Crítica: Más Notícias Para o Sr. Mars

Do espaço sideral para os conflitos do cotidiano em menos de duas horas de filme

Com um início promissor transbordando simbolismos extraterrenos, na metáfora que une o homem ao espaço sideral e a sua relação de pertencimento, “Más Notícias Para o Sr. Mars” sem dúvida é uma comédia, mas daquelas que se preocupam com a construção de algum fundamento sobre seus personagens, mesmo que mínimo em alguns casos.

As comparações vão um pouco mais longe, pois François Damiens (“Os Cowboys”) é Phillipe Mars, com nome de planeta e uma personalidade tão mundana quanto qualquer outra, ele tem um casal de filhos para lidar, uma ex-esposa muito ocupada e um emprego que a princípio parece tranquilo demais. A partir destes três pilares que toda a narrativa perseguirá de acordo com cada conflito específico. Por mais que existam alguns elementos fantásticos já desde o início do filme, além da viagem do homem ao espaço (que no caso é o próprio planeta Terra), as visões de Phillipe enxergando seus pais falecidos, que mencionam em alguns diálogos o existir de um mundo além da vida, esse é o máximo da subjetividade mais profunda que o filme alcança.

Com um primeiro ato excelente, onde a construção não apenas do roteiro foi bem entrelaçada, o filme consegue inserir todos os problemas casuais do Sr. Mars em decorrência de suas relações filhos-trabalho, que vão aos poucos elevando o nível do desgaste físico e mental do personagem principal. Uma comparação que sempre é bem-vinda em falar refere-se a “Deus da Carnificina” de Roman Polanski, no qual a trama ocorre dentro de um apartamento, apenas com os conflitos dos personagens e suas ações que vão acumulando divergências e confusões ao longo dos minutos. Basicamente é isso que o diretor Dominik Moll tenta fazer aqui, mas alternando estes acontecimento em diversos ambientes. Com cada núcleo de personagens separados durante o primeiro ato, e no decorrer do segundo e terceiro ato todos fazem parte do mesmo espaço físico.

Estamos diante de mais uma produção francesa, e outra de qualidade que chega aos cinemas do Brasil, como foram os casos de “Elle”, “Os Cowboys” e Imprevistos de Uma Noite em Paris, todas apenas no primeiro semestre de 2017. Sem contar o gênero do filme, mas analisando seu conteúdo e relevância, todas tem sua importância em algum aspecto técnico, seja ele em sua estrutura narrativa como no caso de “Os Cowboys”, que também tem François Damiens no elenco. “Elle” levou a protagonista Isabelle Huppert ao Oscar e “Imprevistos de Uma Noite em Paris” que por muitos aspectos se assemelha com “Más Notícias Para o Sr. Mars”.

O filme não apresenta algum diferencial técnico, mas pequenos detalhes importantes para o conjunto da obra, como as transições de ambiente destacadas pela fotografia em cenas externas sempre exaltando a grande movimentação das luzes, pessoas e carros. Deixando claro que aquela história específica contada faz parte de um todo, e que aqueles personagens estão inseridos em algo muito maior, uma cidade grande ou na imensidão de um planeta. Recursos técnicos esses, que propiciam um entendimento nas entrelinhas dos fatos, o que é raro em filmes deste gênero.

“Más Notícias Para o Sr. Mars” é uma produção franco-belga, que coloca em crise uma família de classe média que na verdade nunca se deram muito bem, mas que se mantiveram dentro dos limites até então. Enquanto inesperadamente são tirados da rotina e precisam lidar com novas pessoas, seus próprios interesses e um reconhecimento por atenção cada vez mais complicada de se alcançar nos tempos atuais.


Por Guilherme Santos

Crítica: Más Notícias Para o Sr. Mars
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