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CríticaFilmes

Crítica: Beatriz

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
5 de junho de 2019 3 Mins Read
“Até onde pode ir o amor da gente por uma pessoa?”

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Nos últimos anos, Marjorie Estiano afirmou-se como uma das mais interessantes e promissoras atrizes nacionais. Sob a batuta de nomes experientes como Andrucha Waddington (“Sob Pressão”), Breno Silveira (“Entre Irmãs”) e Monique Gardenberg (“Paraíso Perdido”), a jovem curitibana encontrou no cinema terreno fértil para plantar o seu talento. Suspense, drama histórico, musical: multifacetada, destacava-se em qualquer gênero. Não sem motivo, foi em um território ainda inexplorado que ela obteve o maior reconhecimento. Com o terror “As Boas Maneiras” (2017), escrito e dirigido pela dupla paulista Juliana Rojas e Marco Dutra, Estiano conquistou um Troféu Redentor. Não era, contudo, a primeira – e tampouco a última – passagem da curitibana pelo Festival do Rio.

Dois anos antes, “Beatriz” abria a Première Brasil. Coproduzido por Portugal, o longa-metragem de Alberto Graça (“O Dia da Caça”) chega só agora ao circuito comercial, quase quatro anos após a sua sessão de gala. Por um lado, é verdade, tantos outros filmes sofrem dificuldades de distribuição e exibição. Mesmo grandes nomes, como Ruy Guerra, enfrentaram, recentemente, situações semelhantes. No caso do moçambico-brasileiro, porém, “Quase Memória” (2015) conservava uma urgência à data de sua estreia – qual seja, a de discutir memória em um país ameaçado pelo retorno de autoritarismos. Não parece ser esse o caso de “Beatriz”, menos atual – ou mais velho – a cada dia.

Na ficção de Alberto Graça, Estiano interpreta a personagem-título, advogada casada com Marcelo (Sérgio Guizé), um romancista em busca de inspiração. Essa fonte de criatividade, mais perto do que imagina, ele descobre em sua esposa. Beatriz vive fantasias sexuais apenas para recontá-las ao marido e, assim, oferecer matéria-prima para o desenvolvimento do livro. A partir dessa curta descrição, pode-se questionar a própria premissa. O roteiro enxerga Beatriz, afinal, como nada além de um objeto de Marcelo. Profundamente inverossímil, a falta de agência da personagem ignora qualquer reivindicação contemporânea por figuras femininas mais complexas. Nesse ultrapassado universo cinematográfico, só há espaço para loucas e prostitutas. De todo modo, alguém poderia defender tratar-se da ótica do personagem escritor.

Beatriz 3

A esse argumento, uma resposta possível encontra-se na análise da direção. Enquanto Graça transita por casas noturnas e prostíbulos, as imagens estão antes a serviço de um fetichismo do que da narrativa. Até o imaginável embaralhamento entre ficção e realidade, sugerido por uma tríplice representação – cinematográfica (o enredo central), literária (a narração de Beatriz) e teatral (a encenação, em espanhol, de uma peça sobre o processo criativo de Marcelo) – perde força diante da preocupação constante em localizar o espectador com inserções textuais.

Depois de aguardar quase quatro anos, enfim, “Beatriz” ainda perambulará à procura de seu lugar. Além da curiosidade despertada pelo protagonismo de Marjorie Estiano, merecedora de todo prestígio de que hoje goza, o longa-metragem pouco tem a oferecer ao seu público. Ainda mais agora, em 2019, quando os primeiros sinais de mofo começam a emergir à superfície de uma obra cuja validade já expirara antes mesmo de sua produção.

* O filme estreia amanhã, dia 6, quinta-feira.


Imagens e Vídeo: Divulgação/MPC Filmes

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Tags:

DramaLiteratura e SexoMarjorie EstianoPortugal

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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