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CríticaFilmes

Crítica: Anon

Avatar de Oswaldo Marchi
Oswaldo Marchi
24 de maio de 2018 3 Mins Read

Anon posterUm mundo onde todas as pessoas têm um implante que grava as suas ações e onde a privacidade é um conceito ultrapassado. É nesse universo que se passa “Anon”, a nova história de ficção científica do diretor e roteirista Andrew Niccol, conhecido pelos bem-sucedidos “Gattaca” (1997), “Senhor da Guerra” (2006) e por vencer o Oscar de melhor roteiro original com “O Show de Truman” (1998). Lançado nos cinemas no Reino Unido, o novo longa teve sua distribuição internacional como um “Original Netflix”, um título que tem sido cada vez mais polêmico por causa de seus lançamentos medíocres recentes. Categoria essa que, infelizmente, “Anon” faz parte.

A história se passa em um futuro no qual todos têm suas memórias salvas em um database chamado “O Éter”, ao qual as autoridades possuem livre acesso para resolver crimes e demais disputas. Um dos principais detetives dessa rede é Sal Frieland (Clive Owen) que, acostumado com crimes que se resolvem sozinhos graças à possibilidade de consultar as lembranças dos envolvidos, se vê cara a cara com um serial killer que consegue burlar o sistema, esconder sua identidade e se tornar invisível. Em suas investigações, Sal encontra uma mulher anônima misteriosa (Amanda Seyfried) de quem começa a suspeitar e, eventualmente, com quem fica obcecado.

Com um argumento interessante, Niccol aproveita sua ideia para construir uma boa atmosfera de ficção científica. Praticamente todo o primeiro ato da trama é utilizado para estabelecer diversas facetas dessa sociedade, o que, apesar de efetivo, é às vezes um pouco gratuito ou extenso, com cenas que pouco acrescentam a história além de demonstrar os diversos usos de sua tecnologia. Os efeitos visuais empregados também são convincentes ao criar uma interface moderna, tecnológica e, mais importante, compreensível.

Sua direção, porém, ao mesmo tempo em que valoriza a construção de mundo, peca em credibilidade no que diz respeito ao uso de pontos de vista. Uma constante no filme, os planos subjetivos são utilizados para praticamente todos os seus personagens, mas nunca parece natural, já que todas as ações são filmadas com uma precisão robótica. Esse sentimento de artificialidade é dobrado em sequências em que a câmera está na visão de alguém apontando uma arma, que parecem ter saído de um videogame graças a posição nada natural com a qual a mão com a pistola aparece no ­mise en scène.Anon 02

Outro problema do longa é o seu script, que apesar das boas ideias, apresenta algumas subtramas que são prontamente esquecidas e, mais grave, personagens não muito cativantes. O protagonista de Clive Owen tem a mesma história de “detetive com trauma familiar” que já foi vista diversas vezes, e a hacker interpretada por Amanda Seyfried tem até alguns momentos interessantes, mas graças ao seu aspecto misterioso, nunca é posta em evidência.

As interpretações de ambos os atores principais são decentes, porém – e isso vale para todo o restante do elenco –tendem a ser monótonas. A falta de personalidade e de desenvolvimento tornam os personagens secundários dispensáveis e sem graça e dificultam o envolvimento emocional da audiência com a trama. Os pontos de virada e reviravoltas da história falham em impressionar em um longa que parece blasè em quase todos os seus demais aspectos.

Essa monotonia também é presente na fotografia cinza de Amir Mokri e na trilha sonora sintética de Christophe Beck, no entanto, enquanto a primeira impressiona com seus cenários durante todo o longa, a segunda se torna repetitiva rapidamente. Todos esses elementos que parecem ter sido deixados em segundo plano para o filme se focar em demonstrar uma tecnologia futurista de moralidade duvidosa, deixam-no mais parecido com um episódio muito longo de “Black Mirror” do que com um longa-metragem próprio.

Por fim, “Anon” é uma ficção cientifica com um bom universo, mas que peca com uma execução vazia, beirando o entediante. Não é um filme ruim, mas também não é destacável, dando continuação a sequências de longas medíocres do estilo que estreiam na plataforma de streaming em 2018.

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Amanda SeyfriedCinemaNetflix

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Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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