6 de dezembro de 2019

Paguei o café e deixei as moedinhas no balcão. É antipático não deixar. Mas se pudesse eu não deixava. Se a moça do caixa fizer uma careta é sinal de que você está socialmente morto. E eu tento sobreviver. Essa cidade é fria e insuportável. Cariocas não sabem viver no frio. Cariocas catam referências de filme americano e tiram do armário os casacos da viagem à Europa que fizeram em 2015. Cariocas tentam comprar meias na Lupo apenas para ouvir “acabaram semana passada”. Porra, a única época em que vocês conseguem vender meias e não abastecem o estoque? Não queira discutir, nada nessa cidade faz sentido. Paguei 9 reais no cafézinho amargo e ruim do Starbucks porque isso é o mais perto que vou chegar da civilização. Flerto com um cinnamon roll, mas imagino que ele custe 15 reais e prefiro o bolinho de chuva da minha avó, embora ela já esteja morta. Uma moça com alguma raiva grita no balcão “Roberto!”. Nenhum Roberto aparece em um intervalo de 5 segundos, o que no tempo dos gritos de Starbucks dura 20 minutos. Noto que o copo é maior e exibe uma bebida grudenta que provavelmente custa o dobro do que paguei. Pego o copo, Roberto sou eu.

Estico minhas pernas entre as vitrines e paro em frente a uma loja feminina. Nome composto de mulher. Nome que teria a butique da roça lá de onde descende meu pai. Coisa triste. Dou de cara com uma saia de tricô que para nos tornozelos e eu penso que aquilo só pode estar na queima de estoque. Uma pequena etiqueta quadriculada exibe um 4 acompanhado de dois zeros e imagino que o açúcar da bebida melada já esteja dando barato no meu corpo. Ajeito meus óculos no nariz até que estejam em um ângulo perfeito. Não é possível. Essa merda custa 400 reais. Lembro que é o aniversário de Ângela e é por isso que vim parar num shopping às 15h30 de uma quinta. Não é fácil ser um homem casado. Eu não amo Ângela. Eu nem sei por que casei com Ângela. Pensando bem, eu sei. Eu era um semi-cabaço de 28 anos e ela era prima do tio do meu pai. Ela apareceu com um vestido rosa de gosto duvidoso e cara de que aceitaria qualquer um que viesse. Entendi que era eu. Era hora de casar. Cá estou eu, 21 anos depois comprando um presente de até 80 reais para Ângela.

Entro em uma loja de sapatos em que as mulheres parecem sair empolgadas. Não me dou ao trabalho de saber qual o nome, só preciso saber que Ângela calça 38 e mandar embrulhar. Dou uma olhada por alto buscando as tais etiquetinhas e essa loja é tão chique que elas não ficam à mostra. Os preços ficam na sola numa etiqueta branca, que é para as mulheres mais avoadas comprarem esquecendo de quanto estão gastando. Eu sou um homem. Ainda bem. O sapato mais barato da loja parece ser uma sapatilha e ela custa 120 reais. Eu não quero gastar 120 reais. Mas, porra, eu não aguento mais ficar nesse lugar. Acho que a bebida está me fazendo mal, meu abdômen agora faz uns barulhos bizarros. Será que a Ângela vai me encher por causa desse presente? Quando ela fica insatisfeita deixa secar o suco da carne de porco e fica terrível. Carne de porco seca dá engasgue. Manda embrulhar isso logo, preciso ir embora. A vendedora que não sente nenhuma pressa em acabar o expediente embrulha a tal sapatilha em um papel branco vagabundo que ela parece acreditar que deixa o embrulho mais bonito. A Ângela deve gostar.

Ando pelo andar procurando uma lata de lixo para jogar o copo da bebida ruim. A única que tem estão trocando o saco. Por que sempre que temos que jogar alguma coisa fora estão trocando o saco? Vejo a porta de vidro do estacionamento e avisto uma lata de lixo do lado de fora. Me darei o trabalho de ir até lá. Mas é bom, Ângela diz que ando pouco e ela deve ter razão. Depois dos 45 tudo o que você faz ou deixa de fazer dizem que vai te matar. Passo pelo guichê onde pagam o estacionamento e avisto a lata. 5 metros. Parece uma caminhada decente. Quando chego na metade do meu enorme trajeto, um homem com uma roupa vinho e uma gravatinha ridícula vem em minha direção com uma chave. Ele olha de longe um local com poltronas da mesma cor da roupa que veste. É o canto dos ricos que precisam de manobrista no shopping. Não tente entender essa cidade. Ele não parece encontrar quem está procurando. Quando já embiquei o fundo do copo na lata ele grita “Senhor Roberto?”. Não pensei. “Eu mesmo.”. Caminhei com tranquilidade com o copo na mão, ele é minha carteira de identidade. Cato no bolso uma gorjeta de 5 reais para não ver aquele olhar de desprezo do qual tenho pavor. Ele sorri. Entrego na mão dele o copo. “Pode jogar fora para mim. Obrigado.” Hoje é o meu dia de sorte.


Por Érika Nunes

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