Em sequência a Horizontes Distintos, a obra “Crepúsculo Estéril” aprofunda seus mistérios e acompanha o confronto de Tite Alves com uma ameaça capaz de alterar a própria realidade
“Crepúsculo Estéril” funciona como um segundo livro dentro de “Os Desígnios do Artífice”, de Tchelo Andrade. O autor começou essa obra ao estar na Fundação CASA, o que o colocou de frente para algumas questões de violência com menores de idade, e também se viu conseguindo romper esse ciclo ao ser professor de Histórias em Quadrinhos para essas crianças. Vendo assim, a arte como uma forma de romper o ciclo de ódio e violência e dar esperança para um futuro melhor para as crianças.
Este começa bem no clímax de onde “Horizontes Distintos” terminou, sendo uma sequência direta. Bem, não tão direta assim, visto que é introduzida uma situação policial em Santa Fé, em São Paulo, com algumas crianças e policiais, mas, na cena seguinte, vamos direto para onde terminou a primeira parte do livro. Aqui, é mais focado em um dos personagens principais que não era nomeado, mas agora descobrimos que é Josué Theron, e é deixada um pouco de lado a situação do Clube com a gamificação da violência, embora ambos estejam entrelaçados: o Clube e Josué.
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A partir desse momento, o foco é em desvendar os crimes do Assassino das Mães por Pompeu Belém, Tite Alves e o ajudante Gus e, em contrapartida, temos o ponto de vista mais presente de Josué, que está arquitetando um plano maligno para conseguir acessar um dos mistérios e conseguir alterar a realidade de alguma forma.
É bem interessante esse vilão em detrimento dos outros, pois ele está usando a própria arte como uma forma de ato de violência, diferente das demais pessoas da primeira parte, que não tinham criatividade, eram apenas pessoas sendo violentas por violência e lucro. Já Josué se destacava, tanto que conseguiu chegar ao Rank S dentro do Clube, algo que, até o momento, não apareceu com ninguém no livro que tivesse essa classificação. E isso demonstra o quão perturbado ele é.
“Dias se voltou para Theron que vagarosamente desafivelava o cinto. Ela parecia gostar de admirar a sinuosidade do corpo dele. Josué tirou os sapatos, mas deixou as meias; quando removeu a calça, revelou que outro adereço cobria suas partes íntimas: uma fralda. Dobrou suas vestes com zelo e as deixou na cadeira, depois caminhou em direção ao centro do lugar.”
A parte de investigação do livro é muito mais interessante na primeira parte, pois aqui temos o desfecho de algo que foi plantado desde a primeira parte. E fica uma sensação de enfrentar o “Boss Final“. No decorrer do livro, Pompeu sofre uma piora em sua situação e fica gravemente ferido por conta de uma maldição que não é bem explicada, mas que tinha indícios de que ele não estava bem desde a primeira parte. Só que essa perda não tem tanto peso quanto a de Lúcia, que é mãe de Tite.
Embora o tempo de tela deles fosse bem diferente, é muito mais fácil se afeiçoar por ela e sentir o peso da perda de Lúcia do que sentir um desespero pela situação de Pompeu, talvez pela personalidade ou por como os personagens foram construídos, com ela sendo mais humana e ele mais soberbo e poderoso.
Com a queda de Pompeu, Tite vai ter que enfrentar tudo praticamente às cegas, porque nem Pompeu nem Gus explicaram direito o que estava acontecendo, e ele tem que desvendar tudo quase que sozinho. E quase porque ele tem a ajuda de uma figura misteriosa que, para saber quem é, vai ter que ler, mas dá para ter uma suspeita de quem é de fato esse ser misterioso, que parece saber muito e pouco ao mesmo tempo.
O desfecho do livro acaba sendo bem surpreendente, visto que não esperava que fosse para um lado tão sobrenatural assim, e foi bem divertido ver toda a transformação final do vilão e a identidade dele sendo revelada junto com a ligação que ele tem com Pompeu. Também é enfim revelado qual é o mistério de Tite e, curiosamente, é uma obra de arte do próprio Tite que consegue bater de frente com o Crepúsculo Estéril de Josué, ajudando Tite no momento em que ele mais precisava e, assim, impedindo que ele acessasse a capacidade de alterar a realidade ao seu bel-prazer.
“Tite empunhou a Lâmina da Ambição, o item magno que seu mestre possuía, e a nitescência azulada e quente se espalhou por aquele cenário gélido. Aquela luz, aquela cor, aquele símbolo e toda a conjuração de eventos da noite abismal, lhe frisaram um único desejo: Não tenho outra escolha que não enfrentar essa loucura!, exultou-se por inteiro, deixando para trás as amarras insanas de Shub-Niggurath que enclausuravam seu íntimo.”
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Entretanto, o livro não termina com a resolução da dissolução do Clube, apenas com alguns problemas menores, os “peixes pequenos”, como Pompeu disse, e o Assassino das Mães. Só que o cerne do problema continua: os jogos continuam, e fica uma promessa de que Tite vai continuar lutando contra eles.
No final, a leitura é divertida por conta do mistério que fica no ar e da tentativa de desvendar os segredos por trás do vilão, de seu interesse e do que ele planeja fazer. A perspectiva dele sendo mostrada enquanto o leitor sabe quem ele é e sabe parte do seu plano, enquanto os protagonistas estão nas sombras, é uma experiência agoniante, mas boa de certa forma. Assim como a primeira parte, ela é muito teatral e poética, o que pode dificultar um pouco a leitura, mas não estraga a experiência.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por inteligência artificial



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