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CríticaFilmes

Crítica: Cézanne e eu

Avatar de João de Queiroz
João de Queiroz
4 de julho de 2019 3 Mins Read

Cèzanne e eu Pôster

Émile Zola e Paul Cézanne foram dois dos maiores artistas franceses do final do século XIX. O primeiro foi o principal nome do naturalismo na França ao escrever obras como “Thérèse Raquin”, “A Besta Humana” e “Germinal”. O segundo, por sua vez, apesar de ter aproveitado pouco sucesso em vida, se tornou referência para gerações futuras de pintores, especialmente os cubistas. Entretanto, além da importância que possuem no mundo das artes, ambos também passaram a infância em Aix-en-Provence, cidade do sul da França, onde estudaram juntos e iniciaram uma amizade que atravessaria décadas.

Esse relacionamento é a base de “Cézanne e Eu”, filme da diretora e roteirista Daniéle Thompson. Chegando aos cinemas brasileiros com quase três anos de atraso, o longa francês tem como ponto de partida o primeiro encontro entre os artistas após a publicação de “A Obra”, romance de Zola (Guillaume Canet) cujo protagonista, um pintor fracassado, é livremente inspirado em Cézanne (Guillaume Gallienne) – fato que causa um atrito na amizade entre os dois. Então, a partir dos diálogos travados entre eles nesse reencontro, Thompson vai e volta no tempo, mostrando diferentes momentos na vida das personagens, a fim de criar um panorama dessa longeva relação.

Essa abordagem, porém, termina prejudicando o filme. A decisão da diretora em cobrir várias décadas, narrando diferentes acontecimentos e preenchendo o roteiro com aparições de outros conhecidos artistas da época (Guy de Maupassant, Camille Pissarro, Édouard Manet etc.) indica uma abordagem mais didática, como se sua intenção fosse introduzir espectadores leigos nesse universo. Todavia, nessa ânsia de incluir o maior número possível de informações, Thompson torna seu filme desnecessariamente confuso, adotando um ritmo afobado que, ao invés de trazer o espectador para o mundo de suas personagens, o desorienta com um sem-número de nomes e fatos disparados como tiros de metralhadora. Essa sensação é especialmente sensível no primeiro ato, mas está presente ao longo de toda a projeção.

Por outro lado, esse mesmo excesso impede o roteiro de se aprofundar nos dilemas enfrentados pelos dois protagonistas. Apesar de criar paralelos potencialmente ricos entre Cézanne e Zola, incluindo suas origens diferentes e suas trajetórias profissionais inversas, Thompson faz pouco uso delas, contentando-se em explorá-las de forma óbvia e superficial. Mostra-se muito o resultado das ações das personagens: Emile se torna um homem bem-sucedido, sociável e que abandona seus ideais à medida que envelhece, enquanto Paul se torna mais recluso e fracassado quanto mais se apega às suas obsessões; porém, pouca atenção é dada a como essas transformações acontecem.

Algo semelhante ocorre quando o filme dá atenção às relações sociais dos protagonistas. A não ser por alguns comentários feitos vez ou outra (a dificuldade em ter filhos, por exemplo), pouco se mostra efetivamente da vida matrimonial de Zola com Alexandrine (Alice Pol), tornando todo o drama acerca do desgaste de seu casamento e seu crescente desejo pela empregada Jeanne (Freya Mavor) bastante superficial e pouco envolvente.

cezanne e eu 3

Quanto a Cézanne, muito de seu isolamento é atribuído a seus ideais artísticos, que procuravam retratar a natureza primordial de paisagens, objetos e pessoas, à parte de seu uso cotidiano pelo homem. Por muito tempo, essa abordagem foi mal vista como uma ausência de sentimentalismo e humanidade em suas obras, como a diretora deixa claro no filme. Entretanto, essa discussão também pouco se desenvolve, uma vez que muito se fala, mas pouco se mostra das excentricidades dos trabalhos de Cézanne. As próprias obras geralmente são vistas de relance, como participações especiais em um debate no qual deveriam ser protagonistas.

Tecnicamente, “Cézanne e Eu” é correto, com figurino e direção de arte cumprindo bem seu papel de representar fielmente a época em que a trama se desenrola. A fotografia, mesmo que pouco inventiva, procura incorporar ao filme as cores dos quadros de Cézanne, especialmente em cenas externas. O trabalho de maquiagem e cabelo, por sua vez, é notável, garantindo uma boa caracterização das personagens em diferentes idades.

Apesar de boas performances centrais que conseguem manter o longa minimamente assistível do início ao fim, “Cézanne e Eu”, infelizmente, é um filme indeciso. Confuso demais para o leigo e raso demais para os iniciados, fica a sensação de um projeto que tenta agradar todo mundo, mas que acaba agradando ninguém.


Imagens e vídeo: Divulgação/Media Bridge/Bretz Filmes

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CinemaFrança

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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