Crítica: Aniquilação

O câncer é o crescimento anormal de células. Elas se multiplicam fora de controle e, se não tratadas, são capazes de tomar todo um organismo. Em “Aniquilação”, porém, esse comportamento celular não se limita a uma patologia: é provocado pelo ambiente, que não só faz com que as células se dividam descontroladamente, mas também com que passem por mutações fora do comum, cruzando o DNA dos seres vivos que ousam romper seu perímetro. Animais tornam-se híbridos de homens, homens ganham galhos, espinhos e flores.

O cenário é assustador e ele é o centro do segundo filme dirigido e escrito por Alex Garland. Audacioso, o novo projeto do realizador do excelente “Ex Machina: Instinto Artificial” (2015), mesmo com alguns defeitos ao longo do percurso, vem como um sopro de ar fresco diante do fiasco dos últimos longa-metragens que chegaram ao Brasil com selo “Original Netflix”.

Uma bola de fogo atinge um farol. É um plano de poucos segundos privilegiado pelo diretor no começo da projeção, que não sabemos que prevê o destino de Lena (Natalie Portman), uma bióloga que há um ano sofre com o desaparecimento do marido, Kane (Oscar Isaac), um militar que embarcou em uma missão secreta do exército e desde então não voltou para casa. Entretanto, sem ela esperar, uma tarde ele retorna.

O homem, contudo, além de apresentar um comportamento estranho, mostra-se ferido. Tentando prestar socorros, ela e o marido acabam sendo levados para uma base militar do governo, onde Lena descobre o motivo de sua ausência: ele e outros soldados foram enviados ao “The Shimmer”, uma região misteriosa isolada por uma espécie de redoma brilhante, na qual todas as pessoas que entraram, nunca mais saíram. Querendo entender melhor as circunstâncias do sumiço de Kane, ela se oferece para compor a próxima expedição a adentrar a área em busca de informações sobre o fenômeno.

Em seus trabalhos anteriores, Garland já havia provado seu talento em criar atmosferas estarrecedoras e o reafirma em “Aniquilação”. Adaptando o romance homônimo de Jeff VanderMeer – primeiro livro da “Southern Reach Trilogy” -,  o cineasta volta a tatear o terreno da ficção científica e do horror e, a partir desses gêneros, constrói uma narrativa ambiciosa tanto visual quanto tematicamente.

A concepção do “Shimmer”, ao mesmo tempo em que amedronta, é de encher os olhos. Lembrando a área alienígena construída por Andrei Tarkosvky no clássico “Stalker” (1979), a região cercada pela misteriosa película furta-cor é um sinal apocalíptico, mas encanta com suas cores, criaturas e vegetação extraordinárias. “Era como em um sonho”, recorda a protagonista.

Para valorizar na tela o trabalho do design de produção, o cineasta dá força a quadros abertos e a planos detalhe. Enquadramento que, fotografados por Rob Hardy com lentes anamórficas para aumentar nosso campo de visão – a razão de aspecto do filme é de 2:39:1 -, entregam um espetáculo imagético. Espetáculo que ganha ainda mais peso dramático com a trilha lúgubre composta por Geoff Barrow e Ben Salisbury, ora conduzida em melancólicos acordes de violão, ora com a potência de sons dissonantes e sintéticos.

O poder das figuras fantásticas, porém, não reside só em sua imagem. Em alguns momentos, o roteiro de Alex Garland dá textura às criaturas que habitam a bolha, criando episódios sinistros como o urso que com voz humana grita por ajuda, o resultado do homem que teve o abdômen aberto para que seu interior fosse registrado em vídeo ou a criatura – e seu destino – que confronta a personagem de Natalie Portman no clímax da trama.

Por falar no script do cineasta inglês, seu texto é, ainda que em brandas proporções, um desafio a imaginação do espectador. Evitando dar respostas a todos os enigmas que apresenta, é instigante como convida a reunir as peças que ele dispõe ao longo da narrativa fragmentada. O que representam as tatuagens? O que significa o desfecho? Cabe a nós decodificá-los.

Entretanto, mesmo que o filme tenha virtudes, ele não sai imune a problemas. Pelo contrário, até em seus pontos fortes ele dá seus deslizes. Primeiro o visual, prestigioso, em muitos momentos é minado pela baixa qualidade das imagens geradas por computador – o famoso CGI –, o que atrapalha a imersão, ainda que seu conceito seja sofisticado.

Segundo, o próprio roteiro. A expedição, além de Lena, é surpreendentemente composta por outras quatro mulheres: Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh), Anya (Gina Rodriguez), Cass (Tuva Novotny) e Josie (Tessa Thompson). Contudo, mesmo que seja de se comemorar um filme de ficção-científica conduzido por um elenco feminino em um período em que a representatividade é tão reivindicada, chega a decepcionar ver que tirando a protagonista, as personagens são desenvolvidas de forma superficial. Sua dinâmica é previsível e suas características estão limitadas a seus arquétipos.

Colocando na balança, porém, “Aniquilação” acerta mais do que erra. Afiado em como aponta nosso desejo de autodestruição – vide a ambiguidade dos eventos finais –, mostra como talvez nos queiramos persistir à imortalidade, mas no final nossas células estarão sempre programadas à morte.

Crítica: Aniquilação
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