Crítica (2): Divinas Divas

O que dizer sobre o pioneirismo? Sobre a vida na fronteira do desconhecido, ou mesmo dos valores éticos e morais que embasam a retrógrada sociedade? O retrato da vida de pessoas que entram no futuro com o pé na porta, permitindo uma nova perspectiva para novas gerações, merece tato e respeito. E é com toda delicadeza necessária que Leandra Leal apresenta ao grande público a história de oito travestis que fizeram história no nosso país, tendo como ponto de partida o Teatro Rival e a saudosa Cinelândia das décadas de 60/70… “Divinas Divas” é um documentário precioso, obrigatório para todos que buscam entender melhor a história das questões de gênero e a noite carioca… aliás, obrigatória para todos: das cabeças mais abertas as mais conservadoras. Com uma leitura sensível, o documentário certamente mudará sua forma de pensar seus próprios privilégios.

Campeão na categoria de melhor filme por voto popular no festival South by Southwest (SXSW), nos Estados Unidos, o filme já exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro no ano de 2016, chega aos cinemas (finalmente) no próximo dia 22/06. E sua boa repercussão (inclusive fora do país) é facilmente compreensível: Não só por tratar de histórias comoventes, o filme fala sobre luta (dura) sem perder o bom senso de humor.

Brigitte de Búzios, Camille K., Eloína dos Leopardos, Fujika de Holliday, Jane Di Castro, Marquesa, Rogéria e Valéria são, talvez, os nomes mais relevantes da época de maior glamour de travestis na noite do país. Com trajetórias diferentes, mas que se cruzaram em muitos momentos, as oito artistas se reencontram para um show de comemoração de seus 50 anos de carreira, no teatro que foi responsável pela valorização de seus trabalhos.

É fundamental que se lembre que essas artistas foram as primeiras a subirem ao palco para shows como drags, em um período político conturbado no país. Inicialmente lado a lado com as vedetes, e depois em shows composto por elas, sofreram com a censura durante a ditadura, relatando diversas formas de abuso ao longo deste período. Mas isso não impediu que estrelassem números incríveis dentro e fora do país.

Narram também suas questões familiares (que variavam entre muito boas – no caso de Rogéria, por exemplo – e extremamente problemáticas – como com Marquesa), situando os expectadores na mentalidade da época (o que é bastante assustador, considerando que pouco mudou nas décadas de intervalo).

A relação com os próprios corpos é um aspecto abordado sob diferentes perspectivas, trazendo um panorama interessante sobre as diversas possibilidades de reconhecimento de identidade de gênero.

O Teatro Rival teve uma importância fundamental nas histórias dessas artistas, como local que, na Cinelândia de outrora (com sua acalorada vida noturna e seus famosos cinemas), as acolheu e difundiu seus trabalhos. Leandra Leal, então neta do dono do teatro, cresceu entre camarins e coxias do Rival, tendo contato direto e constante com esses ícones. Suas lembranças afetivas são narradas durante o longa, deixando claro a importância desse convívio na formação da atriz e pessoa “Leandra”. Ângela, sua mãe (também atriz), costumava levá-la aos bastidores do teatro desde antes de seu primeiro aniversário, e lá a menina cresceu e seguiu seus passos: Não somente por também se tornar uma atriz de renome, mas por assumir a missão de tocar os trabalhos no Teatro.

Muito lindamente vem, então, retomando trabalhos que deem espaço para travestis na noite carioca, com um novo projeto que se chama “Rival Rebolado”. Além de um show divertido com bailarinas/performers burlescas e atores (dentre os quais estão a própria Leandra e o impagável Luis Lobianco) rola um concurso para eleger a melhor Drag da temporada: Muito amor e diversão! E, novamente, o Rival cumpre um papel fundamental de inclusão de um grupo que (mesmo com todos os avanços) ainda sofre pela descriminação de toda sorte.

E por esse olhar sensível e envolvido (desde sempre) com a temática, a direção de Leandra Leal consegue fazer de “Divinas Divas” uma obra prima. A abordagem é leve, com bom ritmo garantido pela alternância entre relatos, registros antigos, ensaios e show. Extrai das artistas frustrações, delícias, amores e histórias; extrai do contexto a relevância desses nomes; e retira do convívio para preparação do espetáculo um pouco da divertida personalidade das divas. Espontâneo, o longa traz a discussão sobre o quanto a marginalização do trabalho realizado por artistas como elas é uma mazela de uma sociedade que ainda tem muito para evoluir (haja visto que a própria diretora do documentário cresceu rodeada destas damas e ali teve seu caráter – acolhedor – formado). A produção do longa também não deixa a desejar, entregando um produto atraente e com ares de elegância e glamour, mesmo na perspectiva documental que o acompanha do início ao final.

O documentário foi rodado contanto, dentre outras fontes, com verba de crowdfunding (espécie de vaquinha online). E a repercussão positiva do resultado mostra o quão importante é incentivar o desenvolvimento de trabalhos como este: que divertem, emocionam e conscientizam. Portanto, esta beleza do nosso cinema merece (e muito) ser vista.

Crítica (2): Divinas Divas
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