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Crítica

Crítica: The Love Witch

The Love Witch

Lá pelo final dos anos 90, o hit “Ela é demais” da dupla sertaneja Rick & Renner emplacou, tocando nas rádios até dizer chega. “Uma deusa, uma louca, uma feiticeira. Ela é demais!”, era o refrão. Eu não devia ter mais do que quatro anos, mas na minha cabeça de criança já conseguia assimilar, dentro de dadas proporções, o que aquelas palavras significavam: a representação da mítica feminina; a mulher ideal.

Deusa. Louca. Feiticeira. Em época em que o feminismo floresce a cada dia com mais força, a desconstrução desse imaginário torna-se palavra de ordem. É o que com exuberância e deboche faz o segundo longa de Anna Biller, o fantástico – em todos os sentidos da palavra – The Love Witch”.

Escrito, dirigido e montado por Biller – que também ficou responsável pela direção de arte, concebendo figurinos e cenografia –, o filme é quase como se Samantha Stephens, do clássico da televisão americana “Bewitched”, um dia acordasse em um filme giallo – gênero de filmes terror italiano –, só que um pouquinho vingativa e sociopata. Na história somos apresentados a Elaine Parks (Samantha Robinson), uma jovem bruxa que sai de São Francisco a fim de recomeçar sua vida após a morte de seu ex-marido. Morando em um duplex que divide com um casal que vive junto há dez anos, Trish e Richard (Laura Wandell e Robert Seeley), a moça passa a seduzir homens na cidade.

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Um tributo ao cinema das décadas de 60 e 70, “The Love Witch” recria a estética desse período com uma precisão assustadora. Filmado em película 35 mm, técnica que tem perdido cada vez mais espaço para o digital, cada detalhe transpira os trejeitos de uma forma de fazer filmes que não existem mais. Para cenas em que a protagonista dirige seu conversível, temos o clássico telão que simula o movimento do cenário. Flashbacks ganham uma névoa avermelhada, as transições são feitas em fade – a imagem vai esmaecendo enquanto a próxima aparece – e o flare da luz na lente, criando raios multicoloridos, atesta os momentos de alucinação.

Se no emprego dos recursos técnicos o longa transborda estilo, não é preciso muito para deduzir como é o trabalho dedicado ao figurino e à cenografia. Entre típicos olhos maquiados com delineado “gatinho” e botas à Nancy Sinatra, pentagramas desenhados no chão e elementos da cultura wicca ajudam a compor o ambiente, dando à produção um tom singular. Para coroar a estética que cria, a cereja do bolo fica com o trabalho dos atores, que em sua interpretação emulam as afetações dos intérpretes daquela época. O conjunto da obra fica ainda melhor quando um detalhe específico nos é apresentado em seu último ato, abalando positivamente sua recriação histórica (vocês saberão quando assistirem).

Entretanto, o mérito do filme da cineasta americana não para em seu visual. “The Love Witch” usa a fábula da feiticeira e sua estética, que, vejam bem, é consciente da sua própria artificialidade, para discutir a construção do imaginário em torno do feminino. “Homens são como crianças, eles são muito fáceis de agradar, desde que você dê a eles o que eles querem.” Declara a protagonista no começo do longa. E é o que ela faz. A bruxa se relaciona com os homens em busca de amor, dá o que eles querem – muitas vezes sexo – e com seus feitiços consegue fazer com que eles a amem, só que, literalmente, até a morte.

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Marcada por um passado de relacionamentos pouco saudáveis com homens – em uma cena ouvimos em off falas de seu pai e seu ex-marido criticando-a por suas habilidades domésticas e aparência física – , Elaine adere a bruxaria como forma de tornar-se dona de si mesma, encontrar o seu próprio poder e tirar o que ela quer dos homens, não ao contrário. Ela é o arquétipo da femme fatale, a mulher desejada pelo sexo oposto, mas usa de seus atributos não para agradá-lo, mas sim – inconscientemente ou não – puni-lo.

Em uma indústria tão machista quanto o cinema, ter um filme como “The Love Witch” não só criativamente todo concebido por uma mulher, mas que também consegue colocar em um delírio questões tão cotidianas em nossas vidas é sempre muito bem-vindo. Elaine Parks, dentro do possível, representa muitas de nós.

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1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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