De Coldplay e Justin Bieber ao Metaverso no Fortnite, confira a análise detalhada do festival que movimentou R$ 1,7 bilhão e marcou o retorno definitivo dos grandes espetáculos ao Brasil
O Rock in Rio 2022 (a nona edição do festival realizada no Rio de Janeiro) marcou o histórico e aguardado reencontro com o público após um hiato de três anos imposto pela pandemia de COVID-19, que forçou o adiamento do evento originalmente planejado para 2021. O festival aconteceu nos dias 2, 3, 4, 8, 9, 10 e 11 de setembro de 2022, na tradicional Cidade do Rock.
Esse retorno representou um motor econômico vital: o evento atraiu 500 mil turistas à capital fluminense, injetou R$ 1,7 bilhão na economia carioca e gerou 28 mil empregos diretos. Tamanho impacto consolidou o festival como patrimônio cultural imaterial do estado do Rio de Janeiro, enquanto nas redes sociais a magnitude se refletiu em mais de 64 milhões de pessoas alcançadas apenas naquele ano.
A Crônica dos Sete Dias de Shows e Momentos Marcantes
A programação do festival foi celebrada por sua imensa diversidade musical, mesclando diferentes gerações e tribos.
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Primeiro Fim de Semana (2, 3 e 4 de setembro):

- Dia 2 (Metal): O festival abriu as portas com muito peso. Um dos grandes destaques foi o show histórico do Sepultura com a Orquestra Sinfônica Brasileira, que misturou heavy metal com arranjos clássicos, incluindo uma versão da 9ª Sinfonia de Beethoven. A banda francesa Gojira entrou no Palco Mundo para substituir o Megadeth (que cancelou a participação), e o Dream Theater encerrou a noite após a apresentação do headliner Iron Maiden (que, assim como em 2019, solicitou tocar mais cedo). No Palco Sunset, destacaram-se Living Colour com Steve Vai e o trio mineiro Black Pantera convidando Devotos. Nos bastidores, embora simples, o Sepultura chamou atenção por ter aromatizado seu camarim com limão siciliano, mandarina e cedro.
- Dia 3 (Rap e Hip Hop): O rap e o trap comandaram o Sunset com shows de Criolo, Racionais MC’s — que fez uma homenagem emocionante a vítimas negras da violência no telão ao som de Nego Drama — e parcerias de Xamã e Papatinho + L7NNON. No Palco Mundo, o headliner Post Malone conquistou a plateia e chamou o fã Theo Kant para tocar a canção “Stay” no violão, criando um dos momentos mais marcantes do festival.
- Dia 4 (Pop e Superações): Sob forte expectativa e rumores de cancelamento por saúde, o astro pop Justin Bieber (que desistiu de cancelar sua vinda por conta da multa astronômica que pagaria) subiu ao Palco Mundo pontualmente e encantou a multidão. Nos camarins, ele fez um pedido inusitado: uma banheira com 80 quilos de gelo. O Palco Mundo ainda contou com Demi Lovato fazendo versão rock de seus clássicos, acompanhada exclusivamente por instrumentistas mulheres e a banda brasileira Jota Quest (que substituiu o trio de rap Migos de última hora). No Sunset, o público ovacionou os 80 anos de Gilberto Gil e apresentações enérgicas de Emicida e Luísa Sonza.
Segundo Fim de Semana (8, 9, 10 e 11 de setembro):

- Dia 8 (Guns N’ Roses e Måneskin): Os clássicos do rock voltaram ao Palco Mundo com o Guns N’ Roses, que fez um show de quase três horas (apesar da performance vocal oscilante de Axl Rose). No entanto, foram os italianos do Måneskin (foto) que surpreenderam roubando a cena, com uma apresentação enérgica e explosiva, fazendo jus a todo o hype em torno dos italianos. Teve até cover de “Womanizer”, de Britney Spears. No Sunset, Jessie J entregou um dos melhores shows vocais do festival, acompanhada na guitarra pelo brasileiro Mateus Asato.
- Dia 9 (Pop Punk e Homenagem a 1985): O Green Day comandou um memorável bailão punk com grande interação do público, incluindo fãs no palco tocando guitarra com a banda e um pedido de casamento. A nostalgia ficou completa com Billy Idol no Palco Mundo (apesar do problema técnico em um de seus maiores hits, “Eyes Without a Face”) e Avril Lavigne, que arrastou uma multidão para o Sunset, causando tamanho aperto que forçou o aumento da área do segundo palco na edição seguinte. Outro destaque foi o espetáculo 1985: A Homenagem, que uniu gerações antigas e novas (como Ivan Lins, Elba Ramalho, Alceu Valença, Blitz, Luísa Sonza e Liniker) para celebrar a edição histórica de estreia.
- Dia 10 (Coldplay): A Cidade do Rock transformou-se em um espetáculo visual inigualável quando o Coldplay assumiu o encerramento do Palco Mundo sob uma chuva incessante. Com pulseiras de LED sincronizadas (Pixmob) e pirotecnia coordenada, a banda britânica conduziu uma apresentação épica, como em sua passagem anterior pelo festival no Rio, em 2011. O palco principal ainda contou com a adorável abertura de Djavan, além de shows de Camila Cabello e Bastille.
- Dia 11 (Divas): O encerramento foi dominado por divas pop. No Palco Mundo, Dua Lipa finalizou o festival de forma grandiosa – embora houvesse especulação de playback – após shows de Megan Thee Stallion, Rita Ora (que chamou Pabllo Vittar ao palco) e Ivete Sangalo. No Sunset, o show tributo Power! Elza Vive homenageou a lendária Elza Soares, que havia falecido em janeiro daquele ano; a cantora Alcione, inicialmente escalada, cancelou sua participação para se recuperar de uma cirurgia na coluna e foi representada no palco por artistas como Majur, Agnes Nunes, Gaby Amarantos e Larissa Luz.
Inovação Além do Espaço Físico: O Metaverso
Pela primeira vez em seus 37 anos de história, o festival expandiu suas barreiras físicas e entrou no Metaverso em parceria com a Coca-Cola, lançando o Rock in Verse dentro de uma ilha personalizada do jogo Fortnite.
O projeto, divulgado em live pelo streamer Casimiro na Twitch (que fundaria a Cazé TV), permitiu que fãs explorassem 12 espaços virtuais inspirados na Cidade do Rock. A experiência incluiu a corrida rítmica Running Tracks, embalada por uma música eletrônica exclusiva da dupla de DJs Cat Dealers; circuitos de parkour no Top Of Pop; montanha-russa sobre pranchas de surfe no Surf Coaster; e saltos de asa-delta no Magic Sky Fall.
Nas redes sociais, as marcas patrocinadoras do evento registraram recordes de engajamento: o banco Itaú liderou as menções com mais de 130 mil citações, seguido pela operadora TIM (que gerou forte engajamento com a hashtag #JadeNaTIM, marcando a presença da influenciadora Jade Picon em seu estande), Americanas, TikTok e Heineken.
Operação e Infraestrutura: Acertos e Desafios
A gigantesca estrutura montada no Parque Olímpico trouxe facilidades elogiadas pelo público, mas também expôs gargalos importantes:
O que funcionou:
- Pontualidade: Os shows cumpriram à risca o cronograma oficial.
- Tecnologia de Fluxo: Painéis de LED instalados do lado de fora dos banheiros mostravam a lotação em tempo real, distribuindo as filas de forma inteligente.
- Mais que Música: A Cidade do Rock ofereceu um verdadeiro parque de diversões, com brinquedos como carrossel, a Gameplay Arena e as atrações sensoriais da Nave (focada em tecnobrega e preservação da Amazônia).
- Transporte Exclusivo: O serviço de ônibus Rock Express utilizou as calhas exclusivas do BRT e garantiu uma chegada rápida e sem congestionamentos na ida.
- Sustentabilidade: Visando metas ambiciosas para 2030 (como eliminar resíduos em aterros), grandes atrações como Coldplay e Justin Bieber utilizaram copos biodegradáveis e reusáveis.
O que não funcionou:
- Logística na Volta: Na saída do segundo dia de festival, sob forte chuva, a passarela de acesso ao Terminal Centro Olímpico registrou congestionamento extremo de pedestres, com relatos de filas de até três horas para embarcar no transporte coletivo. Engarrafamentos na chegada também atrasaram os ônibus especiais Primeira Classe no primeiro dia.
- Palco Sunset Pequeno para Grandes Atrações: Shows de grande apelo popular (como Avril Lavigne, Gilberto Gil e Ludmilla) causaram superlotações estrondosas no Sunset, gerando fortes críticas de que deveriam ter sido escalados no Palco Mundo. O público também criticou a oscilação do som em certos pontos dos gramados.
- Contradição no Pagamento: Apesar da promessa do festival em ser 100% cashless (pagamento digital/cartão), os vendedores ambulantes (“mochileiros”) de cerveja operavam sem maquininhas de cartão, aceitando apenas dinheiro vivo. Isso forçou longas filas físicas nos bares para quem não levava cédulas.
- Gargalo no Supernova: A escadaria de acesso ao Palco Supernova registrou empurra-empurra e perigo de pisoteamento devido ao encontro desordenado do público que tentava subir para assistir ao show do rapper Teto com a multidão que tentava descer após a apresentação lotada de MC Poze do Rodo.
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O Rock in Rio 2022, a exemplo dos antecessores na fase mais recente, trouxe novidades fora do âmbito musical, mas também reafirmou a força do encontro presencial e se mostrou mais um sucesso, consolidando a marca, e inaugurando a realização do evento na Cidade do Rock em anos pares, juntamente com Lisboa.
Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Créditos: I Hate Flash)


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