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Entrevistas

Aquela Garota da Foto: Gabriela Isaias e sua sensibilidade sublime

Gabriela Isaias

Vivemos hoje um momento em que nós, mulheres, estamos cada vez mais conscientes do nosso papel na sociedade e dos nossos direitos enquanto indivíduos. A cada dia que passa, vamos nos dando conta que toda a “poda” que experimentamos em nossas criações não precisam (e nem devem) ser definitivas na nossa visão de mundo e, principalmente, na forma como nos relacionamos com ele. Sempre mais empoderadas, vemos nossas pautas largamente discutidas nas redes e até mesmo na grande mídia (discussões a parte, o fato é que a informação está chegando da garota da cidade até a senhorinha do interior…). É claro que ainda temos um caminho longo (e põe longo nisso!), mas iniciativas capazes de dar visibilidade a essas questões enchem o coração de alegria.

Todas nós sabemos que depois de anos aceitando certas coisas, por mais que sejamos capazes de ver a beleza em nossas manas, nem sempre conseguimos fazer essa revolução interna (acredito que boa parte das meninas da nossa época estão passando por um processo desse tipo). E nesse turbilhão de ideias e emoções que somos, é preciso muito tato e sensibilidade para esfregar na nossa cara a nossa beleza…. nossa força. E eis que uma carioquinha de 22 anos percebe que a troca de experiências entre mulheres pode ser uma ferramenta incrível para que possamos nos ajudar em nossas batalhas pessoais. E, percebendo como se inserir nessa corrente de sororidade, cria então o projeto fotográfico Aquela Garota da Foto.

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A estudante de Jornalismo Gabriela Isaías (@gabrielaisaiasphotos) já trabalhou em diversas frentes (Jornalismo Científico na agência Notisa, moda e comportamento na Webedia Brasil, para os sites Beleza Extraordinária, da L’Oréal Paris e Tudo Sobre Make, da Maybelline, além de participar por 2 anos da Atlética Cláudio Besserman Vianna, fazer pesquisa científica… ufa…. Ou seja: daquele grupo que joga nas 11). O interesse por fotografia surge na faculdade no ano de 2013, ao cursar uma disciplina do professor Leandro Pimentel, ficando mais sério ao ganhar sua primeira câmera profissional em 2015. Começou então a se apaixonar pela área, e quanto mais estudava (Cartier Bresson, Eugene Smith, Dorothea Lange, Steve McCurry…) mais se via envolvida, até que, ao cursar fotojornalismo ela percebeu que aquilo era o seu sonho profissional (mesmo sem ter sido esta a sua pretensão ao ingressar na faculdade).

Após um período emocionalmente conturbado, Gabriela decide tirar seu sonho do papel, e atualmente divide seu tempo entre ensaios fotográficos e Fotografia documental (que é sua paixão). Suas principais referências hoje são Yagazie Emezi, Brooke Dombroski e Annie Leibovitz, além dos livros “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” da Clarissa Pinkola Estés, e a coletânea de poemas do Paulo Leminski, “Toda Poesia”, que a inspiram.

E, com seu projeto que começou despretensioso, Gabriela passou a perceber que pode contar histórias através de suas fotos. Histórias que podem inspirar mulheres a continuarem suas jornadas sabendo que não estão sós. E, como consequência dos ensaios e de tudo o que com ela era dividido, surge o blog no qual as histórias das modelos são compartilhadas para também inspirarem outras mulheres. E, na sequência,  saindo do forno essa semana inclusive, um site para divulgação do trabalho fotográfico também foi lançado. Uma lindeza só!

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Débora Polistchuck / Foto de Gabriela Isaias

Diante desse projeto tão lindo e importante, ficamos ansiosos para conhecer mais sobre as motivações e experiências dessa jovem fotógrafa. Então, confira nesse Exposé a entrevista (divertida e cheia de amor) que a Gabi nos deu a alegria de fazer:

Lorena Freitas- Fale um pouco sobre esse projeto lindo que você desenvolve.

Gabriela Isaías – Aquela Garota da Foto é uma coletânea de histórias visuais e escritas sobre mulheres inspiradoras que passam pela minha vida. Alguns bate-papos são mais divertidos, outros mais sérios, outros tristes ou muito felizes. As entrevistas vão fluindo de acordo com o conforto das meninas e só é publicado o que elas desejam compartilhar (não é raro que alguns acontecimentos fortes e opiniões mais polêmicas não sejam transcritos a pedido delas). E os conceitos dos ensaios fotográficos são construídos junto com cada uma ❤

Para saber um pouco mais, ela sugere o post no Link, contando as minúcias do projeto.

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L. F.- De onde surgiu a motivação para começar o projeto? E como ele vem ganhando corpo?

G. I. – Eu comecei clicando minhas amigas para praticar, já que grande parte do que eu sabia sobre fotografia era apenas teórico. Com o passar do tempo comecei a clicar conhecidas para criar material para o portfólio e depois passei a fazer ensaios fotográficos com pessoas próximas ou até desconhecidas, que me procuraram para fotografar após ter contato com o meu trabalho.

Nos bastidores dos ensaios muitas das meninas se abriam comigo e compartilhavam histórias, inseguranças, sonhos, entre várias outras coisas. É bacana porque o “posar” é se expor, se tornar vulnerável e revelar ao outro (no caso, eu) cada traço, característica, a beleza do defeitinho e também de cada emoção. As mulheres que eu fotografava não só se expunham física e emocionalmente pra mim, como também revelavam muitos fatos de suas vidas particulares. E cada vez mais eu me encantava com isso.

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Então eu fui percebendo que, guardadas as devidas proporções e particularidades de cada história, os desejos, dificuldades e sonhos de cada uma se assemelhavam. Acho que isso é aquele elo comum entre as mulheres que torna possível a sororidade. Foi então que comecei a pensar que compartilhar essas histórias seria extremamente benéfico para que cada uma delas veja que não está sozinha em suas próprias dores e prazeres.

Culminado a isso está o fato de que, toda vez que eu publicava fotos dos ensaios que fazia, me perguntavam, reservadamente, quem era aquela garota da foto no mar, no parque… Então ao invés de eu falar por elas, o blog foi uma forma de elas mesmas contarem suas histórias.

L. F.- Seu trabalho tem uma delicadeza muito grande no trato com o feminino. Como você acha que ele influencia na auto estima das meninas que você clica? Me fala um pouco de como, na sua visão, ele se entrelaça com o empoderamento da mulher?

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G. I. – Nossa, eu fico felicíssima e ao mesmo tempo profundamente triste quando alguma menina vê o resultado das fotos e, surpresa, diz “Meu Deus, essa sou eu?”, “Você fez milagre!” ou algo do tipo. Obviamente fico feliz porque é claro que um bom fotógrafo tem o dom de captar sutilezas e, bem, elogios são um afago no ego. Mas ao mesmo tempo eu me entristeço quando percebo que essa surpresa é genuína; quando vejo que essas moças realmente não se enxergam como eu as vejo. Queria muito que elas vissem em si mesmas a beleza que transmitem não só fisicamente, mas principalmente pelo que são. O processo de auto-aceitação é doloroso (eu mesma ainda passo por ele), então tento fazer com que meu trabalho torne esse crescimento mais palpável. O que eu faço é “colocar um óculos” em cada uma pra dizer: “olha, essa aqui é você, você é assim, tá vendo como você é linda?”.

L. F.- Na sua visão, as mulheres vêm experimentando um processo de aceitação e quebra de padrões? Como você relaciona isso com seu trabalho? Na sua opinião, qual é o seu papel nessa corrente de empoderamento e sororidade? 

G. I. – Pelo que eu percebo, cada vez mais mulheres estão conscientes dos absurdos que nos são impostos e têm trabalhado contra isso. A grande dificuldade é aplicar a luta em si mesma. E eu me coloco nisso. Uma fortalece, incentiva e identifica beleza na outra, mas o grande problema é saber aplicar esse “filtro” em si mesma. Então acho que um dos papeis do projeto é fazer com que as garotas consigam enxergar elas mesmas com o olhar repleto de amor que enxergam as outras.

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Bruna Oliveira / Foto de Gabriela Isaias

L. F.- Como você escolhe as meninas para clicar?

G. I. – No início, eu clicava apenas amigas minhas porque, como disse, queria praticar e criar um portfólio. Depois uma amiga começou a contar pra outra que comentou com outra e falou com outra… E por aí foi! Então muitas vêm me procurar com interesse no projeto. Outras eu mesma convido por já conhecer e notar a predisposição em compartilhar a própria história.

L. F.- Como surgem as referências para cada ensaio? (que são diversos e afinados a cada mulher) E como são os processos de criação dos ensaios?

G. I. – Eu tenho um caderninho ao lado da minha cama em que anoto toda e qualquer ideia que passe pela minha cabeça. Então, nele eu rabisco meus desenhos, trechos de poemas que formulo antes de dormir, ideias que vêm durante sonhos etc. Tem muita coisa boa que eu consigo desenvolver, mas também muita bobagem! (risos) Geralmente eu tenho essas ideias à noite ou durante o sono. Quando eu acordo, paro, organizo o que é possível e o que não é e tento adaptar algumas coisas à minha realidade já que lido com mulheres comuns que, na maioria das vezes, não têm experiência frente às câmeras. (Inclusive isso é uma das coisas que eu mais gosto porque consigo captar com muito mais facilidade cenas espontâneas, que são as minhas favoritas.) Tendo em mente o que eu quero fazer, tento reconhecer nas meninas que toparam participar do projeto alguma afinidade ou pertencimento à temática e faço a proposta. É quando vamos desenvolvendo o conceito do ensaio juntas. Elas dizem como gostariam de ser retratadas, trocamos ideias de fotos que vimos por aí e eu vou percebendo a essência da pessoa e o que eu posso transmitir sobre ela.

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L. F.- Quais as relações que você estabelece com as modelos (para que elas se dividam contigo)?

G. I. – Bacana essa pergunta, porque é exatamente o que eu procuro fazer: criar relações. No início eu clicava apenas amigas minhas, então esse processo de abertura era mais fácil. Mas com o passar do tempo comecei a fotografar mulheres que não conhecia antes. Então toda vez que alguma garota se interessa pelo projeto ou quando eu faço um convite, tiro um tempo para conversar e tentar entender porque ela quer participar do Aquela Garota da Foto. Claro que um dos principais interesses das meninas é ter fotos bonitas! (risos) Mas tento fazer com que elas percebam que o projeto é mais do que isso.

Maísa Furtado / Foto de Gabriela Isaias

L. F.- E para ti, depois de ter contato com tantas histórias e mulheres incríveis, o que tu podes dividir em termos de aprendizado, em um nível profissional e pessoal?

G. I. – A nível profissional eu percebo que tenho ficado cada vez mais segura. Antes eu ainda ficava receosa de propor determinadas temáticas ou fazer certas perguntas, mas percebi que a segurança que essas meninas têm em mim (por embarcar nas minhas propostas e contar suas vidas) acabou me fortalecendo, incentivado cada vez mais a minha criatividade e dando asas ao meu sonho, que é viver contando histórias sejam elas escritas ou visuais. A nível pessoal posso dizer que mudei completamente depois do Aquela Garota da Foto. Se for parar pra pensar, faz pouco mais de cinco meses desde que o projeto foi pensado/lançado, apesar de eu estar coletando histórias há um ano. Mas foi um pequeno espaço de tempo tão intenso, no qual eu tenho tido um retorno tão incrível, que já me sinto outra pessoa. Quando eu comecei o projeto estava saindo de uma fase profunda da depressão. Ter contato com a força e a fragilidade de cada uma dessas mulheres devolveu cor à minha vida e gerou uma sensação de pertencimento. Tem gente comigo e por mim. Existem histórias parecidas ou completamente diferentes da minha. Eu não estou só.

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L. F.- Como você avalia a importância do feminismo para as meninas de hoje?

G. I. – Eu acredito que o feminismo seja um reencontro com a nossa essência porque, não importa a idade, origem, religião ou cultura pela qual sejamos influenciadas: quando tomamos conhecimento da liberdade é como se uma lembrança antiga voltasse à vida, intuitivamente. É difícil que uma mulher que tenha tido algum contato com o empoderamento não tenha mudado em seu íntimo, ainda que não concorde com todas as pautas reivindicadas pelo feminismo. Então, pra mim, a ascensão do movimento feminista é a prova de que, não importa o quão silenciadas, podadas, reprimidas e rotuladas nós estejamos: sempre teremos umas as outras para nos reerguer. É maravilhoso ver que, apesar de tão caótica, a época em que estamos vivendo tem reunido e fortalecido tantas mulheres.

O trabalho da Gabi pode ser acompanhado no seu blog. E é com muita alegria que dividimos com nossos leitores esse trabalho tão inspirador. Curtiu? Quer conhecer mais sobre a Gabi, então dá um confere no perfil dela lá no blog Aquela Garota da Foto Vá conhecer, vale a pena!

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Geógrafa por formação, bailarina por amor e crespa por paixão, Lorena é uma estudante carioca que passa a vida em busca de soluções capazes de melhorar a qualidade de vida. Como boa taurina: é boa de garfo (e como come!) e amante das artes. Por isso se aventura em danças e circos para deixar a vida mais leve! Tem uma cabeça grande que nunca para de trabalhar e divide aqui na WOO suas loucuras e delícias.

2 Comments

2 Comments

  1. Bruna Oliveira

    5 de fevereiro de 2017 at 13:46

    Aquele olhar que consegue tirar o melhor de cada pessoa.

    • Lorena Freitas

      17 de fevereiro de 2017 at 11:20

      Não é? Muito lindo o trabalho dessa menina!

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