Connect with us

Hi, what are you looking for?

Crítica

Crítica: Bem-vindo a Marly-Gomont

Ignorância e preconceito

Ser estrangeiro e conseguir conquistar a confiança dos moradores de um vilarejo no meio do nada poderia ser difícil para qualquer um a princípio; mas sendo negro, como o Dr. Seyolo Zantoko, a empreitada foi dolorosa e exigiu muita resiliência. “Bem-vindo a Marly-Gomont” foi inspirado na história real desse médico, formado na França, que abriu mão de um cargo de prestígio em seu país natal – o Zaire (hoje República Democrática do Congo) – por recusar-se a ter envolvimento com a corrupção dos governantes.

Sem contar nada à família, declinou a oportunidade de ser o médico pessoal do presidente Mobutu e sabendo que o prefeito de Marly-Gomont procurava há tempos alguém que atendesse sua comunidade, ofereceu-se para tal. O vilarejo em questão situa-se no interior da França, mas segundo o próprio prefeito, “não é a França”. Seyolo foi avisado de que se tratava de um lugar lamacento onde nada acontecia e de que os moradores nunca haviam visto um negro por lá. “E daí? Vão ver agora”, respondeu.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Após essa breve introdução, sucedem-se cenas do cotidiano no Zaire dos anos setenta: crianças brincando, pessoas trabalhando, o movimento urbano, tudo sublinhado por uma música animada, funcionando como a abertura do filme. É hora então de Seyolo (Marc Zinga), que está em Lille, ligar para a família em Kinshasa, capital do país natal, para dar a notícia da mudança. “Ao norte de Paris” é entendido pela esposa Anne (Aïssa Maïga) somente como Paris, e ela, assim como seus familiares, entra em êxtase pensando no quão animada sua rotina se tornará. Apenas as crianças – Sivi (Médina Diarra) e Kamini (Bayron Lebli) – parecem não gostar muito da ideia.

Um plano geral mostra um ônibus chegando e deixando a família sob chuva forte no meio de uma estrada vazia. As reações visivelmente contrariadas de Anne e dos filhos dão um tom cômico à cena, o que se repetirá em diversos momentos do longa. Aïssa Maïga tem perfeito timing de comédia e a linguagem corporal dos três personagens parece estar sempre em sintonia conjunta. São três contra um: estão desapontados, mas Seyolo mantém sempre o tom otimista por mais que situações absurdas aconteçam em sequência, deixando bem clara a hostilidade dos moradores em relação à família pelo fato de serem negros. Embora a comicidade de Anne e a atitude de Seyolo de nunca permitir se abater com o comportamento dos habitantes suavizem um pouco a atmosfera do filme, é impossível não se chocar com as situações explícitas de racismo mostradas no longa. Entre os absurdos, o silêncio e a estupefação das pessoas cada vez que um membro da família cruza o seu caminho ou adentra um ambiente. Há piores (mas talvez seja difícil ordená-los numa escala de horror).

Marly-Gomont é um lugar onde chove abundantemente e com frequência. A fotografia explorou bastante o constante cinza do céu e o verde vivo da grama. Outras cores bastante presentes no filme são os tons terrosos, além de mostarda e vermelho, no figurino da família. E os parentes da trupe aparecem em Marly-Gomont sempre com roupas estilosas e exuberantes, causando desestabilização no ambiente pacato e conservador, para aflição de Seyolo. O roteiro deixa claro a angústia do médico, que na ânsia por aceitação (achando que deveria fazer tudo para agradar os franceses), chega a reprimir a própria família, proibindo que conversassem em lingala, seu idioma materno, mesmo em casa.

A trilha sonora se faz bastante presente durante todo o filme. A propósito, no encerramento, temos um rap de Kamini, que narra a tal experiência de viver em Marly-Gomont. O filho de Seyolo foi um dos roteiristas do longa, juntamente com Benoît Graffin e Julien Rambaldi – este, diretor do filme.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Dr. Zantoko acabou se tornando uma pessoa respeitada no local, apesar da discriminação inicial que só não aconteceu por parte de poucos moradores, como o agricultor que fez questão de afirmar diante de outros: “o solo daqui é muito fértil para a estupidez”.


Neuza Rodrigues

Advertisement. Scroll to continue reading.

Reader Rating6 Votes
9.3
8.5
Written By

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode ler...

Séries/TV

A alta sociedade continua agitada em 2022 com as primeiras imagens da segunda temporada de “Bridgerton” Netflix e Shondaland divulgaram hoje oito novas fotos...

Séries/TV

É cringe que fala? “De Volta aos 15” tem Maisa e Camila Queiroz no elenco A internet discada não ajuda, nem o celular tijolão...

Filmes

Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister da série de TV “Game of Thrones”, está na nova produção da Netflix “Against The Ice”. Para promover o...

Filmes

Por meio de sua conta no Twitter, a Netflix dos EUA anunciou o fim das filmagens de “Enola Holmes 2”, e ainda compartilho um...

Advertisement