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Crítica

Crítica: Amigas com dinheiro

 Crise não financeira

À primeira vista, o título em português “Amigas com dinheiro” (uma tradução literal do original) pode nos fazer pensar em uma daquelas comédias bobinhas envolvendo um grupo de mulheres indo às compras e bebendo champanhe. Não é nada disso. É possível rir, mas certamente um riso nervoso, pois no longa dirigido por Nicole Holofcener (que também assina o roteiro) o humor é ácido, cortante. Independentemente do saldo bancário, os personagens estão quase todos perdidos e infelizes.
Olivia (Jennifer Aniston) destoa do grupo de amigas por ter voluntariamente abandonado seu emprego de professora em um colégio de elite e decidir trabalhar como faxineira. As demais, todas casadas e sem problemas financeiros, sentem por ela um misto de pena e desprezo disfarçado. No entanto, embora à distância possam parecer pessoas bem-sucedidas, todas, em maior ou menor grau, enfrentam algum tipo de frustração que não assumem nem para si mesmas. Mas suas atitudes no dia a dia acabam sendo reveladoras.

Embora os personagens interajam entre si, assistimos aos seus dramas particulares. Existe uma constante alternância entre as histórias de cada um: uma hora nós temos a conversa de um dos casais, em outro momento a solidão de Olivia, depois o comportamento de um dos maridos fora de casa. Essa construção do roteiro lembra um tanto a linguagem televisiva. Não há uma produção mais sofisticada em termos de fotografia ou trilha sonora; o forte do longa são os diálogos. O uso de planos detalhes é mais frequente quando se trata do universo de Olivia, em sua função de limpar casas e sua mania de estocar amostras de cosméticos caros que descaradamente consegue em lojas de departamento.
Em termos de atuação, alguns nomes devem ser destacados aqui. Talvez o público tenha alguma dificuldade para aceitar Jennifer Aniston no papel de faxineira; mas suas amigas no filme também não aceitam. O interessante é justamente o comportamento da personagem, que escolhe esse trabalho por não conseguir decidir o que quer fazer da vida e ao mesmo tempo não poder se dar ao luxo de ficar sem trabalhar, como sua amiga Franny (Joan Cusack), que não tem um emprego fora de casa, mas cuida dos filhos e faz doações financeiras polpudas a causas beneficentes. Jane (Frances McDormand), estilista de roupas caríssimas, é casada com Aaron (Simon McBurney), que todos comentam – pelas costas, claro – que certamente é gay. A neurose da personagem é visível em seu tom de voz, seus comentários e o fato de que simplesmente parou de lavar o cabelo “pois ele vai sujar de novo”. A atriz cria em torno de sua personagem uma atmosfera que nos faz pensar na imagem de uma panela de pressão, e sua performance é um dos pontos altos do filme. O comportamento sempre tenso de Jane contrasta com o do marido, relaxado, tranquilo e que deixa no ar a dúvida: seria ele um homossexual no armário ou apenas um metrossexual?

O casal Franny e Matt (Greg Germann) é o mais endinheirado e parece ser o menos problemático; justamente por isso, pela aparente ausência de conflitos mais densos, acaba se sobressaindo pouco no filme, embora os atores sejam bons, como todo o elenco. Uma criação interessante da roteirista são as conversas dos casais no carro, quando voltam de algum evento: sempre falam dos demais e analisam a vida alheia sem papas na língua. Uma situação bastante simbólica é a construção de um segundo andar na casa de Christine (Catherine Keener) e David (Jason Isaacs), enquanto o casamento deles desmorona. Ambos escrevem roteiros e trabalham em dupla, e Nicole Holofcener usou muito bem a atividade dos personagens para criar pequenos jogos de cena com diálogos.

Quem se deixar enganar pelo título e esperar uma comédia leve para apreciar com pipoca pode acabar se surpreendendo positivamente, caso aprecie enredos sobre relacionamentos e conflitos do cotidiano.

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Neuza Rodrigues

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