karaokê” coletivo do Rock in Rio 2024
A participação seguinte no Rock in Rio ocorreu em 2024, dentro do espetáculo “Para Sempre Rock”, apresentado no Palco Mundo durante o chamado “Dia Brasil”.
O show coletivo reuniu diferentes nomes do rock nacional e transformou o palco em uma grande celebração de músicas conhecidas pelo público.
O bloco relacionado ao Detonautas contou com “Quando o Sol Se For”, “Olhos Certos” e “Outro Lugar”. Mesmo com atrasos e problemas técnicos registrados durante a noite, as canções foram acompanhadas em coro pela plateia.
A apresentação revelou uma mudança importante no status da banda dentro do festival. Em 2011, o Detonautas ainda precisava provar que conseguia ocupar o Palco Mundo. Em 2024, foi convocado para representar o repertório histórico de uma geração do rock brasileiro.

Uma carreira marcada por reinvenções
A longevidade do Detonautas pode ser explicada pela capacidade de transitar entre diferentes linguagens. A banda começou misturando rap-rock, hardcore melódico e pop, atravessou uma fase mais pesada, transformou o luto em música introspectiva e depois assumiu uma produção abertamente política.
O grupo também se aproximou do acústico, da música brasileira, do pop e de elementos eletrônicos. Essa disposição para mudar impediu que o Detonautas se tornasse apenas uma atração nostálgica.
Ao mesmo tempo, a banda manteve um conjunto de canções que atravessou diferentes fases. “Quando o Sol Se For”, “Olhos Certos”, “Outro Lugar”, “O Dia Que Não Terminou”, “Você Me Faz Tão Bem”, “Só Por Hoje” e “O Retorno de Saturno” continuam funcionando como pontos de conexão entre o grupo e o público.
Detonautas e Biquini no Rock in Rio 2026
A relação com o Rock in Rio ganhará um novo capítulo em 4 de setembro de 2026. O Detonautas foi anunciado no Palco Sunset em um encontro especial com o Biquini.
A apresentação coloca frente a frente duas bandas que atravessaram diferentes momentos do rock brasileiro e construíram repertórios reconhecidos nacionalmente.
O show também confirma a permanência do Detonautas na curadoria do festival. Depois de participar como atração do Palco Mundo, intérprete de Raul Seixas, parceiro do Pavilhão 9 e representante do rock nacional em um espetáculo coletivo, o grupo retorna como protagonista de mais um encontro geracional.

Curiosidades sobre o Detonautas
A formação da banda por meio do Bate-Papo UOL faz do Detonautas um dos primeiros grandes grupos brasileiros ligados diretamente à cultura da internet.
O show de 2011 no Rock in Rio originou um CD e DVD oficial, algo pouco comum para atrações brasileiras que não estavam entre os principais nomes internacionais da edição.
A música “Só Por Hoje” ganhou uma dimensão pessoal ao ser associada ao processo vivido por Tico Santa Cruz para abandonar o uso de cocaína.
O assassinato de Rodrigo Netto influenciou diretamente a composição e o tom emocional de músicas lançadas nos anos seguintes.
A banda realizou sua primeira turnê europeia em 2024, com apresentações em cidades como Porto, Lisboa, Londres e Dublin.
Além das parcerias realizadas no Rock in Rio, o grupo já trabalhou com artistas como Gabriel o Pensador, Frejat, Alcione, Lucas Lucco, Vitor Kley, Badauí e Di Ferrero.
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Um repertório que atravessou gerações
A história do Detonautas é marcada por sucesso, perdas, conflitos, reconstruções e constantes mudanças de direção. Poucas bandas que surgiram no mesmo período conseguiram manter uma presença tão frequente em grandes festivais e continuar produzindo trabalhos inéditos.
O Rock in Rio acabou funcionando como um espelho dessa evolução. Em cada edição, o público encontrou uma versão diferente do grupo: a banda de sucessos dos anos 2000, os intérpretes de Raul Seixas, os parceiros do rap nacional, os representantes de um repertório afetivo e, agora, músicos dispostos a dividir o palco com outra formação histórica.
Mais de duas décadas depois do primeiro disco, o Detonautas segue sustentado por músicas que se transformaram em trilha sonora de uma geração. Ao mesmo tempo, continua procurando novos caminhos para não viver apenas do passado.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por Inteligência Artificial


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