Fatos históricos sempre foram ótimos pontos de partida para criar histórias de suspense e terror. Seja pelas crendices e lendas dos tempos antigos e medievais, seja pelo próprio horror de algumas passagens da História dos seres humanos, o medo sempre foi um ingrediente ativo na formação e transmissão da cultura popular. E foi justamente em uma dessas passagens que a ilustradora Camila Torrano se inspirou para produzir “A Travessia”.

Em 1847, quando a Irlanda cai vítima da fome e o desespero se abate sobre o seu povo, a fuga em massa para a América torna-se uma necessidade. O único meio financeiramente viável de seguir em frente são os coffin ships, navios muito velhos e cheios de segredos. O médico Henry Doyle e sua assistente Sarah O’Reilly embarcam em um desses navios com o sonho de uma vida melhor em Nova York, mas, durante a travessia oceânica, colocarão à prova a veracidade dos relatos envolvendo o sobrenatural.

Formada em Artes Visuais pela USP, a autora iniciou no universo dos quadrinhos independentes ao ser convidada a participar de projetos universitários como Quadreca, Cão e O Contínuo. Mais tarde migrou para o mercado de games, desenvolvendo Concept Arts para o estúdio de games da Ubisoft Entertainment, em São Paulo. Hoje é também artista 2D na empresa de games Tapps, além de ser integrante do grupo Fictícia, onde publica HQs.

“A Travessia” parte de um fato histórico real para desenvolver uma trama direta e objetiva que vai do drama ao sobrenatural, com claras referências a Edgar Allan Poe ao flertar com a morte sob óticas variadas, como o medo, a ironia e o suspense. A partir dessa mistura a autora coloca o médico com seu olhar científico sobre tudo o que acontece, tendo de um lado os marinheiros insolentes e misteriosos e de outro, sua assistente crédula sobre as lendas marinhas a respeito de demônios e monstros gigantes. Em meio a tudo isso vão surgindo outras referências ao universo do terror e dos piratas.

Embora os elementos sobrenaturais e as premissas históricas se mostrem bons ingredientes para forjar uma trama interessante, o roteiro não se desenvolve tão bem assim. Os textos são fracos e em muitas passagens mais confundem do que explicam. A opção por quadros mais detalhados que pudessem “contar a história” utilizando linguagem não verbal é válida, mas nem sempre cumpre o seu papel. Algumas composições de requadros na página não funcionam tão bem por não estarem alinhadas às emoções da trama do momento.

Se em algumas passagens a narrativa textual não funciona tão bem, a visual dá um show ao longo de toda a HQ! A arte de Camila é bem resolvida e tem um estilo próprio e elegante. Suas figuras humanas são expressivas e o detalhamento das cenas vem na medida necessária. Mas é a colorização que faz a graphic novel brilhar aos olhos. Toda ilustrada em duotone, as cores escolhidas têm uma relação íntima e ao mesmo tempo sutil com a narrativa. Na primeira parte os tons de sépia trazem os fatos históricos da história em quadrinhos. Como decorrer da trama a matiz principal passa a ser o azul, que faz a conotação do aspecto sobrenatural da HQ. Em ambos os momentos a presença intensa do preto confere doses variadas do clima de tensão e suspense.

Camila Torrano tem esse viés sombrio em seus trabalhos de ilustração e quadrinhos, ora focando totalmente no mórbido, ora compondo o terror com o alegre de forma inusitada. Não por acaso ela escolheu seu codinome de Butherlady, o qual se complementa com um figurino inspirado nos principais filmes de terror. Vale a pena visitar o site d autora para conhecer seu belo portfólio.

Ficha Técnica

Editora: Escrita Fina Edições – Edição especial

Autora: Camila Torrano (roteiro, arte e cor)

Número de páginas: 88

Data de lançamento: Novembro de 2012