Crítica: Eu Não Sou Um Homem Fácil

Ao ver uma mulher que lhe chama a atenção, o homem não perde a oportunidade de cantá-la. A resposta a seu galanteio é fria, limita-se a um revirar de olhos de quem já está familiarizado com esse tipo de assédio. “Quando vou te ver de novo?”, ele insiste. “Em outra vida”, ela retruca.

De fato eles se reencontram em outra vida. Um universo estrangeiro em que não são os homens que fazem as investidas sexuais, mas sim as mulheres e não só isso: elas têm os principais cargos no mercado de trabalho, são as provedoras do núcleo familiar e, pasmem, têm o prazer privilegiado na hora do sexo.

Nessa formação coletiva peculiar, tão diferente da nossa, é que acontecem os eventos absurdos de “Eu Não Sou Um Homem Fácil”, primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Eleonore Pourriat, que através da sátira se propõe a discutir os papéis de gênero – e sua dinâmica tóxica – na sociedade contemporânea ocidental. Curioso é que a produção francesa chega a Netflix meses depois da polêmica carta aberta assinada por cem artistas e intelectuais do país criticando a onda de denúncias de assédio sexual em Hollywood, além de defender a “liberdade de importunar”.

Comportamento que é corriqueiro para Damien (Vincent Elbaz), um publicitário arrogante que se acha um gênio por desenvolver um aplicativo que contabiliza seu número de parceiras sexuais e que não se poupa em constranger a maioria das mulheres  com que cruza durante seu dia. Esse cenário muda após sofrer um acidente – bater a cabeça contra um poste – depois de ser rejeitado por Alexandra (Marie-Sophie Ferdane), assistente do escritor e seu melhor amigo, Christophe (Pierre Benezit). Ao recuperar a consciência, ele percebe que acordou em um matriarcado.

Sim, o fanfarrão machista desperta em uma realidade paralela, em que as mulheres estão no topo da pirâmide social, esbanjam privilégios, oprimem, assediam e objetificam os homens. Perdido nesse mundo em que a carta mais poderosa do baralho é a dama e o preservativo feminino é o mais encontrado nas farmácias, ele topa de novo com a jovem que o rejeitou – que agora não é mais secretária, mas sim uma autora famosa – e enxerga nas regras dessa sociedade uma chance de enfim conquistá-la.

Estendendo as ideias que movem seu excelente curta “Maioria Oprimida” (2010), o novo filme de Pourriat perde por não conseguir desenvolver o debate com a mesma força, porém surpreende pela imaginação de seu material. Zombeteiro, o projeto não deseja pensar como seria de fato uma sociedade matriarcal, preferindo conceber os papéis invertidos, o que é ao mesmo tempo fascinante e desconfortável – uma vez que perturba estruturas tão familiares ao espectador.

Assim, é difícil não gargalhar ao ver o corpo de homens estampados como objeto de decoração por todos os espaços, sendo rejeitados por não se depilarem, enquanto as mulheres correm na rua sem camisa e chegam ao orgasmo pouco se importando se o parceiro alcançou também o clímax. A construção dessa comunidade misândrica é tão minuciosa que em um breve instante, vemos um filme passar na televisão de um dos personagens e a câmera passar pelo corpo do rapaz em cena, o que é, infelizmente, uma jogada comum no audiovisual também do lado de cá.

Essa estrutura torna-se ainda mais crível com a riqueza da mis-en-scène. Com um trabalho de cenografia espirituoso, a relação entre os gêneros nessa realidade paralela está expressa em pequenos detalhes do cenário, desde a placa em que o protagonista sofre a pancada – que troca no nome de um dos pontos turístico de Paris a palavra “pai” por “mãe” -, até títulos famosos da literatura que são modificados para reforçar a força feminina como o clássico “Homens e Ratos” de John Steinback, que se transforma em “Mulheres e Ratos”, e o Marcel Proust, que se torna Marcelle Proust.

Inclusive, o peso dado a alguns objetos de cena conseguem deixar claro o absurdo de muitos de nossos comportamentos quando o assunto é se identificar homem ou mulher – o longa discute fundamentalmente a divisão binária, pouco reflete sobre os espectros fora dela. Damien, por exemplo, estranha quando vê que seu guarda-roupa no matriarcado é recheado de roupas coloridas e extravagantes; peças afeminadas. Tais elementos, porém, deveriam ser determinantes? Esse tipo de definição é esdrúxula, o que o longa deixa claro.

A atenção aos detalhes e o que eles comunicam enriquecem a produção, mas, infelizmente, não são o suficiente para transformá-la em uma obra-prima. Construindo a sátira através de clichés de filmes de comédia romântica – quase um “Do Que As Mulheres Gostam?” feminista – a cineasta acaba comprometendo seu roteiro, já que o contexto criado por ela se torna mais interessante do que a trama central. Dessa forma, a discussão parece nunca decolar, mantendo-se monótona. Mesmo com um desfecho sugestivo, o desenvolvimento dos personagens principais, no final das contas, não traz à reflexão nada do que o senso comum não saiba.

Logo, “Eu Não Sou Um Homem Fácil” é perspicaz, mas não afiado o suficiente para deixar marcas profundas. Ainda assim, tomara que seu selo “Original Netflix” seja o suficiente para levar o debate de gênero a quem pouco pensa sobre ele. Cruzemos os dedos.

Crítica: Eu Não Sou Um Homem Fácil
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