Considerado o compromisso social do cinema, é natural que ele represente e coloque em questão situações de urgência. Exemplo recente, a crise dos refugiados pautou diversas obras deste ano, como “Happy End”, do austríaco Michael Haneke – selecionada para a última Mostra de São Paulo, mas ainda sem data de estreia comercial no Brasil – e “Deserto”, do mexicano Jonas Cuarón – em cartaz nas salas nacionais desde o último dia 2. Apesar das inúmeras abordagens em produções dos mais diversos países, o tema ainda carece, contudo, de registros documentais. Nesse sentido, o artista e ativista chinês Ai Weiwei oferece poderosa contribuição com seu novo filme “Human Flow – Não existe lar se não há para onde ir”.

Resultado de um ano de viagens por 23 países, o documentário busca entender as causas que levam os refugiados a abandonarem seus países de origem e as dificuldades que enfrentam para fixarem uma nova residência. A fim de discutir assunto de tamanha amplitude, o longa-metragem adota então forma intertextual: dialoga com a poesia, o jornalismo e a própria história ao incluir citações, manchetes internacionais e cartelas explicativas de contextos. Ora parece um tanto televisivo, ora ganha contornos artísticos. E se algumas vezes se comporta deste modo em detrimento daquele, muito se deve à fotografia.

Dado o caráter internacional do projeto, coube a doze fotógrafos de origens diferentes a captura das imagens. Entre um plano e outro, não só a equipe muda, mas também as tecnologias. E o diretor faz questão de mostrar isso: muitas vezes ele próprio aparece com um celular ou uma câmera digital simples em mãos. Ao assumir essa diversidade imagética, o filme indica acreditar em uma realidade multiperspectivada, jamais finalmente capturada pelas lentes.

Essa posição tem ainda mais sentido se analisado o título original “Human Flow” – em português, fluxo humano. Weiwei interessa-se pelas migrações enquanto elas acontecem, acompanha seu movimento. O presente impera, e os demais tempos só se manifestam nas relações que tecem com ele. Para seguir esse fluxo, entretanto, o cineasta enquadra suas personagens como uma grande personagem coletiva. Dificuldades comuns entre elas, como a preservação da identidade, destacam-se em depoimentos de autoridades políticas e intelectuais. A individualidade aparece apenas como exemplo de miséria e sofrimento. Apesar das mais de duas horas de duração, não há tempo de tela suficiente para criar uma conexão com os indivíduos filmados. A empatia estabelece-se antes com a situação coletiva.

Outra questão do longa-metragem é que o realizador chinês, conforme mencionado anteriormente – e como se pode ver na imagem acima -, muitas vezes insere-se no próprio filme. Algumas dessas interferências contribuem positivamente com o discurso cinematográfico, como no exemplo a respeito da fotografia. Outras, no entanto, pouco acrescentam ao resultado final. Ao contrário, sugerem que Weiwei mais se interessa por sua condição de autor do que pelas pessoas filmadas. Mesmo que em algumas sequências interaja com elas de maneira simpática e descontraída, a sensação é de que o cineasta quer antes dizer algo a respeito de si mesmo.

Passados, enfim, os 140 minutos de projeção, “Human Flow – Não existe lar se não há para onde ir” certamente terá atingido seu objetivo inicial: levantar debate sobre a crise migratória. Afinal, trata-se de um filme político, atual e necessário, ainda que o resultado final seja comprometido pela vaidade e pela ambição excessiva de seu diretor.

* O filme estreia dia 16 de novembro, quinta-feira.

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Luiz Baez

Carioca de 23 anos. Mestrando em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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