Crítica: Feito na América

Insano e nada previsível, mesmo sendo baseado
em uma história real

Uma verdade precisa ser dita em relação as diversas adaptações biográficas que despontam anualmente no mercado cinematográfico: nem todas são suficientemente interessantes para as telonas. Não pela a história em si, ou tudo que a pessoa tenha vivido e/ou representado, mas, sim, pela forma em que a mesma foi conduzida pelo roteirista e os demais envolvidos na produção até o dia do lançamento. Durante esse processo diversas pessoas acabam tocando no projeto, delimitando pontos importantes que fazem falta para uma trama enriquecida e funcional. E se não bastasse, o toque da classificação é o peso que nenhuma obra adulta deseja sentir. O que faz com que os produtores, corretíssimos, passem a pensar no próprio bolso, deixando a qualidade um “pouquinho” de lado. Ou seja, o que nos é apresentado no final, muitas vezes, torna-se uma versão pobre do que realmente foi a vida daquela pessoa.

Claro, como toda arte, o cinema proporciona várias vertentes, e com elas diversas formas de pensar, agir e contar uma história. Com isso, em meio a vários produtos distribuídos, quase sempre é possível encontrarmos obras inesquecíveis e tocantes, como é o caso de “Na Natureza Selvagem”, “Clube de Compras Dallas” e por aí vai. Isso quando essa mesma tempestade de ideias não traz algo inovador, que pode ser considerado um verdadeiro achado. Como foi o caso do excelente “Prenda-me se for capaz” e o recente e interessante “Feito na América”, o mais novo filme lançado pelo astro Tom Cruise.

Distribuído pela Universal Pictures, o filme traz o ator como você nunca viu, abraçando um projeto diferente, sagaz, que arranca quase que por completo o conhecido semblante de “mocinho” que vinha sendo ostentado por Cruise há anos, para nos apresentar uma figura ambiciosa e bastante impulsiva que acaba se envolvendo com o narcotráfico internacional para manter estilo de vida que sempre sonhou, bem como a adrenalina que necessita constantemente. Baseado em eventos reais o enredo conta uma fase da vida de Barry Seal, um talentoso piloto comercial que usa seu cargo para assegurar o seu financeiro com trabalhos esporádicos que, normalmente, envolvem pequenas exportações de produtos não declarados. O problema é que, devido suas expertises, ele acaba despertando a atenção de Monty Schafer – um agente da CIA interessado em se destacar com o trabalho de Seal. Com isso, em meio a certa pressão, Barry acaba aceitando a proposta feita pelo agente e se vê dentro a uma perigosa missão que acaba abrindo portas que poderiam oferecer muito mais a ele. Porém, com um custo alto.

Embora a vida do piloto já tinha sido retratada em séries e até mesmo filmes, a produção aposta em algo alternativo, muito mais irreverente em relação aos demais produtos. O uso de muitos efeitos práticos para trazer mais realidade a obra, deixa tudo mais relevante e diferente do que estamos acostumados a ver nos blockbusters atuais. Com isso, somos apresentados a uma história mais vívida que é totalmente corroborada pela ótima fotografia que falaremos mais adiante.

O roteiro explora os fatos de forma inusitada, apresentando o discurso contraditório feito pelo governo americano na época em que se passa a história. Tudo é tão absurdo, como a cena que personagem foge de bicicleta com rosto sujo de cocaína, que podemos achar que se trata de uma história fictícia. Mas isso acaba sendo o ponto forte do script, que traz bons diálogos e uma estrutura narrativa mais “aventuresca”, dentro de uma história séria – que poderia facilmente tombar para um dramalhão. Porém, ao mesmo tempo que o roteiro de Gary Spinelli (“Stash House”) acerta, o texto também falha na submissão de certas licenças poéticas que pecam em determinados excessos.

Doug Liman, responsável pelo interessante “No limite do amanhã”, é quem comanda a realização e faz isso de forma leve e descontraída. Seu trabalho é perspicaz e bebe em uma direção de atores com tendências cômicas, que depende do olhar certo e uma correta sequência de enquadramentos capazes fazer determinadas ações funcionarem como se fosse uma piada bem contada. Com uma intrépida decupagem de direção, enamorada do trabalho desenvolvido pela série “Narcos”, O diretor brinca com um formato que não funciona na maioria das vezes, contudo, aqui, acaba caindo como uma luva deixando o filme mais frenético, com uma tensão que aumenta gradativamente como o tic tac de uma bomba relógio prestes a explodir.

A fotografia, repleta de cores vivas, explorada pelo brasileiro César Charlone (“Cidade de Deus”), foi uma boa sacada para acender o caminho do protagonista transformando-o na grande vítima da situação. Bem como a reconstituição feita por todo departamento de arte e figurino. Com uma atmosfera que nos lembrar os grandes filmes de aventura e ação dos anos 70 e 80, acompanhamos o nosso herói em uma jornada até o seu destino final. E essa vivacidade é crucial para que possamos nos preocupar com Barry o tempo todo, mesmo esse sendo um grande oportunista.

A edição, bem como todo o trabalho desenvolvido pelos departamentos de som e trilha sonora, cria ainda mais ritmo para o filme. Cortes secos e certas inserções de imagens de arquivos, tornam o filme ainda mais intrigante. Sem falar que a mixagem de som, de forma minuciosa, se encaixa muito bem a uma trilha sonora jovem e totalmente inteirada com o momento.

Tom Cruise (“A Múmia”) interpreta Barry seal, se despindo de todos os maneirismos que o fez se tornar um grande astro. Sua construção é detalhada, como expressões que funcionam muito bem para o anti-herói. Entretanto, não é somente ele que está bem ali. Domhall Gleeson (“Ex-Machina”)mais uma vez prova que é um ator em ascensão e que precisa ser observado de perto. Taí um nome que tem tudo para crescer com o tempo. Sara Wright (“A Minha Casa Caiu”) também não decepciona e joga de igual para igual com Cruise, com quem contracena a maior parte do tempo. Os demais atores coadjuvantes também estão bem em cena, tirando Caleb Landry Jones (“Corra”)e seus exageros desnecessários. Isso poderia facilmente ter ficado de fora com a escolha de um melhor ator.

“Feito na América” não é um grande filme, mas é muito bem realizado e nada previsível. Mesmo sendo baseado em uma história real, ficamos torcendo para tudo dar certo no final. Divertido e tenso ao mesmo tempo, o filme é uma boa pedida para o fim de semana.

Crítica: Feito na América
8Pontuação geral
Produção8
Roteiro7.5
Direção8
Fotografia8
Design de Produção8
Elenco8
Votação do leitor 3 Votos
5.2