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CríticaFilmes

Crítica: Como você me vê?

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Convidado Especial
24 de janeiro de 2018 4 Mins Read
A arte milenar da atuação despida da glamourização

filmes 12716 postercomovcmeveDesde que Téspis, munido de uma máscara e vestindo uma túnica apresentou-se na Grande Dionisíaca da Grécia Antiga interpretando o Deus Dionísio e destacando-se do coro, o termo hipócrates veio ao mundo para definir o que chamamos de ator – aquele que domina a arte milenar da interpretação. Convenhamos que o ofício sofreu transformações ao longo dos séculos – uma vez à margem da sociedade a profissão já foi comparada a prostituição, e, só nos anos 80 foi legalizada, com carteira assinada e demais direitos trabalhistas. A glamourização desse ofício trouxe, ao olhar do público leigo e aspirante, a ideia de que o ator vive em meio a regalias, fama e fortuna. Em pleno 2018, para desmitificar essa ilusão chega ao circuito de cinemas o documentário “Como você me vê?” de Felipe Bond.

Logo nas primeiras cenas fica clara a principal proposta do projeto: expor os bastidores – com a revelação das câmeras, da equipe, da preparação de quem vai ser entrevistado, mostrando todo o esforço por trás de fazer cinema. As entrevistas que vão se intercalando, por sua vez, desnudam a arte do ator – as intervenções da própria produção são mais presentes nos minutos iniciais e reaparecem esporadicamente ao longo do documentário para delinear a verdadeira intenção do diretor. Tudo isso acompanhado por uma trilha magistral que de forma discreta ambienta todo o cenário.

As entrevistas são alinhadas de forma a colocar em sequência discursos coerentes entre si – ainda que cada fala seja bastante individual – fazendo com que as subjetividades estejam ali falando de assuntos tão universais para o meio – as inseguranças, instabilidades e outros sentimentos recorrentes acerca da profissão. Dentre as falas o público é apresentado desde a atores com carreiras sólidas e reconhecidas como: Cassia Kis, Osmar Prado, Letícia Sabatella, Gracindo Júnior, Zé Celso e Stênio Garcia, até aqueles que precisam de alternativas paralelas à arte para prover seu sustento – como Marília Coelho que além de atriz é diarista e Mc, Carlos Granda que vira noites adentro dirigindo um táxi e, pasmem, o próprio Tonico Pereira que, surpreendentemente dirige um negócio de camisetas para suportar os momentos de “vacas magras” –  Trazer esta multiplicidade de estilos de vida e experiências com o ofício é de uma riqueza inigualável ao documentário, faz com que ele chegue ao X da questão – a nobreza de atuar com os pés bem fincados no chão.

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O requinte poético está presente – afinal é impossível tratar de uma arte tão milenar quanto o teatro e não trazer à tona um certo tom de adulação – de uma forma completamente à serviço das verdadeira intenções de Felipe Bond. Júlio Adrião é responsável por compor o prólogo com o texto de Plínio Marcos sobre atores e ao longo do filme o público é agraciado com passagens do seu premiado monólogo: “A descoberta das Américas” que lhe rendeu o Shell de Melhor Ator. Além disso, vários artistas, trazem falas lúdicas – como Matheus Nachtergaele, Cassia Kis e especialmente Gracindo Júnior e seus filhos, Gabriel e Pedro, também atores, declamando um texto que o seu avô Paulo Gracindo encenava. Porém o objetivo principal é o diálogo direto, informal e profundamente realista para com quem assiste – trazer à tona o que significa ser ator e artista num país que tanto subjuga a cultura como o Brasil. Entender que não existe uma linha de chegada como o horário nobre e sim que teatro se trata de uma arte artesanal, contínua, intensa e ininterrupta.

Já disse Plínio Marcos: “Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.” – e assistimos pela tela grande justamente ás fraquezas destes atores – seus pontos fracos, desnudos e indefesos. Como o próprio diretor alertou antes de apresentar sua obra: “É um longa longo”  – porém isso não interfere em nada à sua apreciação. O espectador mal sente o tempo passar e ainda sai da sala de cinema querendo mais. Trata-se de uma verdadeira aula para o ator, não ator, aspirante, profissional, amador, enfim todos. Em 2017 o filme acumulou alguns prêmios como o de Melhor Documentário no FICA.VC e Melhor Roteiro no FestCine Maracanaú. Está em cartaz no circuito Estação e – como em toda produção nacional – é importante que seja assistido nas primeiras semanas. O conselho é correr para os cinemas para desfrutar de um verdadeiro espetáculo.


Por Rayza Noiá

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