14 de dezembro de 2019

Em 2010, com o lançamento da franquia “Sobrenatural” e, alguns anos depois, “A Invocação do Mal”, James Wan trouxe um aspecto de revivalismo para os “blockbusters” de terror, com suas fortes inspirações nos longas dos anos 1970. A popularidade deles gerou, naturalmente, uma grande quantidade de filmes que tentam emular esse estilo, saídos dos mais diversos países. Nessa onda, surge “O Terceiro Olho”, uma nova produção da Indonésia, distribuída mundialmente sob o selo “Original Netflix”, que de original tem pouco, mas se encontra na Netflix.

O Terceiro Olho” segue duas irmãs, Alia (Jessica Mila) e Abel (Bianca Hello), que perdem os pais em um acidente de carro e se veem obrigadas a voltar para a casa em que passaram a sua infância, na qual Abel tem visões sobrenaturais constantes. Essas experiências ocorrem porque a irmã mais nova tem o seu “terceiro olho” aberto, uma janela para o outro mundo e, incrédula com a situação, Alia pede para a médium Windu (Citra Prima) ajudá-la a também desenvolver essa habilidade psíquica. Com a continuação das assombrações, as duas devem desvendar quem são os espíritos responsáveis e por que eles estão tão interessados em sua residência.

Como já foi observado, o roteiro não é nada original, parecendo uma mistura nada sútil entre “O Sexto Sentido” (1999) e “Sobrenatural” (2010), pois utiliza exatamente a mesma estrutura, pontos de virada e até mesmo as reviravoltas desses dois longas. A maior diferença é que, enquanto Shyamalan e Wan desenvolvem seus personagens, o script de Rocky Soraya as deixa o mais superficial possível. Nada é construído, nem o relacionamento das duas personagens, nem como sua vida era na normalidade, o longa começa imediatamente com as assombrações antes de dar a oportunidade de simpatizar com as protagonistas.

A falta de sutileza também é presente nos diálogos, principalmente os de Windu, que está o tempo todo explicando as regras (que não fazem muito sentido) do sobrenatural. Inclusive, o grande momento da reviravolta na trama (que também não faz muito sentido) é feito da maneira mais sem graça possível, já que a médium só explica a situação para a protagonista como se fosse um problema de matemática. Não tem uma sensação de mistério ou de descobrimento, apenas uma personagem explicando o enredo.

O script pobre poderia ser amenizado com boas atuações, o que, infelizmente, também não é o caso. Nenhuma das três atrizes mais relevantes teve muita experiência antes desse longa, o que é bem aparente na sua falta de emoção, apesar de Jessica Mila ainda conseguir entregar uma boa performance nas cenas mais exigentes. O ator que mais se destaca – e que também já participou de outros longas mais conhecidos – é Epy Kusnadar, que interpreta o jardineiro da casa mal-assombrada.

O que salva a produção de ser um completo desastre é a direção, também de Rocky Soraya, que tem uma boa técnica, mas ainda assim deixa a desejar. O diretor abusa de recursos diferenciados, como o plano longo que passeia pela casa, ou o constante uso de drones para enquadramentos plongée e zenitais, mas nada disso parece ter muito propósito. O maior exemplo disso é a sequência inicial, que apresenta Bangkok através de meia dúzia de planos gerais para, na cena seguinte, os personagens voltarem para a Indonésia, onde o resto do filme se passa.

Outro mérito da produção são seus efeitos práticos e maquiagem, que são grotescos e criam visuais assustadores para os espíritos. Esse esforço, porém, é desperdiçado com a utilização de computação gráfica de qualidade duvidosa e, o mais absurdo, a aplicação de alguns espíritos no cenário através da tela verde que, além de ser mal feita a ponto da proporção do tamanho dos fantasmas não bater com a do fundo, também é inútil, já que não tem motivo para os dublês que interpretam os espíritos não estarem realmente em cena.

De todos os longas distribuídos pela Netflix, “O Terceiro Olho” é o mais “filme B”, já que nem uma produção interessante ele tem. É um longa que não tem muito para oferecer, salvo os seus constantes momentos de humor não-intencional.

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Oswaldo Marchi

Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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