Crítica: O Monstro no Armário

A angustia que antecede a liberdade

mv5bmtg5mtm3odmxof5bml5banbnxkftztgwnzg3nzayote-_v1_sy1000_sx675_al_

O ser humano sempre será uma incógnita. Isso é um fato! O desequilíbrio que existe entre a razão e a emoção, na vida da maior parte das pessoas, ainda é uma constante indecifrável. Entretanto, algumas de nossas fases podem ser facilmente, ou melhor dizendo, estranhamente, explicadas a partir de nossas atitudes, muitas das quais refletem diretamente o carrossel psicológico que é nossa vida.

Segundo Freud, o pai da psicanálise, o desenvolvimento humano e a constituição da mente explicam-se pela evolução da psicossexualidade. O caminho traçado pela psique humana e seus instintos, muita vezes, se encontra enraizado a momentos específicos capazes de causar diferentes definições de comportamento. Transtornos como esses podem e são enfrentados em fases distintas durante a existência de qualquer ser humano.

O filme “O monstro no Armário”, retrata de forma poética algumas dessas etapas na vida de uma criança que vivencia certos conflitos familiares e cresce defrontando suas próprias escolhas e impulsos, seja essa o sentimento de abandono adquirido após a separação dos pais e/ou o medo dos caminhos que sua sexualidade está prestes a traçar. Isso sem mencionar o constante embate gerado pela angústia, capaz de provocar o mais forte dos apertos no peito, a imensurável dor causada pelo pavor da solidão, a ponto de explodir a qualquer momento.

A história gira em torno de Oscar Medly, um jovem artista que usa a maquiagem e a fotografia como mecanismos para expressar seus sentimentos mais contidos. O seu sonho mais puro é frequentar um disputado curso que escolheu há tempos, mesmo sabendo de suas chances ele decide arriscar todas suas cartas no mesmo. Nesse meio tempo, convive com a separação dos pais, a indiferença com a melhor amiga, um repentino desejo por um colega de trabalho e a falta de controle emocional e mental que acende certas imagens em sua mente. No auge de suas descobertas sexuais, ele precisa aprender a se encontrar em meio a todos os desafios que batem à sua porta e, para isso, passa seus dias desabafando com “Buffy” seu Hamster de estimação.

O filme prova, sem dificuldade alguma, que não é preciso altos recursos para se realizar uma produção de qualidade. Nesse caso, o trabalho de Fraser Ash, Niv Fichman, entre outros, preenche todas lacunas e ainda surpreende quanto sensibilidade e elegância que contexto carrega. Com cada detalhe, muito bem desenvolvido, “closet monster” (título em inglês) acaba por ser um dos melhores filmes presentes na mostra do Festival do Rio 2016.mv5bztaxngq5m2mtmzrkzi00odcylwezotgtmgrkmwuzmdnjzjcxxkeyxkfqcgdeqxvyntmzotu3nza-_v1_O roteiro, escrito pelo novato Stephen Dunn, é uma mistura de tensão e cumplicidade, idealizada de forma extraordinária. Sem perder o equilíbrio entre uma e outra, a junção acaba por fazer do enredo algo quase perfeito. Minuciosamente elaborada para não conter longos declínios em sua estrutura, a construção da trama cativa facilmente o espectador, envolvendo-o nas diversos questões vividas pela personagem principal diante todos ao seu redor. Além dessa, as demais personagens também foram bem concebidas, enriquecidas com diálogos bem arranjados e linhas de ação que faz cada uma delas crescerem no fluxo, gradativamente, até o ápice do filme.

A direção é do próprio Dunn, e, por alguns momentos, faz lembrar a estética traçada pelo original Nicolas Winding Refn, diretor responsável por “Drive” e o recente “Demônio de Neon”. O uso de enquadramentos precisos para revelar o apelo psíquico, bem como movimentos de câmeras imprecisos, capazes de causar certo nervosismo e ângulos extremamente claustrofóbicos, fazem do filme uma verdadeira obra prima de imagem e som. O diretor também soube brincar com a câmera lenta de forma sensata, instigando ainda mais o público ansioso pela continuidade da história.

Bobby Shore não fica muito atrás, como o braço direito do diretor e responsável pela fotografia realiza um trabalho competente e digno de palmas. A escolha por paletas de cores que variam do quente ao frio em questões de segundos, atiça a memória emotiva de quem está assistindo, fazendo-o se aproximar cada vez mais da personagem, criando a empatia necessária para obra.

Extremamente detalhista, o figurino e direção de arte são pontos a mais para o espetáculo que é o filme canadense. Atuando com perfeição, sem perder a linha de raciocinio da produção, Melanie Oates e Aer Agrey (nessa mesma ordem) conseguem deixar a atmosfera muito mais interessante e pomposa.

A cereja no bolo da proposta, o que faz lembrar ainda mais uma obra de Refn, e nesse caso também um direcionamento ao genial trabalho de David Cronenberg, é a acertada e impactante escolha da trilha sonora que abusa de contrapontos utilizados no eletrônico para aguçar o desejo do público em relação as cenas. A mesma faz o emocional do espectador dançar entre a angústia e o prazer com sabedoria.

Embora seja uma concepção que não venha agradar o grande público, “O monstro no armário” é uma produção que precisa ser apreciada sem moderação. Doravante uma qualidade impressionante para um filme independente, o projeto funciona como um grito de socorro para alertar sinais que podem surgir de dentro de sua própria casa, os quais buscam apoios iminentes que precisam começar a existir e serem aceitos a partir da própria família. Uma obra prima feita com amor e sensibilidade.

Crítica: O Monstro no Armário
9.5Pontuação geral
Produção9.5
Roteiro9.5
Direção10
Direção de Fotografia10
Direção de Arte9.5
Trilha Sonora9.7
Edição9.5
Votação do leitor 17 Votos
8.5