Estreou dia 16 de dezembro na Netflix Barry, filme que retrata a vida do agora quase ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Da sua chegada a Nova York, iniciando a faculdade, seguindo até o ponto do nascimento da sua persona política – ou ao menos até o prelúdio do que viria.

Barry, aliás, não é um drama político nem quer ser. É um filme que tem como corda elástica a história que já conhecemos. É realmente sobre a tal semente que despertou em um homem negro e como ela foi necessária para que ele chegasse ao salão oval, aquele lá. 

Em uma das primeiras cenas conseguimos entender a sutileza do filme. Um segurança do campus expulsa o Barry de uma escada, onde ele nada fazia além de fumar. É um comentário elegante e delicado sobre racismo e sobre como é crescer na América com a pele não clara.

Se linkarmos aos acontecimentos dos últimos anos dos Estados Unidos, em especial os sucessivos casos de abuso policial e extermínio da população negra que culminou no movimento Black Lives Matter, poderemos entender o quão importante é essa cena. Não há gritaria, não há choro nem conflito direto: há verdade. E essa vermelha verdade do pesadelo americano também nos explica hoje. Até porque, sejamos sinceros, nossas sociedades são muito similares em certos aspectos. Os mais tristes, talvez.

O Obama é um homem elegante, de fala suave, agradável. De certa forma ele briga com o estereótipo racista do negro barulhento e expansivo. Ele é suave, assim como a sua família. Ele fala sobre raça, mas com delicadas lágrimas nos olhos, ele não é Malcolm X, mas é um líder.

Por isso é tão interessante a escolha em repetir a cena do campus e mostrar um Barry menos disposto a se calar diante da mesma situação. O filme todo é sobre o nascimento da conscientização do Barack quanto ao seu lugar social. Por isso uma das cenas finais, a do casamento, é tão ilustrativa do que ele estava deixando para trás e do que abraçou em seguida.

Talvez a maior reflexão seja entender o porquê do negro em três tons a menos receber uma aceitação branca muito maior. Essa questão é retórica, pois a resposta está estampada tanto no que sabemos em 2016 quanto no filme. Negros socialmente aceitáveis são aqueles que falam mais baixo. Que incomodam menos a paz dos lençóis racistas que estão sob os nossos pés. Quando um desconforto é mostrado ele já não cabe mais tão bem na cena.

Barry não é uma obra-prima, mas é um filme-comentário sobre um homem historicamente emblemático, não só para o seu país, como para o mundo. Um presidente negro significa muito para uma América que mata uma criança de capuz de moletom, mas não bane homens brancos com seus capuzes pontudos igualmente brancos. Tão pontudos quanto o seu desejo de exterminação do que não os reflete.

É indiscutível que Barack é um líder com características próprias e inconfundíveis. No filme temos acesso à sua poética particular, por assim dizer, de um jovem como outro qualquer, mas não exatamente outro qualquer. Havia algo diferente sobre Barry. Há algo diferente sobre Obama. A tal América continua a mesma, mas também nem tanto.

Nesse momento de transição de um presidente democrata a um republicano, porém mais emblemático, a um apresentador de reality show, sabemos que o medo das tais origens que são pontuadas no filme é bem real ainda. E aquela cena entre o protagonista e sua namorada, em que ele diz “vai com calma, não vai aparecer para os seus pais com um paquistanês e um negro” não é sequer datada.

Veja Barry, reflita Barry. Ainda precisamos. Porque a suavidade também ensina, quem sabe até mais rápido.

*Há espaço para uma breve aparição de Orfeu Negro, filme *quase* brasileiro dirigido por Marcel Camus. Essa cena leva ao primeiro momento do filme em que o Barack sinaliza para a mãe que deseja mais do que a vida comum de universitário em Nova York.

**Finalizando com a música que inspirou o título =).


Por Érika Nunes