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CríticaFilmes

Crítica: A Ghost Story

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
24 de janeiro de 2018 3 Mins Read

394075Vivemos. Mas, para qual propósito? Estamos neste planeta apenas de passagem, isso é fato. A ciência busca respostas; a arte discute a breve existência, enquanto vagamos em nossas vidas até que ela chegue ao fim. O fim sempre vem, e deixamos para trás tudo aquilo que nos era importante. Abandonamos nossos entes queridos, até que eles também desapareçam e se juntem a nós, para que voltemos a compor a matéria do que é feito o planeta. O planeta também se vai, daqui a bilhões de anos, e todos farão parte do que forma o universo. Desapareceremos para sempre, ou quem sabe renasceremos em outro universo, transformados, bem longe de onde era nossa pequena terra.

Pode parecer triste, mas a vida é um ciclo que se repete até se esgotar, se transformar e, quem sabe, desaparecer. “A Ghost Story” é uma pequena pérola que divaga sobre esse processo existencial, sem a ambição de achar uma resposta, o que, de fato, seria impossível. O talentoso cineasta David Lowery consegue confeccionar sua história de forma concisa, indo direto ao ponto. O casal formado por C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara) discutem sobre se mudar da velha casa onde moram. Ela quer e ele não. Tudo muda quando C morre em um acidente de carro e se torna um fantasma (aqueles cobertos por lençóis, com dois buracos nos lugares dos olhos) e passa a “assombrar” a casa.

C não consegue sair da casa, mesmo quando M vai embora. Ele acompanha as inúmeras pessoas que vivem no local com o passar dos anos. Essa passagem de tempo é bem trabalhada pela edição, que usa cortes imperceptíveis e faz os anos transcorrerem sem mudar a posição de câmera ou mesmo movimenta-la. Apenas o cenário e as pessoas são modificados. A razão de aspecto usada é parecida com a das câmeras super 8, formando um quadrado com as bordas arredondadas, evidenciando assim a intenção de transformar o filme em um registro documental, aquele que se repete em todas as famílias norte americanas que usavam esse tipo de câmera para filmar suas passagens. “A Ghost Story” não é um filme de cores vivas, mesmo quando o sol bate nas lentes. A aura mística é reforçada por causa da leve nevoa que cobre a fotografia. Os figurinos com suas cores neutras auxiliam na impressão de que a imagem está prestes a desaparecer.

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O desempenho de Mara é comovente, seu sofrimento está explicito em suas expressões, (principalmente no longo plano em que come e ao mesmo tempo destrói uma torta, deixada para ela por uma amiga, logo após o velório) assim como a aceitação de que seu amor se foi. O amor que aquele triste fantasma também sente. Mesmo não possuindo um rosto, é muito fácil perceber a sua tristeza por meio de sua movimentação lenta e pelo lençol que vai ficando sujo com o desenrolar dos anos. Os olhos, mesmo sendo apenas dois buracos pretos, parecem se mover e faz com que imaginemos lúgubres sobrancelhas arqueadas. Não se sabe se foi o próprio Casey Affleck que ficou por de baixo do pano, o que seria fantástico, já que abdicaria ao narcisismo inerente à profissão.

“A Ghost Story” possui elementos que o transformarão em cult no futuro, já que foi relegado pelas premiações e pelo público (foi lançado em julho de 2017 nos EUA), só sendo considerado pela crítica, que o idolatrou em sua maioria. Claro que, por se tratar de uma produção pequena, encontrou seu lugar no circuito de arte e em festivais. No entanto, não deixa de ser uma pena, pois todos merecem o prazer que é descobrir uma obra tão tocante e inspirada no meio de uma realidade de produção tão saturada por histórias iguais.

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ArteCinemaDicasDramaFestivalRomance

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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