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CríticaFilmes

Crítica: Maria Madalena

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Luiz Baez
13 de março de 2018 3 Mins Read

5445593.jpg r 1920 1080 f jpg q xUma das mais devotas seguidoras de Jesus, Maria Madalena aparece no cinema frequentemente reduzida à imagem de uma mulher adúltera. Filmes como “Jesus Cristo Superstar” (Jesus Christ Superstar, 1973), “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation of Christ, 1988) e “A Paixão de Cristo” (The Passion of the Christ, 2004) figuram entre os mais famosos exemplos dessa representação.

A confusão teve início em 591 d. C. Durante uma de suas homilias, o papa Gregório Magno associou Madalena a outra personagem do Evangelho de Lucas, uma prostituta. No contexto de seu discurso, o cristianismo tentava decidir se mulheres poderiam ou não receber a ordem sacerdotal. A vinculação da discípula a práticas condenadas pela Igreja e a consequente negação de seu papel como apóstola atendiam, portanto, a objetivos estratégicos. Apesar da condição de santa estabelecida no século XIX, a imagem anterior de uma libertina convertida povoa até hoje o imaginário popular.

Diante desse equívoco milenar, “Maria Madalena” (Mary Magdalene, 2018), novo longa-metragem da Universal Pictures, propõe-se à difícil missão de reconstruir uma figura histórica. O filme apresenta, dessa forma, a jovem Maria (Rooney Mara), nascida em Magdala, como a mais lúcida dentre os seguidores de Jesus de Nazaré (Joaquin Phoenix). Sua fé inabalável e sua caridade irrestrita servem de ensinamento até mesmo para Pedro (Chiwetel Ejiofor) e os demais apóstolos, movidos quase exclusivamente pela esperança de uma recompensa divina.

A importante iniciativa revisionista, contudo, perde sua potência nas mãos de Helen Edmundson (estreante no cinema) e de Philippa Goslett (Poucas Cinzas: Salvador Dalí, How to Talk to Girls at Parties). Ao abusarem de diálogos autoexplicativos e de cartelas e letreiros desnecessários, as roteiristas britânicas aproximam-se das narrativas televisivas e reservam, assim, pouco espaço para uma linguagem propriamente cinematográfica. O didatismo, característica maior de seu texto, manifesta-se, entretanto, com ainda maior intensidade no tratamento sonoro do longa-metragem.

src 1516697144mariya magdalina

Assinada pelo recentemente falecido Jóhann Jóhannsson (Sicario: Terra de Ninguém, A Teoria de Tudo, Os Suspeitos, A Chegada) e pela também islandesa Hildur Guðnadóttir (Strong Island), a trilha musical ininterrupta tenta constantemente guiar as emoções dos espectadores e imprimir uma certa grandiosidade aos eventos retratados. A pretensa imponência desse recurso contrasta-se com a modesta direção de Garth Davis.

Capaz de transitar entre o sentimentalismo kitsch de “Lion: Uma Jornada Para Casa” (Lion, 2016) e a beleza sutil de “Top of the Lake” (2013), o cineasta australiano opta por uma contida abordagem, traduzida em atuações genéricas e em um visual de tons pastéis. As performances de Mara e Phoenix permanecem, desse modo, na zona de conforto dos atores, ao passo que a fotografia de Greig Fraser (Lion: Uma Jornada para Casa, Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo, Rogue One: Uma História Star Wars, A Hora Mais Escura) e o figurino de Jacqueline Durran (Anna Karenina, Desejo e Reparação, A Bela e a Fera, Orgulho & Preconceito) transmitem a aridez do deserto com paletas dessaturadas.

Em seu anseio por resgatar a verdadeira trajetória de sua protagonista e livrá-la de preconceitos e machismos históricos, “Maria Madalena” consiste, por fim, em uma produção repleta de boas intenções. O elogio, porém, não se repete em relação ao superficial resultado. Ainda que constitua um acerto a ênfase na não conformidade entre a personagem e o papel social esperado das mulheres de seu tempo, chama atenção a falta de repertório dos realizadores. Como consequência desse vazio criativo, qualquer tentativa de discurso metafórico fica perdida em meio a um universo óbvio e linear. Passadas, então, suas duas longas e enfadonhas horas, pouco resta no filme além do interessante tema, preguiçosamente enunciado por cartelas explicativas.

* O filme estreia dia 15, quinta-feira.

 

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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