Crítica (2): A Favorita

“- O amor tem limites.
– Não deveria.”

De costas, Olivia Colman ocupa o centro de um salão. Ocupar, mais que seus sinônimos, guarda uma interessante ambiguidade. No primeiro dos sentidos, o denotativo, há uma imediata correspondência visual. Uma enorme cauda branca preenche vertical e horizontalmente a abertura de A Favorita” (The Favourite, 2018), longa-metragem estrelado pela inglesa. Em outra acepção, porém, o verbo refere-se ao exercício de um cargo. No plano figurado, então, Colman é a rainha Anne Stuart, detentora do trono britânico.

Figurinos exuberantes, perucas grandiloquentes, maquiagens carregadas: tudo indicava um “filme de época”. Por trás das câmeras, no entanto, encontra-se o controverso Yorgos Lanthimos, cineasta cujos trabalhos exploram, sob a ótica do absurdo, temas como culpa (“O Sacrifício do Cervo Sagrado”), instituição marital (“O Lagosta”), luto (“Alpes”) e educação (“Dente Canino”). Tão logo anunciada a produção, já pairava no ar, pois, uma dúvida sobre a abordagem. Afastado do roteirista Efthimis Filippou e aproximado de uma convenção realista, de que forma procederia o diretor? Por meio da subversão, responde A Favorita.

Comumente preocupados com a verossimilhança, figurinistas e maquiadores atendem, de outro modo, apenas aos desígnios de Lanthimos. Em determinada cena, por exemplo, Lady Marlborough (Rachel Weisz) debocha da pintura sobre o rosto da rainha, comparando-a a um texugo. Em outro momento, por sua vez, Abigail (Emma Stone) ridiculariza a peruca do barão Masham (Joe Alwyn). Longe de uma apresentação fiel da realeza, portanto, evidencia-se um exagero nos traços, a serviço de uma insubordinação aos costumes. Nessa lógica, a fotografia de Robbie Ryan (“Docinho da América) abusa das grandes-angulares, como se a distorção dos planos clamasse a desconfiança do espectador.

Descaracterizado como retrato histórico, do que trata, afinal, “A Favorita”? Uma resposta simples – e talvez simplista – giraria em torno de sexo, amor e poder. Triádica como tais elementos, a relação entre as protagonistas remete à entre Ingrid Thulin, Liv Ullmann e Harriet Andersson em “Gritos e Sussurros” (Viskningar och rop, 1972). Se Bergman pontua a angústia das personagens com batidas de relógio, Lanthimos, por seu turno, transita entre a comicidade e a tragédia sob a estranheza da música barroca. Em comum, além do trio feminino, os cineastas aproximam-se pelo angustiante retrato de uma doença: no caso do sueco, um câncer terminal; no do grego, a gota.

Contrariando definições gerais, contudo, a narrativa divide-se em oito segmentos, cujos títulos antecipam falas de alguma personagem. Para fins de análise, limitar-se ao primeiro evita os chamados spoilers. “Esta lama fede”, revela a cartela explicativa. Distinguidas, novamente, denotação e conotação, a frase de Abigail ganha duplo sentido. Derrubada em uma poça, a jovem realmente constata o mau cheiro da terra molhada. Ao fim do capítulo, porém, uma reinterpretação se torna possível. Nascida dama, Abigail descera à condição de criada após ultrajes de seu pai. Quando chegou ao palácio, esperava, logo, a benevolência da prima Lady Marlborough para retomar o status anterior. Em vez de fraternidade, no entanto, encontra desprezo. O “fedor”, figurativamente, nada mais é do que a arrogância aristocrática.

A partir dessa rejeição inicial, desvela-se uma teia de subordinações e interesses. As três mulheres, poderosas mas humanas – algo novo para Lanthimos, fortalecido pelas expressivas atrizes -, manipulam tanto as personagens masculinas quanto umas às outras. Não obstante a emancipação individual, todavia, a sociedade é estamental. Como os pombos de Skyline Pigeon – o single de Elton John encerra o filme -, enfim, elas podem voar, mas não tão alto.

* O filme estreia dia 24 de janeiro, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/20th Century Fox

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