Crítica (2): Onde está segunda?

Segunda pode ser um dia de muita adrenalina nesta produção original da Netflix

Parece que a Netflix quer mesmo apostar em produções com uma temática futurística – errando algumas vezes (“ARQ” e “iBoy”) mas acertando em outras como em “Black Mirror”“Spectral” e no longa “Onde está segunda?” de Tommy Wirkola.

O filme se insere num futuro – não muito distante – em que a sociedade lida com um problema sério de superpopulação. Para conter a escassez de alimentos e consumo de água, é lançada uma lei – criada pela ativista política Nicollete Cayman (Glenn Close) – em que famílias só podem ter um filho. Os irmãos que nascerem após o primogênito devem ser submetidos a uma criogenia, onde permanecem dormindo até os problemas econômicos serem contidos. Neste contexto, nascem sete irmãs gêmeas (Noomi Rapace), que, orientadas pelo avô, assumem a identidade única de Karen Settman para não serem descobertas. Quando uma delas desaparece, Segunda, as outras seis precisam se desdobrar para sobreviverem e conseguirem resgatar a irmã.

É interessante ver como a lei de alocação infantil solidifica a motivação de cada personagem da trama e como isso faz com que o roteiro da dupla Max Botkin e Kerry Williamson fique bem fechado e redondo. Partindo de Terrence Settman (William Dafoe) – por discordar da política e acreditar ser possível irmãos conviverem juntos sem prejudicar os recursos escassos – treina suas netas para viverem escondidas do governo. Cada uma delas é nomeada com o seu respectivo dia em que é permitida sair e, fora de casa, assumem o nome da mãe que faleceu no parto. As irmãs seguem, de forma metódica, as orientações do avô – que por motivos desconhecidos sai de cena – até que o sumiço de Segunda abala suas vidas consideravelmente. A partir daí a lei instaurada por Cayman passa a ser questionada, trazendo desconfiança sobre sua real eficácia, o que, por sua vez, torna a motivação das irmãs algo além de um mero resgate – há um quê de revolução na busca por Segunda.

Noomi Rapace oferece detalhes cirúrgicos a cada uma das irmãs que interpreta. A comparação com a canadense Tatiana Maslany de Orphan Black” é inevitável, mas a atriz sueca não deixa nada a desejar. Recentemente foi  a vez de Cate Blanchett incorporar diversos personagens numa mesma produção com Manifesto – a conclusão em que se chega é que quando se trata de gigantes como Noomi, Tatiana e Cate cada persona fica bem delineada e diferenciada das outras e o espectador tem ao seu alcance uma masterclass de interpretação. Glenn Close está, como sempre, destruidora no papel da vilã Nicolette – no auge dos seus 70 anos, Close ainda faz jus ao título: umas das melhores atrizes de todos os tempos – e claro, William Dafoe, presente apenas no início, constrói magistralmente o avô protetor e rígido.

Um destaque da trilha sonora é se assemelhar as de filmes de super-herói, ainda que se tratando de uma ficção científica e suspense – quando os perseguidores estão em cena a música se torna mais tensa, anunciando a chegada dos vilões para a heroína, que, por sua vez, está acompanhada por uma trilha de soberania, trazendo esperança e persistência enquanto segue na trajetória em busca do seu objetivo principal. Destaque para uma sequência em que um dos personagens se sacrifica, é um trecho que tinha tudo para pesar no melodrama e ficou bem objetivo. A priori parece que o filme vai ser cheio de momentos cafonas e previsíveis, mas ainda que não traga nada de inovador o resultado é  harmonioso.

Uma ficção científica sobre a vida de sete irmãs interpretadas pela mesma atriz exige uma direção de arte impecável, qualquer deslize traria descrédito e “Onde está segunda?” não se permite ao erro. Com efeitos especiais e visuais contidos e apostando num ambiente com tecnologia bem avançada, a atmosfera oferece verossimilhança e traz para bem próximo de quem assiste esse futuro distópico. Claro que, como em qualquer outro filme com muitos trechos de ação, algumas cenas duvidosas fazem o espectador questionar a probabilidade daquilo acontecer – como por exemplo as irmãs conseguirem driblar inúmeros agentes treinados com frequência, ainda que o avô as tivesse treinado bastante, dificilmente elas se tornarem superiores a um profissional – alguns trechos com mutilações e sangue demasiado estão no limite, um pouco mais do que ficou no filme seria gratuito, mas é possível deixar tudo isso passar. A improbabilidade justifica-se com a lembrança de que aquilo tudo está a serviço de uma ficção.

Contudo fica aqui a reflexão do quão distante essa distopia está da atualidade. Situações semelhantes a da trama acontecem em países do Oriente como a China, por exemplo, a medida que a tecnologia avança sobre a vida humana não é de se espantar a instituição de uma lei parecida com a alocação infantil em breve. Já parou para pensar? É mais uma daquelas obras audiovisuais perturbadoras que levam o espectador a perceber que o mundo está indo de mal a pior, apesar da conclusão deprimente vale muito a pena assistir. É, provavelmente, o melhor lançamento original dos últimos meses da Netflix.


Por Rayza Noiá

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