Crítica: Brinquedo Assassino (2019)

Como já indicavam os trailers, o novo “Brinquedo Assassino” não mais incorpora um espírito humano. Em vez disso, a recente releitura aposta na automação tecnológica. Buddi, simpático boneco da fictícia Kaslan, funciona como uma espécie de Alexa ou Google Home. Em outras palavras, a inteligência artificial substitui o vodu no filme de Lars Klevberg (“Morte Instantânea”). Os riscos de tal abordagem são evidentes, e insucessos abundam em “Black Mirror” – para citar um conhecido exemplo. Justamente por esse motivo, surpreende o cuidado da refilmagem, sempre atenta à possibilidade de recair em um determinismo tecnológico.

Se por trás de Chucky não há mais uma pessoa, parece fácil atribuir à tecnologia o papel de vilã. Semelhante conservadorismo, no entanto, nada tem a ver com a irreverente franquia de Don Mancini. Felizmente, tampouco o tem com a atualizada versão. A começar por Aubrey Plaza: a atriz, notabilizada pela debochada indiferença da personagem April, em “Parks and Recreation”, dita o tom de um filme pouco interessado em produzir algum discurso. Cai por terra, assim, qualquer tentativa condenatória – marca registrada de “Black Mirror”.

Não se trata, na verdade, de sugerir propriamente uma ausência de discurso. Na condição de inteligência artificial, Buddi aprende com os humanos ao seu redor. O problema específico de Chucky – dublado por Mark Hamill (o Luke Skywalker da saga Star Wars”) – consiste, porém, na remoção dos controles de segurança, medida retaliatória de um funcionário da Kaslan. Ora, se o brinquedo imita o comportamento infantil, podem-se supor atitudes guiadas pelo id. Contra esse puro princípio de prazer, as travas de fábrica atuariam como instância regulatória, análoga à educação familiar para o menino Andy Barclay (Gabriel Bateman, de “Quando as luzes se apagam”).

Nesse sentido, talvez seja coerente chamar o filme de infantil. Longe, aqui, de qualidade valorativa, o adjetivo chama a atenção para a liberdade das sequências, despreocupadas com uma rigidez discursiva. Como Chucky, que aprende com as crianças, ou Andy, que amadurece com os obstáculos, “Brinquedo Assassino” (Child’s Play, 2019) se constrói em ato. Entre a maturidade de identificar uma cultura da violência – em inteligente montagem alternando cenas de “O Massacre da Serra Elétrica 2” (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) e gargalhadas – e a espirituosidade de produzir comédia a partir disso – Chucky associa o horror à diversão e mimetiza Leatherface  -, Klevberg recupera o componente humano e afasta de vez todos os perigos que carrega consigo a premissa tecnológica. A arriscada aposta compensa.

Não é, portanto, vilã a inteligência artificial. Entendida enquanto extensão do humano, a tecnologia apenas potencializa algo já existente. Logo, Buddi ou Chucky meramente canalizam os desejos de suas crianças. A ameaça reside, antes, no id largado à sua sorte, imediado pela dimensão superegoica. Caracterizado como infantil, contudo, não estaria o longa-metragem sujeito aos mesmos riscos? Posto de outra forma, o que o impediria de uma destruição próxima à deflagrada por Chucky? Decerto a direção de Lars Klevberg. Ciente das turbulentas zonas pelas quais transita o projeto, o cineasta sabe bem se esquivar: tanto da indevida seriedade quanto do puro chiste.

* O filme estreia dia 22, quinta-feira.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Imagem Filmes

Crítica: Brinquedo Assassino (2019)
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