Entre a obediência e a crueldade, toda coleira tem dois lados
Há filmes que falam sobre violência mostrando violência. “Bom Garoto” (2026) prefere algo mais incômodo, mostrar como a violência pode se esconder atrás de boas intenções. O novo thriller de Jan Komasa, também conhecido como “Good Boy” ou “Heel”, parte de uma situação absurda para construir um jogo psicológico cada vez mais desconfortável. E o melhor é que, quanto mais a história tenta responder quem está certo ou errado, mais difícil fica encontrar uma resposta simples.
Antes de entrar na história, vale entender o outro título do filme: “Heel”, em inglês a palavra pode significar “calcanhar”, mas no contexto de adestramento de cães é um comando usado para fazer o animal caminhar ao lado do dono (“junto!”) sob controle e obedecendo à sua condução. O termo também pode ser usado para designar uma pessoa cruel ou moralmente desprezível. Essa dupla interpretação é fundamental para entender a provocação do filme, quem está sendo treinado para obedecer e quem é, de fato, o “vilão” dessa história. O título “Bom Garoto”, portanto, ganha uma ironia ainda maior quando se entende o nome original.
Na trama acompanhamos Tommy, um jovem de 19 anos envolvido com drogas, festas e violência, que acaba sendo sequestrado e levado para a casa de uma família aparentemente comum. O que acontece a partir daí transforma o filme em uma espécie de experimento de comportamento, no qual controle, punição, culpa e moralidade entram em choque. Sem entregar suas principais cartas, essa dinâmica me remeteu automaticamente ao clássico “Laranja Mecânica” (“Clockwork Orange”, 1971). Komasa constrói uma história que questiona até onde alguém pode ir para tentar transformar outra pessoa em alguém “melhor”.
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Elenco — três atores e uma família que ninguém gostaria de conhecer

Anson Boon é uma das grandes surpresas do filme. Como Tommy, o ator consegue transmitir agressividade, fragilidade, medo e arrogância sem transformar o personagem em uma caricatura. Seu desempenho é especialmente importante porque o público precisa permanecer próximo dele mesmo quando suas atitudes tornam essa proximidade difícil.
Ao lado dele, Stephen Graham entrega aquilo que se espera de um ator de sua categoria, intensidade sem exagero. Seu Chris é ameaçador justamente porque nem sempre parece ameaçador. Graham trabalha muito com pausas, olhares e mudanças sutis de comportamento.
Andrea Riseborough, por sua vez, transforma Kathryn em uma presença igualmente imprevisível. A atriz consegue manter uma camada de ambiguidade que impede o espectador de entender completamente suas motivações.
O jovem Kit Rakusen, como Jonathan, completa a dinâmica familiar e acrescenta uma dimensão particularmente estranha ao relacionamento entre os personagens.
Direção — Jan Komasa sabe quando deixar o desconforto respirar

Depois de “Corpus Christi” (2019) produção que recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Komasa demonstra novamente interesse por personagens presos entre moralidade, culpa e transformação.
Sua direção em “Bom Garoto” é econômica: em vez de transformar cada cena em um espetáculo, ele aposta na espera, no silêncio e na sensação de que alguma coisa está errada. A casa se transforma progressivamente em uma extensão do conflito psicológico. O diretor também evita entregar respostas fáceis. Essa escolha funciona muito bem durante boa parte da produção, embora possa frustrar espectadores que esperam uma resolução mais convencional.
Produção — uma ideia polonesa que ganhou sotaque britânico

Uma das curiosidades mais interessantes da produção está na origem do projeto. O roteiro foi originalmente escrito em polonês e ambientado em Varsóvia. Depois a história foi adaptada para o inglês e transferida para Yorkshire na Inglaterra numa tentativa de ampliar seu alcance internacional.
A produção reúne Jeremy Thomas, Ewa Piaskowska e Jerzy Skolimowski, com Skopia Film e Recorded Picture Company envolvidas no projeto.
O resultado mantém uma identidade europeia mesmo funcionando dentro de uma estrutura de thriller britânico. É uma combinação interessante e que ajuda o filme a escapar do formato mais previsível do gênero.
Roteiro: O verdadeiro vilão talvez seja a ideia de “consertar” alguém

Escrito por Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, o roteiro encontra sua maior força na ambiguidade, a premissa poderia facilmente resultar em um suspense convencional sobre sequestro e fuga, mas o filme está mais interessado na relação entre agressor e vítima, especialmente quando esses papéis começam a ficar menos claros. O roteiro também é responsável por uma das limitações do longa. Em alguns momentos, a história parece segurar informações demais e prolongar determinadas situações. A tensão funciona, mas nem sempre o ritmo acompanha a qualidade da ideia.
Ainda assim, é justamente essa provocação que permanece depois dos créditos; é possível transformar alguém à força em uma pessoa melhor ou a própria tentativa de fazê-lo já é uma forma de violência?
Trilha sonora — o silêncio também toca alto

A trilha original é assinada por Abel Korzeniowski, compositor conhecido por trabalhar com música profundamente atmosférica. Aqui a música não tenta roubar a cena. Ela acompanha o desconforto e ajuda a criar uma sensação de ameaça constante. Em vários momentos o silêncio é tão importante quanto a trilha. Essa escolha combina perfeitamente com a proposta do filme, não existe necessidade de transformar cada momento tenso em um grande susto. Às vezes, basta deixar o espectador esperando.
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Efeitos visuais — menos é mais
Esse é exatamente o tipo de filme que não depende de grandes efeitos visuais para funcionar, principalmente quando a fotografia trabalha com espaços fechados, enquadramentos controlados e uma atmosfera que faz a casa parecer cada vez menos acolhedora, trabalho aqui executado brilhantemente por Michał Dymek. Em um filme em que o cenário importa mais do que qualquer espetáculo digital, o porão, os corredores e os ambientes domésticos ajudam a construir a sensação de aprisionamento.
Conclusão
“Bom Garoto” é um thriller psicológico que funciona melhor quando deixa o espectador desconfortável, não é um filme interessado apenas em contar uma história de sequestro, seu verdadeiro assunto é controle, quem exerce, quem aceita e quem acredita ter o direito de decidir o que é melhor para outra pessoa.
Jan Komasa conduz tudo com firmeza, enquanto o elenco transforma uma premissa estranha em um drama humano perturbador. Pode não agradar quem procura respostas fáceis ou um suspense tradicional, mas para quem gosta de filmes que continuam trabalhando na cabeça depois da sessão, este é do tipo que merece atenção.
FIca um questiomento: quem realmente está preso naquela casa e quem está usando a coleira?
A



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