Na primeira parte da obra, “Horizontes Distintos”, Tchelo Andrade constrói uma trama sombria sobre personagens moralmente ambíguos, assassinatos e poderes misteriosos
“Os Desígnios do Artífice” é um livro escrito por Tchelo Andrade, que além de escritor também é roteirista, ilustrador, game designer, educador patrimonial, produtor cultura e historiador. Essa obra começou quando Tchelo trabalhou na Fundação CASA como professor de Histórias em Quadrinhos, e a partir da dificuldade no trabalho que ele encontrou resiliência para conseguir continuar com a sua história e o seu trabalho ao auxiliar jovens.
O livro parte de uma premissa muito interessante que é colocar aquela velha questão do “A pena tem mais peso do que a espada?“. Claro que no ditado entendemos a pena como alguém com pode de tomar decisões sobre os demais, já no livro de Tchelo trocamos a pena por pincéis, tecnologia, magia e a espada por armas, venenos, também magia ou deveria dizer mistérios?
Os Desígnios são divididos em duas partes Horizontes Distintos e Crepúsculo Estéril. É como se fossem dois livros dentro de um, sendo um a sequência direta do outro ou o fechar e abrir de uma peça como o ato um e ato dois e três juntos. Mas nessa primeira resenha o foco é o Horizonte Distintos e o que acontece nessa primeira parte.
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Personagens entre a moralidade e a violência
O livro apresenta cinco personagens chaves no inicio que são Tite Alves, Mitiê Camargo, Pompeu Belém, Algodoal Menegali e o último é um mistério, pois não sabemos o nome dele até a sequência dentro do próprio livro. Também menções honrosas para Lúcia, que é mãe de Tite, e Gus, que é parceiro de Pompeu, que também são importantes, mas o livro a princípio não foca nesses dois personagens.
Para alguns personagens fica claro em que espectro estão posicionados, como o Algodoal sendo um homem rico e poderoso, dono de praticamente metade da cidade, em várias frentes como no ramo alimentício e imobiliário, que com um estalar de dedos demite funcionários como se não fosse nada, por motivos absurdos e nojentos, brincando com a vida dos outros e descartando como se fossem um lixo. Ele é sádico, egoísta e a epítome do que significa o “homem de bem“, segundo sua própria esposa.
“Algodoal se levantou da cama de maneira apática, sondou o quarto elegante e bem arejado com mobílias caras e cortinas de cores leves, apanhou o roupão em cima da penteadeira e se voltou para o rapaz que ainda se deliciava com o calor do seu gozo: — Você está demitido. (…) — Seu pau não é tão grande para um negão.”
Pompeu Belém, por sua vez, representa o oposto: é um pessoa boa e que tem interesse em fazer o que é melhor para a sociedade mesmo sendo uma pessoa áspera, debochada e um pouco ranzinza, lembrando muito aquele senhorzinho que não tem papas na língua e que é bem humorado. Ele é um dos personagens mais importantes por ser o Artífice e estar trabalhando para impedir que alguns mistérios ganhem poderes e sejam dados para determinadas pessoas, juntamente com o Gus.
Já Mitiê e Tate estão naquela linha cinzenta. Eles são pessoas boas, mas nem todas as suas atitudes são de fato boas. Por exemplo, Mitiê passa por fazer uma injustiça muito grande com outra pessoa, mesmo que não querendo e se arrependendo disso e em outro momento, e acaba destratando Lúcia. Já Tite tenta ser uma pessoa melhor; ainda que o seu passado tenha mudado, ele ainda tem certos pensamentos que admite que são errados e que se envergonha disso, principalmente quando abordando o seu interesse romantico.
“E pelos próximos 30 minutos, o menino negro ficaria encarando a nuca do seu agressor enquanto lentamente apontava o lápis, com as mãos debaixo da carteira. Curiosamente, naqueles trinta minutos, ele jamais piscou e sua cabeça era dominada apenas por uma certeza (…) — Um dia, ele zombou de mim porque eu não sabia ver as horas em relógios de ponteiro, porque eu era magrelo e também porque eu levava meu material escolar numa sacolinha plástica. Isso acontecia todos os dias. (…) Mas teve um dia que eu revidei. Simplesmente levantei e enfiei um lápis na orelha do Denis.”
O foco no que chamo de primeiro livro é na construção desses personagens, bem como do Sr. Mistério que ainda não terá o seu nome revelado e que está por trás de alguns assassinatos, incluindo uma personagem muito querida e boa. Acontece que em São Paulo algumas pessoas estão sendo estimuladas a cometerem crimes com bonificação de um jogo, ganhando dinheiro em Pix, e que a justiça não vai fazer nada, por também estar envolvida nisso. Mas quem está por trás desses jogos? Como alguns personagens parecem terem poderes? E o que são esses mistérios que estão sendo acessados por pessoas não tão comuns assim?
São perguntas que ficam no ar e até então não são abertamente respondidas, mas as pistas que são dadas são suficientes para despertar interesse e manter a leitura no livro para descobrir o mistério que está por trás de toda essa trama maluca e sombria nos bastidores da sociedade.
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Horizontes Distintos compõe um livro que não é para qualquer pessoa ler caso não tenha estômago forte, mas os amantes de maratonar casos criminais vão tirar de letra o que ocorre no livro. Ainda assim, a mensagem que ele transmite é muito positiva e importante e que poderia ser mais difundida. Particularmente a abordagem do autor é bastante poética, o que pode não agradar de relance esse que vos escreve — por questão de gosto pessoal — mas que deixa o livro bem interessante de ser admirado de um ponto de vista artístico.
Imagem Destacada: Divulgação/Gerada por inteligência artificial



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